Vida e Arte

Sonho CLXIII
 
 
Era preciso entregar uma obra de arte num museu que aceitasse coisas que tivessem tanto a ver com vida como com arte.
 
Mas os museus só queriam arte.
 
Lá dentro estava tudo morto e quem guardava esses tesouros hirtos do trabalho morto eram homens armados e totalmente vestidos de branco.
 
Até as botas e os capacetes eram brancos.
 
Até a viseira dos capacetes era branca.
 
«Que nojo. Tanta brancura.»
 
Pensava eu, com as telas enroladas debaixo dos braços.
 
Por fim, conseguia um museu que aceitasse aqueles trabalhos. De uma alta escadaria descia um bando de mulheres esguias e negras que traziam as suas potentes carapinhas em pé e que agitavam os membros freneticamente.
 
Compunham com aqueles movimentos espasmódicos das pernas e dos braços uma estranha dança que estava entre o transe tribal e a experimentação pós-moderna.
 
«Aqui é que é.» - Pensava eu.
 
Mas lá dentro dava-se início a uns jogos que desconfiava serem apenas pretexto para chegar a umas brincadeiras sexuais.
 
«Podes sempre começar a jogar e pões-te em fuga quando chegar a hora.»
 
Era a minha resolução, para não me sentir excluído, logo de início, daquele museu aparentemente tão interessante.
 
Como sempre, a primeira intuição estava totalmente certa e de facto via estendido no chão um homem dos seus cinquenta anos, completamente nu, muito branco e com uma barba rala, mas sem pilinha.
 
«Como é possível, com barba, ombros largos e cintura estreita, que não tenha os órgãos sexuais correspondentes? De onde vêm as hormonas que são responsáveis pelo desenho do corpo?»
 
No entanto, eu sabia perfeitamente que esta imagem do homem branco estendido no chão e com uma vagina no lugar de pénis vinha de uma descrição da nudez de Albertine realizada por Marcel, seu amante, n'A Prisioneira, de Marcel Proust.
 
Na verdade vinha dessa frase tão estranha com que Marcel se refere, não só aos «dois pequenos seios empinados» e «tão redondos que pareciam não tanto fazer parte integrante do seu corpo como terem ali amadurecido como dois frutos», mas principalmente ao «ventre (dissimulando o lugar que no homem se desfeia como um grampo que tivesse ficado cravado numa estátua recém-inaugurada)».
 
Ora, o que eu via com extraordinária nitidez no homem estendido no chão do meu sonho era essa junção nas coxas das duas valvas brancas e depiladas e que se assemelhava aos dois gomos paralelos de um fruto sumarento, mas que não tinha nada de suave, nem de repousante, nem de claustral como o céu logo após o pôr-do-sol, segundo as impressões de Proust, nessa estranha descrição.
 
Pelo contrário, essa visão provocava-me uma angústia subtil e rasteira, indefinível, como se a linha entre Eros e Morte, afinal, estivesse ainda por traçar.
 
E esse «grampo cravado numa estátua recém-inaugurada», como é que alguém pode lembrar-se de uma tal coisa, ao olhar para as coxas de uma mulher?
 
Da porta de um quarto, no interior do museu, podia ver-se uma grande cama com muitas raparigas aos saltos.
 
«Quem quer um homem sem pilinha?» - Perguntava alguém.
 
«Nós queremos! Nós queremos! Nós queremos!»
 
Gritavam as raparigas aos saltos.
 
E o sonho ficou-se por aqui.

Irritações

Fragmento 180

 
Porque é que Proust não tem outro nome para dar ao desejo doentio de Swann por Odette, do Barão de Charlus pelo violinista Morel e de Marcel por Albertine? Como é que o patologista pode ter uma análise tão fina da doença, fazer um diagnóstico tão preciso de todos os seus males, descrever e nomear, por diversas vezes e com excepcional precisão, as sombras e as franjas das suas múltiplas degenerações (o ciúme, o controlo, a imaginação desconfiada e desregrada, o domínio, a paranóia, a perseguição, a desconfiança, a humilhação, a posse, o vício, a semelhança entre este tipo de apaixonados e os opiómanos...), e depois falhar de um modo tão grosseiro a catalogação da doença? Eu acredito que os grandes escritores usam a língua de um modo literal. E chamar amor a isto é praticamente a mesma coisa que chamar sede ao impulso que leva um alcoólico a beber.

Sobre um Deus em sentido contrário

Sonho CLXII
 
 
Sentei-me no cais da estação tão só e tão vazio que sentia não chegar sequer a encher as calças, a camisa e o casaco - o fato.
 
Do outro lado chegou um Deus e sentou-se no cais oposto ao meu.
 
O que é que fiz?

Num ímpeto de generosidade, atirei-lhe as minhas luvas.

Crianças 5

O armário


Ser um armário é muito chato. Abrem a porta, fecham a porta. Sempre a pôr e a tirar coisas. Estou sempre quieto, sempre quieto, sempre quieto. E abrem a porta e fecham a porta. Estou cheio, cheio, cheio. Estou tão cheio que não posso mais. E com certeza vou rebentar.

Sobre os tempos de guerra

Sonho CIV


Estávamos no meio de uma guerra e, portanto, as raparigas eram obrigadas a deitar-se com quem aparecesse.
 
Mesmo assim, a F. de Riverday conseguia escolher e, afinal, parecia que as coisas não eram assim tão más.
 
No fim, ofereceram às raparigas a possibilidade de escolher entre uns pijamas limpos que estavam expostos em cima de mesas, mas só havia partes de cima, não havia partes de baixo.
 
Foi isto que lhe inoculou uma angústia difusa e insuperável.
 
Quando terminou a guerra e a deixaram regressar a casa, a F. de Riverday não conseguiu reconhecer a casa.
 
O jardim estava transformado num matagal e, na sala, teve de dar um beijo a uma mulher velha que estava sentada e que não sabia quem pudesse ser.
 
Seria a sua mãe? A sua avó?
 
A mulher não se levantou.
 
Era uma mulher fria e antipática e a F. de Riverday não queria dar-lhe um beijo.
 
Na sala de jantar estavam várias pessoas à volta de uma mesa, mas também não conseguiu reconhecê-las.
 
De resto, ninguém se levantou.
 
Das janelas via-se uma praia de cores alegres, pontuada aqui e ali pelas copas circulares e coloridas dos guarda-sóis. 
 
Foi só perante essa visão alegre que Riverday sentiu a violência que antes não sentira.
 
A angústia perante a visão suave foi de tal modo insuportável que lhe fez faltar o ar.
 
Desfeito em mil pedaços que voavam em todas as direcções ao mesmo tempo.
 
O corpo.

Roturas e Ligamentos, de Rita Taborda Duarte e André da Loba

 
 
 
 
Acredito que poucas coisas há tão difíceis como escrever sobre poesia - e mais ainda sobre poesia quase acabada de fazer, ou ainda a fazer-se. Porque é que a poesia resiste tanto? Porque é que nos envolve e fascina e nos incomoda como se fosse alguém que de súbito nos entrasse em casa, sem ser convidado?
 
