Sobre as casas que baloiçam

Sonho CCXXIX


As casas na areia baloiçam muito.
 
Parecem árvores muito altas mas não são flexíveis, ao contrário das árvores.
 
Nós ali temos muito medo, temos muito medo - mas fingimos que não é nada connosco.
 
As casas na areia não têm raízes, por isso abanam muito, abanam muito com o vento.
 
Nas casas caiadas de branco as molduras das janelas e das portas eram pintadas de azul.
 
E também havia uma faixa azul rente ao chão.
 
Nos terraços havia piscinas, mas era difícil apanhar banhos de sol, por causa do balanço.
 
Como o estacionamento era na areia, os carros também baloiçavam e saltavam, conforme a maré descia ou subia.

Pareciam pulgas da areia.
 

Sobre os animais que se multiplicam

Sonho CCXXVIII


A Maria do Mar estava bastante surpreendida por verificar que sofria de uma queda aguda de cabelo.
 
Podia observar no espelho que uma grande queda se tinha verificado no alto da cabeça, criando ali uma clareira circular que fazia lembrar a tonsura dos monges.
 
Para isto a Maria do Mar não se preparara.
 
Sabia que a pele lhe cairia um dia em torno do corpo, que os cabelos ficariam cinzentos, os ossos frágeis, as articulações calcificadas - mas nunca imaginara que pudesse ficar careca.
 
Além disso a Maria do Mar tinha agora um animal doméstico que se multiplicava sob stress.
 
Chamava-se Rasputine.
 
Lá em casa, o vento fazia bater uma porta com estrondo e... ZÁS!...
 
Em vez de um Rasputine - trinta Rasputines.
 
- Rasputine!... - bradava a Maria do Mar.
 
Era como aqueles professores que, pelo medo que inspiram aos alunos, tornam mais insignificante o medo natural que estes têm relativamente à dificuldade das tarefas.
 
Os trinta Rasputines voltavam a ser um Rasputine, mas era sol de pouca dura.
 
Ouvia-se dentro de casa o estrondo de um camião que passava sobre um buraco da estrada e... ZÁS!...
 
Em vez de um Rasputine - trinta Rasputines. 

Sobre a inexistência da coisa pública

Sonho CCXXVII


Vivíamos debaixo de fogo cerrado, precisamente no enclave onde se defrontavam as forças de dois países inimigos.
 
Tudo aquilo em que pensávamos se resumia à nossa sobrevivência.
 
Carregar água, conseguir alimentos, fazer pão, manter-nos limpos, tratar das crianças, escapar das bombas.
 
Vivíamos nas garagens subterrâneas de um prédio reduzido a escombros e todo o nosso tempo livre era dedicado a escavar um abrigo.
 
Se os inimigos nos descobrissem e entrassem na nossa casa, poderíamos ao menos refugiar-nos naquele buraco.

Aquele buraco era toda a nossa esperança.

Todos os dias podíamos sentir a opressão e a angústia dentro dos nossos peitos, mas tentávamos não pensar nisso.

Todos os dias nos imaginávamos a fugir para ali, disfarçando a entrada com um armário, tijolos que tínhamos preparado para o efeito e pedras. Levaríamos os nossos gatos debaixo dos braços em sacolas.
 
Éramos civis inocentes. Mas mesmo que fôssemos culpados seria um castigo desumano e cruel matar-nos ou mutilar-nos com uma bomba.

Havia três crianças, dois gatos, duas mulheres e um homem.
 
Um dia conseguimos ligar para o Presidente da República.
 