Quase sempre a poesia carrega um excesso de intimidade - um excesso de corpo - e uma ausência de distância. Aquele «tu» que tantas vezes os poemas convocam faz com que nos fitemos cara a cara sem um pedido de licença. E talvez por isso a poesia seja sempre tão difícil de ler até mesmo para o próprio que a escreve, como se o imprevisto em pessoa resolvesse entrar sem aviso prévio por nós adentro.
 
Não por acaso, este livro que foi editado de forma invulgarmente cuidada pela abysmo está composto em caracteres «Amor», de Frantisek Storm, em papel de cento e cinquenta gramas, e abre-se em duas vias, pelo fim e pelo príncipio, isto é, pelos poemas da Rita Taborda e pelas imagens especialmente planas e musicais do André da Loba.
 
Não deixa de ser fascinante como a própria forma física e desconcertante do livro que nos faz lembrar a de dois gémeos siameses rima com a tensão que atravessa os poemas e as imagens.
 
Reencena-se aqui uma tensão muito antiga, um conflito muito velho. É entre a vida e a arte, entre as palavras e os gestos, entre o poema que diz amor e o corpo que faz o amor que existe uma fractura exposta. E é de facto no plano desta fractura e desta violência que se criam as roturas e ligamentos que vão criar um novo corpo, porventura, uma nova poesia.
 
As palavras são as «pedras perfiladas que fazem os mundos», mas também são «uma porcaria imensa: / uma mistura líquida de cuspo e restos de comida.» «Não é possível fazer poesia com restos de palavras mastigadas / que azedam num instante, ainda para mais se está calor.» A palavra «amor» podia ser «amor» ou «Boby, Tejo ou Lassie». «Qualquer nome lhe daríamos, ao amor / e o resultado seria sempre o mesmo: / Um ganido tímido / a morder-nos de cio o coração da noite.»
 
Porque se por um lado o amor é sempre «amor não-dito», por outro lado diz-se que «É preferível escrever-te que beijar-te: / a folha rasa    limpa    é corpo    liso.» E é urgente soletrar a palavra que fariam os corpos dos amantes, pois «nada / existe sem a palavra que o diga». 
 
Porém, ao contrário do que sucede nas imagens de André da Loba, que tendem para uma resolução das tensões em jogo, nesta escrita o conflito não se resolve, o que lhe imprime um aspecto atonal, suspensivo e, paradoxalmente, pela qualidade aristocrática do desencanto, qualquer coisa de encantador.
 
 
Escrevi-te o meu poema   dicionário ao lado
silabar de laje e de granito na gravidade da mesa.
Mas nem ao de leve te raspou a pele,
sopro fátuo e lasso     agilidade de sombra sob o sol.
Sequer vento emaranhando o teu cabelo.
 


Sobre o sentimento de inferioridade

Sonho CXXV


A Françoise estava na sua antiga faculdade, onde em tempos estudara, e à sua frente estava uma rapariga fascinante, que todos pareciam admirar.

O seu corpo era tão brilhante e com um aspecto tão escorregadio, por causa das roupas sofisticadas muito coladas à pele, que ela parecia um peixe.

Os cabelos negros muito lisos e brilhantes caiam-lhe sobre os ombros, cintilantes, e toda ela fazia lembrar um tubarão, tal era o seu poder.

«Que ridícula que és!...» Disse Françoise a si própria, ao lembrar-se das suas fantasias de grandeza. «Como poderias equiparar-te a um tal animal?»

Sentiu-se tão vexada ao apercerber-se da sua falta de sentido da realidade que procurou escapulir-se discretamente.

No entanto, parecia que o planeta era aquele mesmo planeta do futuro que se repetia em tantos dos seus sonhos, esse planeta em que todas as casas são subterrâneas e em que parece viver-se em estado de guerra ou de catástrofe eminente.

Françoise M. via ao longe Heinrich Hart, por quem estivera tão apaixonada, mas era fácil aperceber-se de que ele só tinha olhos para as poderosas raparigas.

É que a primeira rapariga, escorregadia e brilhante como um peixe, pertencia a um grupo de jovens que eram todas parecidas entre si, como uma matilha de lobos ou um batalhão de amazonas.

E à pobre Françoise inspiravam-lhe todas medo, pela sua força evidente.

De súbito, porém, a Françoise viu em jorros o sangue correr pelo nariz de uma destas raparigas e, logo de seguida, viu também o sangue a correr em jorros pelo rosto daquele que ela tinha amado.

Instintivamente, levou a mão direita ao seu nariz, para ver se o sangue também corria, e pensou: «É uma doença... Se calhar já estamos todos contaminados...»

Reparou então que estava espalhado pelo chão muito escuro, nos cantos, um líquido verde que alastrava como uma mancha de petróleo no mar.

«É aquilo... Temos de fugir antes que seja tarde!..»
 
Françoise olhou para a sua mão direita que estava cheia de sangue e preparou-se mentalmente para morrer.
 
«A vida é só isto.»

Os elevadores que a poderiam levar à superfície estavam já atulhados de gente que se esmagava em pânico e por isso teria de utilizar um elevador daqueles que ninguém usava porque serviam apenas para o lixo e para as mercadorias.


Quem a compreendeu de imediato foi um outro homem que era afinal o mais perspicaz desse grupo.

 
«Precisamos deles como quem viaja de carro e precisa de encher o depósito, mas os juízos morais são das coisas mais voláteis deste mundo.»

 
Era o que pensava a Françoise enquanto se metia dentro de um contentor em conjunto com esse que afinal era muito diferente do que julgara.

 


Nuno Maria 2015

 

Pluma

Fragmento 179
 
 
 
- Queria uma pluma, por favor.
 
- De asa vazia?
 
Foi este o fragmento de um diálogo captado de relance que fez com que a minha imaginação levantasse voo. Uma pluma de asa vazia... Seria uma nova bebida alcoólica? Mas que fina competência, que arte particular se ocultaria nessa poética expressão, com leveza tão afim de pluma - a «asa vazia»? Seria a asa de uma caneca ou de um moderno e elegante copo alto de vidro para uma nova e fulgurante bebida com um efeito realmente transcendente? Um novo motor para a notável explosão infinita que faz cair em cascata as sensações como peças de dominó ou baralhos de universos no lugar de cartas? E porquê «vazia»? Qual a diferença, se fosse «cheia»? Na minha imaginação podia ver como se numa tela uma pluma branca e uma asa ainda mais branca, asa sem corpo, sem pássaro e sem sentido e que mesmo assim não saberia como seria «vazia». Era toda uma via láctea que se estendia diante do meu desejo, por causa dessa dificuldade de imaginar a «asa vazia». Uma dificuldade acrobática que me provocava uma velocidade, um entusiasmo e uma excitação semelhantes aos de uma leitura difícil que me prometesse alguma espécie de esclarecimento. Foi por isso que instintivamente e quase sem dar conta segui o interlocutor daquele diálogo, para perceber afinal que «pluma» era uma bilha de gás (aliás, cor de laranja) e que «asa vazia» fora uma corruptela que a minha imaginação compusera a partir da pergunta mais prosaica da menina e que era simplesmente: «Traz a vazia?»
 
Mas logo o meu pensamento descobriu uma semelhança humorística entre este acontecimento e o de encontrar no centro de Cascais uma estátua que me parecia de Mao e que afinal era de Dom Carlos I (porque afinal não é assim tão pouco frequente que diferentes coincidências conspirem com uma outra arte que é a de nos rirmos de nós próprios).
 