- «Oiça, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, você como representante maior do estado, como figura digna e emblemática, como porta-voz do povo, pelo menos você deveria denunciar esta guerra - e todas as guerras - em nome da lucidez e da sanidade física e mental de todos os cidadãos. Mas diga-nos, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, porque é que você anda para cá e para lá, com falinhas mansas?... Nós as pessoas não temos nada a ver com os países. Os países são entidades e negócios que nos transcendem, exactamente como os antigos reis transcendiam os povos. Tudo o que temos é uma língua - mas ela nem sequer é um pai. Sabe, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, tudo o que temos é uma língua-mãe. E ela deixa-nos aqui ou ali, pelo mundo fora. Não temos pátria. Só temos mátria. E não somos apenas pessoas. Também somos gatos. Os nossos gatos não têm culpa que falemos francês, mas serão exterminados por isso mesmo, se o inimigo nos apanhar. Que temos nós, as pessoas, a ver com os negócios de todos os países, com os interesses instalados? No momento em que nascemos o mundo já existe... Só queremos cuidar das nossas crianças, proteger os nossos filhos e viver com alegria e dignidade. Você pelo menos como figura emblemática do estado comece por defender a abolição dos países, comece por denunciar que a nacionalidade que se impõe aos cidadãos, desde a nascença, é uma atrocidade, que os países são totalmente extemporâneos às pessoas, são uma maldição, um aparelho parasitário, como a antiga aristocracia, uma canga com que se carregam as multidões para as domar e para as explorar, de preferência até ao tutano, e que se serve delas, como qualquer tirano e se a necessidade ou a oportunidade surgirem, como carne para canhão, segundo os seus interesses próprios e individuais, mas que não têm nada a ver com a vida geral... Que lastro de morte e desolação!... Que caravana sombria de gente triste e mutilada!... Como avançam os homens de ombros vergados, de olhos opacos!... Decrete, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, que em vez de países, se organizem as terras do mundo, e que a guerra seja para sempre banida. Ah!... Desculpe-nos. Esquecemo-nos que você não é presidente de coisa de nenhuma. Não existe nenhuma coisa pública, como indica a honorável forma do seu título. Se houvesse uma coisa pública, de facto, ela não seria propriedade só de alguns, nem caberia aos poderosos escrever as leis que servem para oprimir os impotentes.»

A flor do sal

Sonho CCXXVI


Fazíamos amor durante horas, mas, no final, estávamos mais sós do que antes.
 
Os nossos corpos tinham-se encontrado, mas não as almas, e, apesar do calor que nos corria por dentro, as nossas almas tinham mais frio.
 
Não deve ser por acaso que a vida dos santos e dos ascetas tantas vezes começa pelo excesso.
 
Cabe frequentemente aos que sucumbem a toda a ordem de vertigens virem a transformar-se nos mais sóbrios e reservados dos homens, nos ébrios de Deus que festejam com erva e água pura.

Colhem a preciosa e evanescente flor da frugalidade, como quem colhe a flor do sal. 

 
Listas

aqui
 

Sobre a culpa que se adquire com a intenção, mesmo sem as vantagens do delito

Sonho CCXXV


A Françoise M. descia com uma amiga pela rampa de um estacionamento subterrâneo até encontrar um grupo de chineses sentados em lonas, que estavam de guarda aos seus haveres.
 
Ali se tinha reunido muita gente, mas não havia automóveis.
 
Porque estariam todos ali?
 
Seria por causa das bombas?
 
Estariam em guerra?
 
Havia pessoas sentadas em cadeiras brancas de plástico, observando quem passava.
 
Alguns tinham trazido cobertores, outros tinham trazido caixotes de fruta e outros ainda tinham trazido móveis de casa.
 
Havia uma estante muito feia com uma jarra terrível e uma flor de plástico.
 
Meu Deus!... As coisas de que as pessoas precisam!...
 
Também havia um daqueles bares em forma de armário, cheio de garrafas.
 
A amiga de Françoise M. pegou num copo e serviu-se de uma garrafa de gin.
 
A Françoise pensou em fazer o mesmo, mas depois reflectiu.
 
Para a sua amiga era apenas um copo de gin, mas para si seria a ruína.
 
Mesmo estando em guerra e debaixo de um bombardeamento, não lhe parecia uma boa opção.
 
Disse:
 
- Adeus.
 
E subiu à superfície.
 
Lá em cima a Françoise encontrou por acaso a Narciso E. F. que fazia anos.
 
Trazia um bolo, mas, infelizmente, não havia nada com que pudessem comê-lo.
 
Nem pratos, nem guardanapos.
 
Era noite avançada, quase de madrugada, e a Françoise determinou-se a assaltar o Gambrinus para ir buscar copos e guardanapos.
 
Era inofensivo roubar ali três guardanapos de papel e uns pratos, eles tinham demasiadas coisas.
 
A porta estava apenas encostada e a Françoise entrou facilmente, mas esqueceu-se que era um ladrão e acendeu todas as luzes, para poder encontrar os pratos e os guardanapos.
 
De repente, ficou muito aflita.
 
O que estava a fazer?
 
Por que raio tinha acendido aquelas luzes todas?
 
Agora qualquer um podia vê-la, ainda por cima com aquele casaco branco e felpudo.
 
Sentiu passos a aproximarem-se.
 