Parece que não existem no trivial da vida humana bem organizada e estratificada os mesmos abismos e intervalos, o mesmo non-sense e a mesma intensidade que a toda a hora entram nos nossos sonhos, na nossa infância e nos nossos poemas, livros ou paixões. Nem existe a estátua de um comunista chinês no centro de Cascais, nem ninguém pede uma pluma de asa vazia num posto da Galp.
 
Mas parece que a nossa vida quotidiana será sempre invadida do modo mais imprevisto por estes entusiasmos inefáveis que se dirigem aos mundos que só a nossa imaginação pode compor, planos desconhecidos ou grãos resistentes que sobram de uma outra coisa sem nome e que nos habita sempre paralelamente, como um inquilino fantasma. 
 

A morte e a delicadeza

Sonho CLXI


«Se estiver no interior do avião e explodir uma bomba, meta-se debaixo do banco dentro de uma caixa de madeira.»
 
«Se estiver em casa e houver um tremor de terra, cubra a cabeça com os braços e, se possível, meta-se debaixo de uma mesa resistente.»
 
«Se for alvo de um ataque terrorista como o que aconteceu em Paris, lembre-se que as balas atravessam madeira, metal, tijolo e vidro. Procure uma parede reforçada. Se estiver a ver o atacante, lembre-se que ele também o pode ver a si. Procure uma saída segura e corra o mais que puder. Se não houver saída, procure esconder-se.»
 
Lendo esta lista de recomendações, a F. de Riverday questionava-se sobre se seria igualmente útil, em caso de tremor de terra, esconder-se debaixo de um piano de cauda, em vez de uma mesa resistente. Qual seria a diferença entre levar com uma viga na cabeça ou com a alma de um piano na cabeça? Qual seria a diferença entre explodir no ar sentado num banco, ou explodir no ar no interior de uma caixa de madeira? Até onde pode voar uma bala? Já criaram a bala infinita? Aquela que circunvaga o globo terrestre a uma velocidade supersónica, atravessando tudo e todos, sem nada que se interponha no seu caminho? A alma de um piano tem algumas centenas de quilos em metal, ou, quem sabe, mesmo uma tonelada. Talvez fosse útil consultar um perito, para saber exactamente o que fazer nestes casos, pensava a F. de Riverday.

Riverday tinha recebido de um pretendente um estranho presente. Era um mísero raminho de hortênsias ainda por florir e o pretendente perguntara-lhe, não sem uma certa timidez: «Poderás embrulhá-lo tu?»

A nossa morte no meio da vida não deixa de ser como isto.

Uma falta de delicadeza.


Crianças 4

   
Gursos e Urilas
 
Formiranhas e Aramigas
 
Tartaróis e Carcarugas
 
 Tubarés e Jacarões

 
 
Khare, «Walking Bird», 2011
 
 
 
 

Romance em vez de predação

Sonho CLX


A uma excessiva declaração de amor, F. M. respondeu:

«Fico perdida no meio da imensidão.»
 
O que queria dizer «não».
 
O seu interlocutor, porém, ao ver que não conseguia levar as coisas a bem, agarrou-lhe no pescoço e lançou-a ao chão com a intenção de a violar, mas o sonho interrompeu-se no ponto preciso em que teriam início a dor e a humilhação.
 
Ecrã negro - quão frágil é a fronteira entre o desejo e a violência!...
 
Trocar os nomes das coisas é o alibi predilecto dos criminosos e dos complacentes.
 
Amor em vez de luxúria. Protecção em vez de domínio. Prudência em vez de controlo. Interesse em vez de cobiça. Romance em vez de predação.
 
Sempre fica mais bonito.

(Artur Borboleta) - Fragmento 178



Pedaço de papel colorido que se agita no ar,
 
ao sabor do vento, assim a borboleta
 
voa - e tudo o que pede é a limpidez do azul,
 
ou um vidro em que poisar.
 
 
Delicada ocupação, essa,
 
a de adejar de flor em flor,
 
poisar ao de leve e logo escapar
 
com um voo impossível de fixar.
 
 
Dêem-lhe o sol, as flores e a brevidade
 
de existir sem ter de pensar.
 
 
Existe como um trilo mínimo na imensa sinfonia da terra
 
- ponta ou gume terminado de um excesso de alegria -
 
e que bom que deve ser voar com essa ausência 
 
de nem sequer saber ou sonhar - o que seja habitar. 

Sobre a insegurança

Sonho CLIX

 
A Maria do Mar, ao entrar num dos corredores da sua casa, descobriu que esse corredor não tinha porta e que dava para uma espécie de centro comercial.
 
Era urgente vedar aquela entrada. De outra forma, como poderia a Maria do Mar sentir-se segura na sua própria casa?
 
A Maria do Mar instruiu a sua cúmplice para falar com um serralheiro.
 
- Entra com ele pela porta que se pode fechar. Não lhe digas que se pode entrar e sair por este buraco. Pede-lhe apenas que faça o seu trabalho. E sai com ele pela porta que se pode fechar.
 
- Meu Deus!... Como é que vamos conseguir dormir esta noite?...
 
Entretanto, por uma questão de segurança, a Maria do Mar decidiu investigar para onde dava aquele lado aberto da casa.
 
Parecia um conjunto de armazéns labirínticos com alas de centros comerciais e escritórios cheios de gente em open space.
 
«Mais valia que nem sequer soubesse disto.» - pensava a Maria do Mar.
 
«Porque é que entrei no maldito corredor? Dormia descansada desde que não soubesse - e estava o assunto arrumado.»
 
No entanto, surgiu um problema, um enorme problema. O espaço era tão labiríntico que a Maria do Mar se perdeu e já não conseguia regressar a casa.
 
Cada corredor era tão diferente, com paredes de cores tão diferentes, com o chão tão diferente, forrado de materiais tão diferentes!...
 
Era impossível orientar-se no meio daquela profusão de informação e naquela desordem.
 
A Maria do Mar porém respirou fundo e determinou-se a não se deixar abater pelo pânico.
 
«Vamos lá.» - disse de si para si - «Há pelo menos um ponto que sei para onde está virado, em relação à minha casa, e, por mais voltas e contra-voltas que estes corredores dêem, hei-de conseguir orientar-me se mantiver a relação com este ponto na memória.»
 
Esse ponto era uma daquelas grandes portas giratórias que existem na entrada dos hotéis e, com a ajuda dessa referência, a Maria do Mar começou a desbravar o caos.
 
Sempre que perdia a noção de onde estava, voltava atrás e repetia o processo - o que a fazia avançar de todas as vezes um pouco mais.
 
Apareceu então um executivo de fato e gravata que lhe comunicou:
 
- Minha senhora, cada vez que você se engana, uma quantia é debitada na sua conta bancária.
 
- Uma quantia?
 
- Uma quantia, exactamente.
 
- Mas que quantia?
 
- Uma quantia, precisamente, minha senhora. São as regras.
 
- Mas não faz sentido nenhum... É uma coisa perfeitamente injusta... Tenho alguma culpa que a minha casa tenha um buraco sem porta e que isto seja um perfeito labirinto?
 
- Quem lhe disse que as regras são para fazer algum sentido? Quem lhe disse que a vida é para ser justa? Acha justo que uma criança morra afogada com quatro anos de idade, a fugir de uma guerra? As regras modelam apenas relações de forças. E como nós temos mais força - muito, muito mais força! - e você está perdida, estamos a proceder a um débito automático na sua conta. Não pense que pode chegar a algum lado por tentativa e erro, a andar assim para trás e para a frente. Cuidado!... Pense no perigo de chegar a ter um saldo negativo. Já viu o que isso seria?
 
- Ah!... Meu Deus!... O que é aquilo ali?
 
- Um leãozinho.
 
- Um leãozinho?!
 
- Está só à procura de qualquer coisa para comer, o pobre animalzito. Mas não se desconcentre. Consulte o seu extracto bancário. Esteja atenta. Verifique bem as quantias que lhe debitamos automaticamente, cada vez que você se perde. Pobre de mim. Eu também estou à procura de qualquer coisa para comer. É que hoje ainda não almocei. 


Três índios

Sonho CLVIII
 
 
Era de noite e F. de Riverday estava num cais de madeira, encolhida num canto de cócoras.

Apareceram três índios. Um rapaz, um homem e um velho.

F. de Riverday perguntou ao pequeno rapaz:
 
«Tu és um índio, certo?»
 
O rapaz tinha o corpo brilhante como bronze e usava uma tanga de pele sobre os órgãos genitais e um colar de sementes ovais ao pescoço.
 
Mas o rapaz ainda não tinha aprendido a ser um índio. Era por natureza irreverente.
 
«Ele não leva nada a sério.» Queixou-se o homem que também era o seu mestre.
 
«Olha bem para os seus olhos. Os olhos são puros quando riem. São sem malícia. Eu, pelo contrário, sou mau. Olha bem para este traço aqui, na minha pele, sobre as sobrancelhas. Foi vincado e cozido no ressentimento. Sou um índio dentro das regras dos índios. E consigo ser muito mau.»
 
Enquanto isto, o índio mais velho, de cócoras, recolhia peixes que tirava do rio para dentro de um cesto e fazia-o como se fosse um urso, com a mão.

«Que escuro que está.» - observou a Riverday - «Como é que ele consegue pescar tão depressa?»

«O rio tem mais peixes que água.» - respondeu o mestre, com um sorriso.

E, para se despedir, abriu-lhe os braços para lhe dar um abraço de igual para igual.

Aquele cumprimento índio consistia em encher os pulmões até ao limite do ar, encostar o peito ao outro peito e apertar os troncos com força ao mesmo tempo que todo o ar saía.

As maminhas de F. de Riverday doeram com o impacto, de tal modo que ela se perguntou se aquele seria um cumprimento exclusivo apenas dos homens.

Uma onda de calor intenso alastrou por todo o seu corpo ao mesmo tempo que a Riverday sentia que aquele ar lhe fora insuflado.

«Que abraço, meu Deus.»

E os três índios desapareceram com os cestos carregados de peixe.


Quartos Alugados, de Alexandre Andrade

Fragmento 177
 
 
Um grande escritor escreve quase sempre para daí a um século. Ele lança uma seta que será apanhada daí a muitas décadas, provavelmente por um outro escritor que a lançará de novo, e assim sucessivamente. A ideia não é minha, é de Deleuze, mas traduz uma circunstância real que está no âmago da nossa dificuldade em julgar um contemporâneo. E não apenas porque qualquer coisa de novo que se produza agora, no presente, tenha a virtude de passar invisível, porque é uma novidade. Não penso que o principal critério para julgar arte seja a novidade, até porque essa novidade, precisamente, é inescapável em qualquer produção original. É neste ponto que me separo do escopo geral da ideia em Deleuze. O juízo da posteridade só se verificará quando estivermos todos mortos, e a ideia não é simpática, nem para os egotistas, nem para os caçadores de fama, é um facto. Mas a ideia também não deixa de ser delirante e divertida para uma certa espécie de humoristas (rara, e geralmente incompreendida) que primam por não se renderem a nenhuma teoria definitiva sobre o sentido da sua própria vida.

Superado o pedido de benevolência, falemos de Alexandre Andrade.
 
Existem quatro coisas que o distinguem. Um português puríssimo que não se rende a uma tentação grosseira de inovar por inovar, ou de ser diferente por ser diferente. Uma cultura real e assombrosa, que não deriva da vaidade, mas de uma viva curiosidade e de uma atenção vital às coisas humanas. Um humor que está para além do irreverente e que funciona como uma máquina de desmontar lugares-comuns (como uma máquina de abstracção, portanto). Uma percepção subtil.
 
Lembro-me, há duas décadas atrás, de um minúsculo pormenor num romance dactilografado do Alexandre, que me acompanhou toda a vida. Alguém (não sei se Vera), tinha o hábito de colocar um fio de cabelo entre o puxador e a ombreira da porta, para garantir que a sua intimidade não teria sido violada.
 
Não sei exactamente porque cito este pormenor. Talvez porque nele se condensa o mesmo tipo de surpresa e a mesma dimensão de subtileza que encontro em frases como: «Péricles deixou-se ir, imaginando que regressava a uma cidade repleta de enigmas mas nunca cruel o suficiente para sonegar as soluções desses enigmas àquele que se dispusesse a encontrá-las, munido apenas das suas mãos nuas, do seu engenho humano, do seu corpo vertical estremecido muito ao de leve pela pulsação.»
 
Está no limite do sensível, sim, mas somos «corpos verticais» estremecidos «muito ao de leve pela pulsação.» E é verdade que a respiração dos outros (e a nossa) marca a passagem do tempo «como um metrónomo».
 
Nas séries de quartos alugados que desfilam ao longo dos contos que compõem o livro, muita gente, com nomes incompossíveis (Péricles, Mónica, Ágata, Renato, Inge, Ole...), e em geral nómadas (estudantes, gente tão fora das sua terra que chega a alugar quartos em cidades imaginárias, donos de nada, desocupados ou entre um estado e outro estado, ainda por definir), uma gente a quem o Alexandre dedica uma atenção vital, compassiva, rigorosa, amorosa, por vezes satírica, esta gente compõe uma pluralidade alegre da qual se destaca uma certeza luminosa e arejada - a de que uma pessoa estará sempre para além de uma descrição.
 
A máquina do humor que serve, a meu ver, este propósito, é complexa e daria pano para mangas desmontá-la. Há sempre uma viragem, uma curva irreverente em cada um dos contos, que lança no ar esta certeza como um foguetão. Pode ser a figura oculta e enigmática de uma Mónica a desvendar por um detective improvisado, uma Mónica que de súbito entra no apartamento do próprio detective e que desfia em alíneas, e na primeira pessoa, todos os seus mistérios, ou pode ser a destinatária de uma extravagante declaração de amor («O Ramo Dourado», de Fraser, copiado à mão pelo amado) que passa abruptamente de uma hipótese de explicação transcendente para uma lista trivial das preocupações quotidianas, como o estado da canalização ou da rede eléctrica do apartamento.
 
As passagens são sempre incrivelmente rápidas, abruptas, mas paradoxalmente naturais.
 
Em suma, respira-se.

Sobre os mundos paralelos

Sonho CLVII
 
 
Durante vinte e quatro horas, viajava entre mundos paralelos.
 