Deixou cair os guardanapos no chão que estava molhado e os guardanapos desfizeram-se quase imediatamente, de modo que não foi possível apanhá-los.
 
Também não havia por ali pratos de plástico e, como a Françoise não queria roubar nada que pudesse fazer falta no restaurante, saiu de mãos a abanar.
 
O grupo de homens que vinha abrir o restaurante cruzou-se com ela, enquanto a Françoise corria o mais que podia.
 
- Já que me incriminei, não podia ao menos ter colhido as vantagens do delito?

A cegonha e a chaminé

Sonho CCXXIV

 
F. de Riverday estava na sala com a mãe e a avó, no topo de uma alta torre, num castelo.
 
Não que quisesse suicidar-se, mas, ao sentar-se no parapeito da varanda, desequilibrou-se e caiu.
 
Durante toda a queda maldisse a sua má sorte, pensando que ia morrer.
 
Por isso qual não foi o seu espanto quando, no final da queda, deu por si no topo de uma alta chaminé de tijolo semelhante àquelas que resistem ao abate das velhas fábricas e ficam plantadas no meio dos ermos.
 
Tais chaminés são iguais, na sua mágica inutilidade, a velhos dólmens.
 
F. de Riverday parecia uma cegonha sentada no topo de um poste.
 
Apesar de estar numa situação difícil, pelo menos não estava morta!...
 
Como poderia sair dali?
 
Quem poderia salvá-la?
 
Não é que a sua mãe quisesse suicidar-se - a sua mãe ainda menos que F. de Riverday, absolutamente!... - mas, ao sentar-se no parapeito da varanda, também ela se desequilibrou e caiu.
 
O caso de sua mãe foi de certa forma ainda mais extraordinário que o seu.
 
O seu pé enrolou-se numa corda e quando estava quase a bater com a cabeça contra o chão, ficou presa pelo pé.
 
A sua mãe portanto salvou-se.
 
A avó debruçou-se no parapeito da varanda, estarrecida.
 
Ela de todo é que não queria suicidar-se!...
 
Mas também se desequilibrou e caiu, tal como a filha, e ficou presa pelo pé numa corda, a poucos centímetros do chão.
 
Que fariam agora com F. de Riverday que estava no alto da chaminé, como uma cegonha?
 
F. de Riverday era pobre mas tinha alguns móveis raros e antigos na sua casa, que tinham vindo dos seus antepassados.
 
Por causa disso ganhara a inimizade de uma família hotentote que não compreendia o conceito de herança.
 
O mais cómico e ingrato, de certo modo, era que Riverday considerava um belo progresso social  e mesmo um progresso espiritual que o conceito de herança se tornasse incompreensível.
 
Que bela conquista!...
 
Mas como era pobre e nunca poderia ter comprado esses móveis com o seu salário esses amigos recusaram-lhe a confiança no momento em que a consideraram suspeita de actividades ilícitas.

O gelo e o sal

Sonho CCXXIII


Um conhecido de F. de Riverday chegou com um presente na mão.

Era um saleiro que tinha a forma de um eléctrico vermelho e, na ponta, uma pedra de gelo.

Parecia uma dessas recordações que os turistas gostam de levar para casa, mas não se percebia bem o que fosse.
 
Riverday teve vontade de passar a língua na pedra de gelo, mas achou que não seria apropriado.
 
De resto, sabia-se lá por onde tinha andado aquela pedra de gelo.
 
Era uma pedra de gelo especial, que nunca derretia.
 
- O que é isto? - perguntava F. de Riverday.
 
-Ah! Não sabe?... O gelo e o sal?
 
- Não sei, não. - dizia ela.
 
- Mas isso toda a gente sabe.. O gelo e o sal!...
 
- Ora essa! Eu não sei!
 
Ficou a olhar para aquilo deveras intrigada e pelos vistos sem maneira de saber de um modo imediato pelo seu interlocutor o que aquilo era.
 
- Bom - disse ele, depois de uma pausa - e agora já sabe?
 
- Pelo menos sei que é alguma coisa do domínio popular que todos conhecem mas eu não.
 
- Mas isso é nada!
 
- É muito para quem não sabia nada de nada de todo.
 
- Que exagero.
 
- Certo. Mas é alguma coisa e alguma coisa é melhor do que nada.
 
- Pois claro, quanto a isso estamos de acordo.
 
Porque entre aqueles que folgam em desentender-se pelo menos o doseamento da expressão não deixa de ser uma virtude.
 