Em todos eles, porém, eu era o mesmo rapazito de doze anos, pequeno e franzino, de cabelos castanhos.
 
No primeiro mundo paralelo, vivíamos em submarinos blindados e estávamos sob o fogo de um conflito intergaláctico entre populações extraterrestres.
 
As nossas casas eram incrivelmente funcionais e assépticas.
 
Os quartos eram totalmente lisos e despidos, iluminados com uma luz glauca e rarefeita que fazia brilhar suavemente o chão cor de cinza e as paredes esmaltadas de branco.
 
Todos os móveis e mesmo as camas e as cadeiras estavam embutidos nas paredes lisíssimas e só saíam quando se carregava num botão.
 
Não se ouvia nenhum ruído que viesse do mundo lá fora, nem havia janelas que permitissem ver qualquer paisagem.
 
Tudo branco, excepto, debaixo dos pés, o chão em cinza.
 
E neste mundo eu era tão infeliz como na minha adolescência verdadeira.
 
No segundo mundo paralelo, contudo, eu e a minha irmã éramos os filhos de um eminente general e, apesar de vivermos em submarinos, já se podia sair.
 
Além disso, não estávamos em guerra e víamos o exterior através de pequenas vigias.
 
Ao longe, desfilava uma parada militar composta por naves ultra-sónicas que pareciam arranha-céus e que brilhavam ao lusco-fusco do fim de tarde com muitas luzes coloridas dispostas ao longo dos vários andares.
 
Neste mundo, eu passeava sozinho numa cidade ruidosa e queria testemunhar um ritual sangrento que decorria num palco rodeado de borracha negra onde se movimentava um grupo de homens encapuçados de vermelho.
 
Os capuzes eram altíssimos, do tamanho de uma criança de pé.
 
Talvez fossem devorar animais vivos ou fazer qualquer coisa de inimaginável e terrível, mas, quando me viram, correram comigo à paulada porque eu não pertencia àquele grupo.
 
Por fim, no terceiro mundo paralelo eu era um pássaro muito pequeno, talvez um pardal.
 
Mas continuava a ter uma alma de rapaz.
 
Havia um homem sedutor, insinuante e manhoso que me queria conquistar, só que eu fugia para dentro de uma caixa de correio.
 
Ficava muito amachucado, mas a minha irmã salvava-me escondendo-me dentro das suas pequenas mãos.
 
Num outro mundo, não sei se o quarto, se o antepenúltimo, se o primeiríssimo de todos, o que eu tentava fazer era reabilitar um velho Mini que tinha sido nosso há trinta e seis anos.
 
Arrependia-me, porém.
 
O velho Mini tinha lá dentro dois objectos de duas pessoas que me tinham morrido, uma bolsa de praia da minha avó, e uma calçadeira tricolor do meu avô.
 
Eu não sabia o que sentia, com aquelas duas coisas nas minhas mãos.
 
«Já viu?» Dizia eu para o mecânico que tentava reabilitar o velho Mini. «Isto serve para calçar os sapatos.»
 
Tinha sido uma péssima ideia, reabilitar o velho Mini.
 
Se acelerássemos a cento e quarenta debaixo de chuva batida o velho Mini parecia desconjuntar-se em mil bocados. 

F. de Riverday I

Fragmento 176


Quando dava um passeio à beira-mar, a F. de Riverday viu uma menina passar de mão dada com o pai, e o seu coração apertou-se.
 
Como gostaria alguma vez de ter dado a mão ao seu pai!...
 
E aqueles dois faziam-no com naturalidade, como se esse fosse um gesto simples e tranquilo... 
 
A menina tinha um ar confiante e altivo, cheio de si e  ao mesmo tempo inexpugnável.
 
Que força não teria ela, protegida por um tal gesto de carinho e pelo homem mais importante da sua vida de menina?
 
F. de Riverday só muito raramente se permitia sentir essa tristeza em relação a seu pai.
 
Que nunca lhe tivesse telefonado, nunca tivesse festejado consigo nenhuma conquista, nunca lhe tivesse dado um abraço. Que nunca lhe tivesse dito: «Muito bem!...»
 
Quando um «nunca» é realmente nunca, um nunca verdadeiro, real, imenso e impossível de sentir, a percepção humana resvala para o domínio do insensível, que é também o do insuportável.
 
A humanidade tem estratégias incríveis para lidar com a dor.
 
A insensibilidade. O esquecimento. A invisão.
 
A F. de Riverday só uma vez em dez anos lhe caíra uma lágrima - uma única lágrima, de facto - uma lágrima ácida e efervescente que ameaçara sulcar-lhe o rosto e dividi-lo em dois, de tão ardente e dolorosa que era.
 
«Se não fossem vocês, eu era rico. Se não fossem vocês, eu tinha um Ferrari.» - era o que lhes dizia o pai.
 
E no entanto, era um homem agradável.
 
Cordial em público, distinto, elegante, frio como uma pedra com ela, F. de Riverday, mas gentil com o seu irmão, com a sua mulher e os seus pais e sempre cumpridor, polido e educado.
 
Na verdade, uma tal condição treinara-a numa arte infeliz - a de ser capaz de amar a indiferença.
 
Talvez porque assim preservasse a sua quota parte do amor.
 
Preferível a esse vazio abismal e tremendo que é o de nem amar nem ser amado, pelo menos guardava um pouco dessa doçura, desse calor e dessa esperança ao treinar-se nessa esquisita forma de amar que é mais parecida com uma arte de desfiar conversas meramente sonoras diante de um surdo.
 
Sempre e de um modo fatal ela procurava reencenar esse deserto, essa aridez e a desolação de um amor teimoso e infecundo, enviando cartas sem resposta, dedicando a alma a casos insanáveis, ou amando ainda outra espécie de indiferentes, como Orlando I.
 
Porquê?
 
Porque assim era como se dissesse à vida: «Desta vez, vida, conquistei-te»?
 
Não há dúvida.
 
A nossa alma segue desígnios incompossíveis.

Sobre uma fotografia falhada

Sonho CLVI


Com o objectivo de tirar uma fotografia genial, a Maria do Mar decidira fazer uma viagem de barco.
Levara consigo uma amiga dedicada, uma aliada imprescindível - a Mariana Silk.
Jenny Stuart, uma tia inglesa que apreciava a forma elegante como a Maria do Mar se vestia, dissera, com preocupação e sem maldade, de uma amiga que ambas tinham em comum:
«Ela precisa de aprender a vestir-se... Precisa de saber pentear-se... Precisa de aprender a assinar o seu nome... Não concordas?...»

Jenny Stuart fora aquela que certa noite, muito bêbada, decidira beijar a sua rã de estimação. A inocente rã, porém, mal sentiu o beijinho de Jenny Stuart, deu-lhe uma dentada no lábio inferior e não mais a largou, de modo que a Jenny Stuart teve de dirigir-se ao hospital de Cascais a meio da noite para ser salva de uma rã demasiado amável no serviço de urgências.
Era de noite. Do rio por onde navegava o barco via-se a cozinha envidraçada de uma casa luxuosa onde se dava uma grande festa, iluminada por dentro.
Aí, um grupo de criados fardados a rigor comia apressadamente numa mesa apertada, muito encostados uns aos outros.
«Pensavam que isto já não existia, mas ainda existe.»
«Isto» era a extrema desigualdade entre as classes sociais, degradante para todos os implicados, sem excepção.
Mas a Maria do Mar encontrava finalmente a sua fotografia genial, no interior do barco.
Era uma pequeníssima e redonda mancha vermelha, levemente desfocada, ao lado de um pionés azul claro.
«A minha máquina!...» - gritava ela para a sua amiga, a Mariana Silk.
O barco estava agora em alto mar e balançava debaixo de uma forte tempestade marítima.
Quando a Mariana Silk abriu a porta do camarote onde se encontrava a máquina, todo o conteúdo do camarote se precipitou pela porta e foi deslizando em alta velocidade pelo convés até cair no mar.
A Maria do Mar temeu pela sua amiga mas foi encontrá-la mais adiante, sentada e muito sossegada, entretida com uma tarefa que a fazia olhar para as mãos.
«Meu Deus... Tenho de me deitar.»
Estendeu-se ao lado da sua amiga enquanto se masturbava discretamente por cima das roupas, e depois reclinou-se.

Frases que nos viajam

Fragmento 175


Uma pequena notícia, hoje:
 
«A sonda New Horizons descobriu a existência de céus azuis em Plutão e água gelada na superfície do planeta-anão. A água gelada só é visível nalgumas regiões do planeta-anão - grande parte da superfície de Plutão não mostra gelo de água exposto. Noutras áreas, a água gelada "estará coberta por outros gelos mais voláteis", explicou o cientista Jason Cook. "Perceber porque é que a água aparece onde aparece, e não noutro lugar, é um desafio que estamos a começar a enfrentar".»
 
É incrível o que uma expressão como «outros gelos mais voláteis» nos pode fazer.

 
GELO DE ÁGUA EXPOSTO
 
ÁGUA GELADA
 
OUTROS GELOS MAIS VOLÁTEIS
 
...
 

Não se trata apenas da sensação que se produz quando tentamos imaginar um «gelo volátil», quando a única forma volátil terrestre que conhecemos da água se experimenta sob a forma de um gaz. «Gelos mais voláteis» catapulta-nos para um outro plano da existência física, uma em que os corpos sólidos e gelados se volatilizem.
 
Coloco no entanto a hipótese de que o termo «volátil» não esteja empregue na forma literal, mas na forma metafórica, no sentido de «passageiro».
 
Segundo esta hipótese, a viagem não se produziria. Gelos mais passageiros são só esses que se derretem mais depressa, e isso não é difícil de imaginar.
 
Havia também na notícia a referência à atmosfera de Plutão, com um aspecto de «fuligem», fuligens avermelhadas e azuis, compostas por «polinas». E como esta palavra - «polinas» - nos é inteiramente desconhecida, é toda uma estrada que se desvela, como um imenso corredor atrás de uma cortina, como um palácio fascinante e composto de desmesuradas alas incógnitas.
 
Todo o desejo se acende nesta viagem imóvel.
 
Há ainda a recordação de ligeirezas e ventos que se comunica nos sons semelhantes das duas palavras justapostas - «gelos» / «voláteis» -, nos ésses, nos vês, nos éles, nos gês e nos ês, e que nos faz dançar como bruxos ou feiticeiros, em colunas de gaz e de euforia. Há ainda a imagem viva da transparência do gelo e da água e a franja de velocidade que se abre em «outros». «Outros gelos».
 
Viajamos porventura porque o cientista escreveu mal, ou porque lemos mal.
 
Que interessa?
 
A viagem entretanto aconteceu. 


Técnica de espoliação

Fragmento 174


Há pessoas que não fazem a mínima ideia do que possa ser ter uma opinião favorável a respeito de si mesmas.

Habituaram-se desde muito cedo a colocar tudo em causa, começando por si próprias. Estiveram muito perto da loucura, ou passaram por lá. Nunca tiveram grandes atenções. Também não sabem muito bem o que é o amor, ainda que não desistam de o imaginar. Desconfiam em geral de si mesmas, muito mais do que dos outros, mas também desconfiam dos outros. E em crianças, é possível que os pais ou figuras tutelares fossem cruéis, indiferentes ou demasiado exigentes.
 
Estas pessoas, se lhes disserem que em geral as pessoas tendem a ter uma opinião «demasiado favorável» a respeito de si mesmas, podem por momentos convencer-se que a sua habitual opinião desfavorável, ainda assim, é qualquer coisa de favorável ou mesmo - demasiado favorável.
 
Técnica de espoliação de um miserável - eis no que consiste esta (auto) manipulação.

E o resultado é nulo.

Liberdade de voto

Fragmento 173
 
 
Em 25 de Abril de 2015, a democracia portuguesa, tal como a conhecemos, fará quarenta e um anos.

Como é possível que, volvido quase meio século sobre uma tal conquista, seja a abstenção quem vence por maioria as últimas eleições?
 
Quer queiramos quer não, este é um dos grandes espectros que nos assombram.
 
Mas será que uma democracia que durante quarenta anos fez dançar as cadeiras da assembleia entre dois partidos é uma democracia em cuja salubridade e maturidade possamos - e devamos - confiar?

Não podemos impedir-nos de observar como a relação do conjunto das pessoas portuguesas (vulgo - povo) com aqueles que as governam se assemelha à daqueles «casos amorosos» em que um dos cônjuges, apesar de séria ou subtilmente maltratado pelo outro, fica paralisado na acção pela mistura explosiva de dois afectos poderosos - a dependência e o medo.
 
A quem pertence uma grande parte da responsabilidade colectiva pelo estado do país após mais de trinta anos de governo às mãos de dois grandes partidos, senão  a esses mesmos partidos?
 
Eis o famoso sermão do medo, a vozinha trémula que habita o fundo de todas as almas: «Um salto no escuro... é sempre um salto no escuro...»
 
Mas eu gostava de citar a Maria do Mar, quando ela escreve:


Mais vale um dia sermos
a falha desastrosa
de uma aventura excessiva e perigosa,
do que sermos o menos
de tudo o mais que pudéramos ser.

 
Não deixa de ser um facto. Teremos sempre um futuro na medida da nossa coragem.

Maria do Mar II

Fragmento 172


Notas para a Maria do Mar nas margens de um capítulo da Crítica da Razão Pura de Kant
 
(«Primeira Secção - Das ideias em geral»)
 
 
Eis o que está anotado, para além dos sublinhados, das chavetas, das pequenas cruzes que marcam a intensidade de uma identificação ou dos pontos de exclamação que assinalam a alegria dos encontros: 

 
 
Finalmente a linguagem!
 
MENTE           PALAVRA
INFINITO              FINITO
 
Uma poética - Literalidade -
uma defesa da literalidade é uma defesa do significado,
da verdade e do valor intrínseco das palavras.
Maria do Mar.

 
 
«Apesar da grande riqueza das nossas línguas, muitas vezes o pensador vê-se em apuros para encontrar a expressão rigorosa adequada ao seu conceito, sem a qual não pode fazer-se compreender bem, nem pelos outros, nem por si mesmo.»