Sobre a relação flutuante entre a felicidade e a distância

Sonho CCXXII


Podia imaginar-se que este sonho me aconteceu depois de todos os incêndios que grassam na Primavera e no Verão.
 
Mas este sonho aconteceu-me no Inverno, quando não há incêndios.
 
Gostaria de saber que desejo encontraria Freud nos sonhos meramente reflexivos, elocubrativos.
 
Pois é certo que a teoria do desejo nos ajuda a penetrar o sentido opaco de alguns sonhos, pelo menos de um modo provisório.
 
Um desejo de começar a pensar?
 
Eu vivia muito perto do Casino e todas as noites os néons prateados e vermelhos iluminavam a minha sala.
 
A minha casa era apenas uma sala, um estúdio repleto de janelas que não tinham estores que as protegessem da luz.
 
Eu dormia num divã.
 
Saía de noite, sozinha e a pé, mas havia muitas estradas vedadas, com polícia,  por causa dos incêndios.
 
Por todo o lado se entreviam as chamas, mas as chamas estavam longe.
 
Eu queria perceber tudo o que se passava e queria fazer alguma coisa, mas era proibido.
 
Por todo o lado estavam aquelas fitas vermelhas e brancas.
 
Circulava simplesmente por ali, observando tudo o melhor que podia, até me sentir exausta.
 
Quando regressei a casa as pernas doíam-me muito e de um modo agradável.
 
Despi-me e enfiei-me na cama que cheirava a roupa lavada.
 
Senti-me incrivelmente feliz, com o corpo dorido e pesado, nesses escassos segundos antes de adormecer.
 
Como é rápido e fugidio o momento gentil em que nos apagamos!
 
Qualquer drama a uma certa distância não tem um modo seguro de abalar definitivamente a nossa felicidade.
 

Sobre a neutralização do horrível

Sonho CCXXI



Tínhamos ido fazer um passeio à beira-mar, mas o caminho estava cheio de legumes.
 
Batatas e cebolas brotavam da terra e, aqui e ali, viam-se as folhas dos alhos franceses e a rama dos nabos.
 
Eu olhava para os legumes sujos e manchados de negro com um certo repúdio, e dei por mim a pensar:
 
«Mesmo tu não escapas à futilidade e só gostas de coisas lavadas e brilhantes, bem ordenadas em prateleiras luminosas!...»
 
Observava com profunda tristeza quão tão distante estava da terra.
 
Adiante, duas senhoras velhinhas estavam a fazer um pic-nic debaixo de um guarda-sol.
 
«Bela ideia!...» - pensava eu.
 
E no final do caminho à beira-mar podia ver-se uma praia que tinha sido inteiramente remodelada pelas autoridades locais.
 
A intervalos regulares erguiam-se pequenas colunas numa imitação de mármore, semelhantes a pedestais, e, no topo de cada coluna, estava uma mão de plástico com os dedos abertos, iluminada de amarelo fluorescente.
 
Era francamente mau, totalmente inútil, e podia calcular-se que fora gasta uma verdadeira fortuna naquela iluminação de praia. 
 
«Como é que as pessoas podem estender-se aqui e gozar o sol, como se nada fosse?»
 
Parece que a fealdade e o mau gosto, quando inoculados em pequenas doses e de um modo progressivo e constante, criam uma tal habituação, diríamos mesmo tolerância, tal como acontece no abuso de álcool ou drogas (e no sofrimento em geral), isto é, produzem uma tal insensibilidade que acabam por desembocar na indiferença.
 

Sobre a perspicácia natural das crianças, quando comparada com a dos adultos


Crianças 15
(Madalena e Teresa, de oito anos)


As aulas de piano, talvez pelo seu espaço pequeno e circunscrito e pela sua qualidade intimista, transformam-se muitas vezes em confessionários. Os mais estranhos e inusitados diálogos se desencadeiam e, de um modo bastante inesperado, prosseguem.
 
- Ó professora, a Teresa continua a escrever bilhetinhos de amor ao Francisco, mesmo depois de ele os rasgar debaixo dos olhos dela!
 
- A sério, Teresinha?
 
- Sim.
 
- Mas Teresinha, tu és magnífica... Estes olhos azuis... Estes cabelos de ouro.... Pareces saída de um conto de fadas...
 
- Eu só estou a dar um tempo. Depois escrevo-lhe outro bilhetinho.
 
- Logo o Francisco... que é um fanfarrão, um arrogante e que não se importa de ser cruel...
 
- Não sei o que é nada disso.
 