Estão aqui duas pistas para o mundo de Kant, superficialmente contraditórias. Em primeiro lugar, há uma pista que nos remete para o pressuposto de que o pensamento é uma actividade separada da gramática, e, em segundo lugar, há uma outra pista que nos diz que, se nos valemos de «expressões frouxas» ou «aproximadas», isto é, «não-rigorosas», ficaremos por ser compreendidos... até por nós mesmos...

Neste último ponto não andamos longe das novas terapias que colocam na higiene crítica da expressão verbal do pensamento o foco de um treino para a sanidade mental. Quase todos sabemos como a adopção expressiva de uma ideia incauta nos pode minar, ainda que de um modo impercetível, mas inexorável. Uma opinião rápida e demasiado intensa pode ter o mesmo efeito sobre um espírito pouco acautelado que um vírus sobre um sistema imunitário recentemente debilitado por uma emoção forte.

Mas este não é o ponto principal de Kant, obviamente. O seu delicioso «pensador em apuros» sabe muito bem que a um conceito não corresponde propriamente uma palavra. Como é que se lê Kant, ou qualquer outro grande filósofo?

Pega-se num caderninho de significados em branco, daqueles que usamos para memorizar vocabulário quando estamos a aprender uma nova língua, e vamos registando, termo a termo, expressão a expressão, conceito a conceito, o sentido que o autor lhes dá, até atingirmos qualquer coisa como uma «visão panorâmica» desse sentido. Aliás, é a esta prática muito específica que corresponde o significado literal da expressão de Deleuze, «qualquer filósofo fala numa língua estrangeira, ainda que dentro da sua própria língua». E é exactamente assim.

Naturalmente, Kant prossegue, com o seu moralismo peculiar:

«Forjar palavras novas é pretender legislar sobre as línguas, o que raramente é bem sucedido e, antes de recorrermos a esse meio extremo, é aconselhável tentar encontrar esse conceito numa língua morta e erudita e, simultameamente, a sua expressão adequada; e, se o antigo uso de tal expressão se tornou incerto, por descuido dos seus autores, é preferível consolidar o significado que lhe era próprio (embora persista a dúvida sobre o sentido que, em rigor, se lhe atribuía), a prejudicar o nosso propósito, tornando-nos incompreensíveis.»

O objectivo de Kant, neste capítulo, é extirpar a palavra «ideia» de uma miríade de sentidos em que é usada na linguagem comum, e mesmo filosófica. É sempre de desconfiar quando Kant aplica o epíteto de «sublime» a um outro filósofo. Ele pega nas ideias de Platão (com alguma ironia e humor, portanto), para começar a desenhar o seu conceito próprio de «ideia», pedindo aos leitores «que tomem sob a sua protecção a palavra ideia no seu sentido primitivo, para que doravante não se confunda com as outras palavras pelas quais é hábito designar toda a espécie de representações, sem nenhuma ordem precisa e com grande prejuízo da ciência.»

Ora, o que interessa a Maria do Mar, e o que tornou a passagem tão empolgante para ela, apesar de partilhar, com Kant, a mesma busca de exactidão, quer dizer, aquilo que fez vibrar uma corda muito forte no interior da Maria do Mar ao ponto de registar o seu nome nas margens de semelhante capítulo foi precisamente a via oposta à de Kant, e logo de início renegada, isto é, «o meio extremo» de «forjar palavras» - a invenção de palavras.

O problema é quase o mesmo, este que se coloca na linguagem ou na fala ou na articulação de um filósofo ou de um poeta - é um problema de rigor. Mas para o poeta há não só o rigor que se exige a esse movimento alucinado, demasiado rápido, das corridas no deserto ou das paragens e das ante-esperas sem nome no vazio - o pensamento - como há uma outra exactidão que se busca até à exaustão e que consiste em fazer das frases uma outra pele, um outro ajustamento para os corpos das sensações únicas, infinitas, que moldam o tempo das almas. É preciso para uma sensação, sim, uma palavra exacta que não seja deturpada e é preciso que ela tenha um ritmo exacto, uma cor exacta, um timbre exacto, uma melodia exacta, uma musicalidade rigorosa. Essas palavras e frases têm de ser ao mesmo tempo corpo e alma, isto é, rigorosas em duas direcções simultaneamente.

E de facto «meio extremo» foi a expressão exacta de Kant que incendiou aqui a Maria do Mar.  

Sobre a dificuldade em respirar

Sonho CLV

 
Depois de tantos anos, regressava a casa, mas tinha muita dificuldade em estacionar.
 
A mãe não sorria e dava-me um lugar na mesa onde era impossível desviar o olhar do seu rosto contrariado.
 
O pai não era tão antipático, mas dizia:
 
«Limpaste bem as solas dos sapatos? Parece-me que deixaste pegadas no nosso chão de mármore.»
 
Sentia um peso no peito que era difícil de sustentar e, ao mesmo tempo, como se um torniquete me estrangulasse a garganta.
 
Era difícil respirar.
 

Nuno Maria 2015




Efeito boomerang

Fragmento 172


De vez em quando, acontece que olhamos para alguém como se fosse a primeira vez.
 
Aquela pessoa... o que é que ela traz consigo agora, que nunca antes se mostrou?
 
Outras vezes, são os outros que nos olham como se fosse a primeira vez.
 
Pessoas que se cruzam, que trabalham connosco, mais ou menos anódinas, mais ou menos desconhecidas.
 
Discretamente, olham-nos como se nos quisessem arrancar com os olhos o que trazemos de não-dito e secreto na alma, o que nos transforma.
 
E nós conhecemos a subtileza e o fascínio de uma tal investigação, pelo número de vezes que nos dedicámos a ela.
 
Se os nossos olhos se tocam, os do outro rapidamente se desviam, como se tivessem sido apanhados numa tarefa interdita.
 
É um brilho na pele? Um toque no riso? Um humor no olhar? Um jeito nos cabelos?
 
É a maneira como o corpo se põe, se acomoda na cadeira, ou nos pés?
 
Que acontecimento secreto traz o corpo à flor da pele?
 
Uma nova paixão? Um novo encontro? Uma nova ideia? A alegria imensa e incontida que sempre acompanha o fim de um velho preconceito ou de um poema?
 
E quando damos conta que os outros nos olham assim, é curioso, damos por nós a pensar - «Mas o que é que me estará agora a acontecer?»
 
O desconhecido em nós salta-nos do corpo e é devolvido em cheio pelo olhar em espelho do outro. 


Sobre a escrita como salvação

Sonho CLV
 
 
Estava no pátio uma criança que chorava, por não conhecer ninguém.
 
«Queres vir à praia?» - perguntava eu - «Os outros meninos costumam divertir-se a construir castelinhos à beira-mar.»
 
A criança sorria e mostrava-se animada.
 
Eu dava-lhe a mão - e iam connosco mais cinco meninas.
 
Ao sairmos do pátio, encontrámos um jardim clássico que ficava entre nós e a praia, um daqueles grandes jardins desenhados a régua e esquadro, com vastas extensões de buxos formando losangos e outras figuras geométricas e com todas as árvores e arbustos criteriosamente aparados.
 
«Meu Deus...» - pensava eu - «Este jardim não estava aqui antes...»
 
Logo à entrada, os buxos e os arbustos estavam cobertos por uma espécie de penugem vermelha, o que era muito estranho.
 
«Não toquem...» - Dizia eu. - «Pode ser um feitiço...»
 