- Fanfarrão?
 
- Sim.
 
- É um vaidoso, um convencido, alguém que acha que sabe tudo.
 
- Ah!... Mas não é dessa parte que eu gosto nele...
 
- Podias gostar do Diogo ou do Tomás, que são uns amores.
 
- Não sou capaz.
 
- Ao menos finge que gostas de outro, para ver se o Francisco fica menos vaidoso.
 
- Não serve de nada. O Francisco nunca vai gostar de mim.
 
- Então, Teresinha?... Não podemos gostar de quem não gosta de nós...
 
- Ai!... Mas aqui dentro não muda nada...
 
- Pelo menos guarda segredo e finge que o ignoras, não lhe escrevas bilhetinhos para ele rasgar em frente de toda a gente...
 
- Pois, - diz a Madalena - eu também gosto do Diogo e guardei segredo. Ninguém sabe a não ser o João.
 
- Eu agora também sei. - diz a Teresa.
 
- Como é que sabes? - pergunta a Madalena.
 
- Madalena!... - respondemos as duas em coro.
 
É caso para dizer que o juízo sofre sérias convulsões, cada vez que nos apaixonamos. 
 
 

O fox-trot e o vestido azul

Sonho CCXX


Estávamos a aprender a dançar o fox-trot mas não conseguíamos por causa daquele vestido azul.

Sobre um noivo desconhecido

Sonho CCIX


Por causa de um desses mal-entendidos que nos podem causar o maior dos constrangimentos, a Françoise M. estava a ser alvo da corte de um fidalgo alentejano, um desses grandes proprietários de gado, que era amigo de seu pai e com cuja filha em tempos apanhara umas terríveis bebedeiras.
 
A Françoise M. via-se às aranhas para chegar à franqueza sem passar pela indelicadeza ou pela ofensa.
 
O fidalgo por seu lado exibia a sua propriedade como se de um penacho num chapéu se tratasse.
 
Mostrava-lhe com orgulho as várias salas e, numa delas, que era oval, quatro plasmas que permitiam ver televisão de todos os ângulos.
 
- Eu não tenho televisão... - dizia a Françoise, timidamente, com esperança de que isso pusesse a nu o abismo que os separava.
 
Mas o fidalgo era tão orgulhoso que não conseguia perceber que a Françoise não tinha televisão porque não queria.
 
Por fim, a Françoise lá conseguiu agarrar um pretexto e fugir dali para fora, de uma vez por todas.
 
Uma vez lá fora, suspirando de alívio, a Françoise olhou para as linhas de um muro alto caiado de branco, que emoldurava um pátio.
 
O pátio era inteiramente vazio e o muro inteiramente branco.
 
A Françoise respirou fundo, no meio daquela brancura, e entregou-se por um momento ao sol.
 
Aquela simplicidade, sim!... - aquela simplicidade é que não tinha nada a ver com esse excesso de coisas e com as coisas em quadriplicado, que não servem para nada.
 
- O que basta, basta. - pensava a Françoise.
 
Não conseguia perceber como é que todos não sofriam com a futilidade e com o lixo que constantemente produziam e, pelo contrário, pareciam tão felizes e satisfeitos com isso.
 
Se a Françoise não amasse sempre mais as cores do mundo e as estrelas, os animais, os rios e as árvores, esse que tinha desenhado aquele muro, com esse ou com essa é que a Françoise poderia ter uma relação de noivado.

Sobre a angústia de querer salvar um passarinho

Sonho CCXIII



Durante um passeio, a minha amiga C. encontrou um passarinho no chão.
 
Era pequeno como um pardal, cor de cinza prateado, com uma suave faixa branca no peito e uma popa verde-alface.
 
- Olha!... - exclamou ela. - Um passarinho!...

Distraída nos meus pensamentos, eu nem sequer vira o passarinho.

Olhava para ela sem saber o que fazer, considerando-a mais capaz de salvar um passarinho.
 
- Está tudo bem. - Dizia ela, pegando nele com as duas mãos. - Vê como ele é forte, bravo e corajoso.
 
Lançava-o no ar - e ele voava.
 
Começava por me sentir muito feliz, mas, observando melhor, conseguia ver que o pássaro voava de cabeça para baixo.
 
Mais adiante ele caía, e, apesar de ter voado um bom bocado, talvez uns bons metros, era aos nossos pés que ele caía, como se o espaço fosse um harmónio e tivesse sido todo dobrado.


 
 

Carpe Diem, Nuvem, de Françoise M.