E via-se que a praia estava realmente muito longe.
 
Este jardim situava-se no topo de um grande castelo e, da amurada altíssima da muralha, podíamos ver que se debatiam dois exércitos em guerra.
 
Lá longe os campos fumegavam com as bombas que rebentavam e nós podíamos ouvir o som dos tiros e das explosões, amortecidos pela distância.
 
Que guerra seria?
 
Afinal, em que lugar do mundo nos encontrávamos?
 
De súbito, apercebíamo-nos que um pelotão de soldados se encontravam muito perto de nós.
 
«Deitem-se!» - Dizia eu.
 
Pois não sabíamos se esse era um daqueles grupos radicais que fazem explodir as ruínas históricas e escravizam as meninas, ao mesmo tempo que decapitam os homens.
 
Como éramos apenas raparigas, deitámo-nos debaixo dos arbustos e tentámos ficar invisíveis.
 
Ninguém deu por nós e ouvimos um por um os homens saltarem por cima dos arbustos onde nos tínhamos escondido.
 
«Vamos.» - Disse eu. - «Temos de encontrar uma saída.»
 
Entrámos assim no grande palácio que dava para o jardim, em busca de uma saída.
 
Era um faustoso e imenso palácio com altas portas duplas e bandeiras de vidro, frescos nos tectos e muitas volutas douradas.
 
Porém, à medida que caminhávamos no interior do grande palácio, descobrimos que os sítios por onde tínhamos acabado de passar desapareciam como franjas de vapor ou cortinas de fumo.
 
Abríamos uma porta, vindas de um corredor, e entrávamos numa sala.
 
Quando voltávamos ao corredor, encontrávamos um pátio.
 
Quando regressávamos ao pátio, encontrávamos uma escada em caracol.
 
Se saíamos de um salão, e queríamos lá voltar, entrávamos num corredor.
 
Se era um corredor estreito, então agora tinha mil portas, e era impossível ver-lhe o fim.
 
Se era uma varanda, agora era uma cave.
 
Se era um terraço, agora era um salão de espelhos.

Se era um quarto de rainha, agora era um mirante.

Se era uma escadaria, agora era um sótão.

Se era uma chaminé, agora era um poço.
 
Este palácio fazia-me lembrar as conversas da minha mãe.
 
Do nosso grupo, todas as raparigas estavam a enlouquecer e a entrar em pânico e desataram a correr aos gritos cada uma para seu lado.
 
«Não corram!...» - Gritava eu. - «Temos de nos manter unidas!...»
 
Agarrei com toda a força a mão da Maria do Mar e disse-lhe:
 
«Nós ficamos juntas.»
 
Quisemos abrir a porta de espelhos do salão em que estávamos, mas depois de abrir a primeira porta de espelhos, encontrámos uma segunda porta de espelhos.
 
Abrimos a segunda porta de espelhos e encontrámos uma terceira porta de espelhos.
 
Abrimos a terceira porta de espelhos e encontrámos uma quarta porta de espelhos.
 
Em todas as portas de espelhos podíamos ver os nossos corpos inteiros de mãos dadas e a nossa expressão de terror.
 
Quanto mais depressa abríamos as portas, mais depressa os espelhos se desdobravam, uns após outros, voando atrás das nossas costas como asas.
 
A Maria do Mar desatou a gritar e desapareceu atrás de um espelho enquanto eu lhe segurava a mão e lhe pedia que não gritasse.
 
De repente, percebi que a sua mão estava muito leve e trepei pela porta acima de modo que pude ver que o que segurava na minha mão era um braço de manequim.
 
Soltei o braço enquanto gritava até não poder mais, até já não ter forças para me ter em pé.
 
Sentada no chão, por fim, pensei: «Aquele não era o braço dela. A Maria do Mar está inteira. Aquilo era um braço de manequim. Isto é um feitiço, uma ilusão. Eu tenho de me acalmar.»
 
Tirei da minha mochila o Livro VI da Sophia de Mello Breyner e as Odes do Ricardo Reis e pus-me a ler.
 
Sempre me tinha irritado aquele vocabulário tão limpo e puro da Sophia, aquele português tão branco e tão púdico, tão livre da obscenidade, do barroco e da trivialidade, mas agora sabia-me tão bem como se fosse um bálsamo. E sempre me tinha enervado aquela anorexia do desejo em Ricardo Reis, sempre a ver a morte, a morte, a morte, mas agora tranquilizava-me como se fosse o colo de um amante.

Não há dúvida - é preciso ter experimentado uma espécie de desespero particular para apreciar certa qualidade de literatura.
 
Repousei a alma com essas duas leituras - e comecei a escrever.
 
Enquanto escrevia, o palácio do caos e do absurdo podia mudar mil vezes o lugar dos quartos, das varandas, dos corredores, dos terraços e dos salões.
 
Escrevi durante muito tempo como se nada tivesse acontecido e, por fim, comecei a sentir fome.
 
«Se andar sempre na mesma direcção, por muito que todas as coisas mudem de sítio, hei-de chegar a algum lado.» - Pensei eu - «Este palácio, como todas as coisas que existem, há-de ter um limite.»
 
Fiz exactamente como tinha pensado e às duas por três encontrei num pequeno cubículo um prato que tinha quatro pêssegos.
 
«Meu Deus, vou comê-los todos!...»
 
Só que ouvi atrás de uma pequena porta o ronco de um bicho adormecido, um ronco pavoroso.
 
Quis sair daquele cubículo sorrateiramente mas em vez de uma porta tive de abrir dez portas.
 
As minhas mãos tremiam muito e eu pensava: «Isto é realmente insuportável!...»
 
Salvei-me desse bicho e por fim corri por amplos salões enquanto de tempos a tempos tropeçava em gatos.
 
«Se há gatos, também há comida.»
 
E, tal como me determinara, corria sempre na mesma direcção.
 
Funcionou, porque saí finalmente do palácio encantado.
 
À porta, sentado no chão, estava um rapaz que escrevia tão sofregamente como eu.
 
«Se ele se salva deste modo, deve ser parecido comigo.»
 
- Sabes onde podemos arranjar comida? - perguntei.
 
O rapaz colocou a mochila à costas e respondeu afirmativamente.
 
Descemos com a ajuda de cordas pelas paredes de um arranha-céus altíssimo e, de súbito, ele deu um salto de muitos metros de altura, aterrando de pé no topo de um telhado em betão e chapa de zinco.
 
«Afinal, este rapaz não é como eu. Somos muito diferentes. Somos alienígenas um do outro.»
 
- Se eu der um salto como esse, parto os ossos todos!... - Gritei eu.
 
- Salta! - Dizia o rapaz. - Não tens alternativa!
 
- Eu não sou como tu!... - Gritava eu. - De certeza que não tens um esqueleto igual ao meu!...
 
- Salta! - Gritava ele. - Eu sou igualzinho a ti!
 
Mas eu não sabia se aquilo não era só uma armadilha para me matar.
 
Que extensão de igualdade possível garantiria um único acto como escrever sofregamente?
 
«Salta!...» - Dizia eu de mim para mim, para ganhar coragem. - «Salta!...»
 
Mas eu não me mexia - e de repente acordei.
 
Até mesmo a dormir há um limite para a coragem possível.