 



 
 
 
 

 
 


Poeiras de Cantor




 
 



(luzes de automóveis em movimento
fotografados através de um pano de linho)



 
 
  
Excesso de Mortos



Contos Musicais - de Wackenroder, Kleist e Hoffmann

Selecção, prefácio e tradução de Claudia J. Fischer e posfácio de Mário Vieira de Carvalho
 
 
 
 
 
  
Este livro reúne cinco contos inéditos em Portugal de Wackenroder, Kleist e Hoffmann, três figuras cimeiras do romantismo alemão.

Entre si, estes contos têm duas coisas em comum. Todos são textos literários e, portanto, musicais por si só, e em todos existe um mesmo protagonista principal - a música.

É inegável que a música nos atinge directa e fisicamente, isto é, sem qualquer tipo de mediação. Não precisamos de saber rigorosamente nada de música para que nos aconteça sermos profunda ou violentamente afectados por ela. De um abalo deste tipo fala-nos Kleist, no conto «Santa Cecília e a força da música», e também Wackenroder. A música afecta-nos de um modo total e imprevisto, atinge-nos e faz-nos ressoar do mesmo modo que ressoam as almas dos instrumentos musicais, ou, como sublinha Claudia J. Fischer, no prefácio, «envolvendo o corpo e pondo-o em vibração». (1)

De um modo semelhante, mas distinto, porque o fluxo musical é em primeiro lugar trazido por um ouvido interior e num plano que diríamos «acusmático» (2), a literatura, quando focada sob o aspecto musical que é intrínseco à sua forma sonora e material, como um fluxo de ritmos prosódicos, de tons, de pausas, de andamentos e de cadências que compõem uma atmosfera, também pode ser  sentida «como uma matéria que envolve e põe o corpo do leitor em ressonância». (3)

É neste sentido que Claudia J. Fischer começa por citar o ensaio de Gumbrecht, traduzido do alemão para o inglês com o título Atmosphere, Mood, Stimmung, On a Hidden Potential of Literature, e no qual o autor defende, com base na atmosfera (no clima), no tom, no temperamento e portanto na qualidade musical do texto, uma leitura orientada para a percepção de estados de alma ou ambientes. (4)

Curiosamente, é sintomático que o pai do jovem Joseph Berglinger, no primeiro conto de Wackenroder, «A estranha vida musical do compositor Joseph Berglinger», seja médico.

Neste conto extraordinário, tanto o pai como o filho irão, cada um à sua maneira, percorrer a via que vai da paixão ao desencanto, na perseguição de uma possibilidade de alegria. Porque, se a medicina neste conto surge como a profissão de alguém que tem uma compaixão genuína pelos sofrimentos do corpo, mas que, de tanto se dedicar ao conhecimento «das estranhas coisas que no corpo jazem escondidas», se transformará na vítima de um «veneno oculto» que lhe esfriará a alma; por sua vez a música, que para o jovem Joseph Berglinger é a única fonte terrestre de entusiasmo e libertação, surge pelo contraste com a ciência do pai como uma espécie de medicina da alma. (5)

Na verdade, o conflito entre o pai e o filho na dupla via do desencanto em que corpo e alma seguem separados pode ser lido como um quase imperceptível drama minimal  de um combate mais profundo, o combate do longo, febril, surdo e macerado conflito entre a alma e o corpo, que marca todo o curso do pensamento judaico-cristão.

«Quando Joseph ia assistir a um grande concerto, sentava-se num canto e, sem sequer olhar para a esplendorosa assembleia de espectadores, ficava a ouvir a música com o mesmo recolhimento que teria na igreja – igualmente quieto e imóvel e com os olhos pregados no chão. Não lhe escapava o mais ínfimo som, e aquela atenção concentrada fazia com que, no final, todo ele ficasse alquebrado e exausto. A sua alma, infinitamente maleável, era toda ela um jogo de sons; era como se, liberta do corpo, palpitasse mais livremente ou como se o seu corpo se houvesse transformado em alma.» (6)

O amigo íntimo de Joseph, que escreve o primeiro conto, confrontado com a morte prematura do compositor, coloca, entre outras, esta questão:

«Porque quis o Céu que, ao longo de toda a sua vida, o combate entre o seu etéreo entusiasmo e a miséria desta terra o tornasse tão infeliz, acabando por violentamente rasgar ao meio a sua dupla essência enquanto espírito e corpo?» (7)

E ainda que este conflito não se resolva, a experiência musical implicada nestes contos apresenta-se como um plano de resolução - um plano de imanência.

No segundo conto de Wackenroder, «Um maravilhoso conto oriental de um santo nu», a música surge inclusivamente como o meio que conduz o «génio desorientado» a libertar-se da «sua capa terrena» e da sua forma humana de santo nu. Este génio libertado voa entre o brilho das estrelas, sob a forma de uma «luminosa figura vaporosa», um corpo voador de braços estendidos e pés dançantes, depois de ouvir uma canção de amor.

«Ao primeiro som da música e do canto, desvanecera-se a rodopiante roda do santo nu. Aqueles eram os primeiros sons que se faziam sentir naquele ermo, e com eles acalmara o anseio desconhecido, dissolvera-se o feitiço; o génio desorientado fora libertado da sua capa terrena. A forma do santo desaparecera, e uma figura etérea, bela como um anjo, entretecida de leves odores esvoaçou para fora da caverna, estendeu os braços esguios e saudosos em direcção ao céu e, seguindo a música em movimentos de dança, soltou-se do solo e elevou-se nas alturas. Erguida pelos sons suaves e intumescentes das cornetas e do canto, a luminosa figura vaporosa pairou cada vez mais alta nos ares - dançou com uma alegria celeste aqui e ali e, por vezes, sobre as brancas nuvens que pairavam no espaço aéreo. Lançando-se com pés dançantes cada vez mais alta no céu, pôs-se finalmente a voar em espirais serpenteantes por entre as estrelas. Nesse momento, todas as estrelas ressoaram e emitiram um som celeste e cintilante pelo espaço fora, até que o génio se perdeu no infinito firmamento.» (8)

Não deixa de ser espantoso que o contributo de Wackenroder descubra, logo à cabeça deste conjunto de contos, a música enquanto plano da transformação evanescente e fortuita do corpo em alma, ou, inversamente, do génio libertado em corpo dançante e voador.

O que é um plano de imanência?
 
O fenómeno a que Gumbrecht se refere com recurso à expressão particularmente feliz de Toni Morrisson - «ser tocado como se a partir de dentro» -, sublinhando que nós não ouvimos apenas com o ouvido externo e interno, mas que «ouvir é uma forma complexa de comportamento que envolve todo o corpo», coincide parcialmente com a experimentação que dá corpo à noção de plano de imanência, em Deleuze e Guattari.

«O átomo anda tão depressa como o pensamento.» - Diz-nos Deleuze, citando a Carta de Epicuro a Heródoto.

«O plano de imanência tem duas faces, como Pensamento e como Natureza, como Physis e como Noûs. É por isso que há sempre muitos movimentos infinitos enredados uns nos outros, dobrados uns nos outros, na medida em que a volta de um deles faz imediatamente começar outro, de tal modo que o plano de imanência não pára de se tecer, qual gigantesco vaivém.» (9)

Ou:

«Precisamente por o plano de imanência ser pré-filosófico, e não operar já com conceitos, ele implica uma espécie de experimentação às cegas, e o seu traçado recorre a meios pouco confessáveis, pouco racionais e razoáveis. São meios da ordem do sonho, de processos patológicos, de experiências esotéricas, da embriaguez ou do excesso. Corre-se para o horizonte, no plano de imanência; regressa-se com os olhos vermelhos, embora sejam apenas os olhos do espírito. (...) É que não pensamos sem nos tornarmos uma outra coisa, qualquer coisa que não pensa, um animal, um vegetal, uma molécula, uma partícula, que regressam ao pensamento e o voltam a lançar.» (10)

Mas é impossível compreender plenamente esta noção sem ler Espinosa e, de igual modo, as duas leituras que Deleuze faz de Espinosa, que infelizmente ainda não estão traduzidas em português: Spinoza, Philosophie Pratique e Spinoza et le Problème de l'Expression.
 
Neste sentido é particularmente feliz a escolha da expressão de Novalis com que C. J. Fischer intitula o prefácio - Acústica da Alma. (11)

E a imagem do verso que abre este livro, «da schufst du ihnen Tempel im Gehör» («ali criaste tu templos no ouvido»), e que remata o primeiro dos Sonetos a Orfeu, de Rainer Maria Rilke, escrito em 1923, esta imagem esculpe por dentro da nossa imaginação a visão de uma impressão de ouvir em silêncio, a sensação de uma música sem som:
 

Uma árvore subiu. Pura ascensão!
Oh, Orfeu canta! Árvore alta no ouvido!
E tudo se calou. Mas mesmo a suspensão
era aceno, mudança, outro sentido

de começar. Do bosque iam saindo
bichos silentes, de covil ou ninho,
e não era já - viu-se - ardil mesquinho
ou susto que os calava: estavam, vindo,

só para ouvir. Mugido, berro, grito
era pequeno em cada peito aflito.
E onde havia abrigo ou choça escura

de acesso pra aceitar em ânsia pura,
postes que o som pudesse sacudir, -
ali criaste tu templos no ouvir. (12)


 

Fiquemos pois, perenes românticos, com esta imagem a um tempo visceral e sublime e que tanto serve a música como a literatura, a do mágico canto do Orpheu no soneto de Rilke que é -

árvore alta no ouvido




(1)   FISCHER, Claudia J., «Acústica Musical» (prefácio) in Contos Musicais (Lisboa: Antígona, 2017), pp. 5-6.
(2) Conceito que Patrick Quillier desenvolve a partir de um termo que aparece num poema de Apollinaire, «Acousmate».
(3) Cf. Nota 1.
(4) Traduzido para português com o título Atmosfera, ambiência, Stimmung. Sobre um potencial oculto da literatura (Rio de Janeiro: PUC, 2014).
(5) WACKENRODER, «A estranha vida musical do compositor Joseph Berglinger» in Contos Musicais, pp. 30-31.
(6) Id. p. 34 (sublinhados meus).
(7) Id. p. 50.
(8) Id. p. 60.
(9) DELEUZE E GUATTARI, «O plano de imanência» in O que é a Filosofia?, trad. de Margarida Barahona e António Guerreiro (Lisboa: Presença, 1992), p. 39.
(10) Id. pp. 41-42.
(11) Contos Musicais, p. 23 (Notas): Fragmento 1122: «A palavra Stimmung remete para correlações musicais da alma. A acústica da alma é ainda um campo obscuro, mas talvez mais importante. Vibrações harmónicas – e desarmónicas.»
(12)  Rainer Maria Rilke, Poemas As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu, prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela (Porto: O Oiro do Dia, 1983), p. 233.

 

Sobre um lírio desprezado

Sonho CCXII


 
A Françoise estava mergulhada na água de uma piscina natural, no meio das rochas, com uma pequena criança.
 
A criança estava muito alegre e entusiasmada com tudo o que havia para explorar nas rochas.
 
Minúsculas enseadas e praias se multiplicavam por todos os bordos e os seus habitantes interessavam-na vivamente.
 
As anémonas agitavam os suaves tentáculos como se fossem os bailarinos de um espaço celeste, os pássaros de uma gravidade zero.
 
Por todo o lado as cores, no meio das estrelas faiscantes que o sol fazia brotar na superfície da água, compunham variações inesperadas.
 
Apareceram diante dos seus olhos minúsculos balões de água que se soltavam da espuma de uma onda e que reflectiam as cores ácidas do arco-íris: azul, amarelo, rosa, verde, branco...
 
E a criança ria.

O seu riso fazia trilos.
 
A alegria que ambas partilhavam por estar imersas naquele espaço fazia-as voar por dentro do corpo como cometas no espaço, como se compusessem a linha de força de uma energia puramente musical.
 
A Françoise então uniu as mãos debaixo de água e, discretamente, dirigiu-se a Deus:
 
«Não permitas que a minha alma fique um dia indiferente a tudo isto.»

Antes morrer-lhe o corpo que morrer-lhe a alma e ficar, como uma noz queimada por dentro, o fruto ausente de uma casca vazia.

Quando estava imersa nestes pensamentos, caiu à sua frente, na água, um lírio que tinha sido há pouco arrancado da terra, um lírio quase intacto.

A criança pegou nele e lançou-o para longe, como se fosse um pedaço de lixo, mas à Françoise o lírio lembrou-lhe o corpo de Ofélia sob as águas, de Millais, e o seu coração começou a arder como uma sarça que fosse usada para velar um morto.

Com a corrente, o lírio desprezado voltou, e de novo a criança o lançou para longe, como uma coisa sem importância.

A Françoise voltou o rosto e seguiu-o com o olhar e viu que o lírio ficara entalado no primeiro degrau da escada que ambas teriam de subir para sair da água.

«Aquilo que um dia desprezares há-de estar sempre a meio do teu caminho.»

Foi no que pensou, por causa do lírio.

Sobre o Gato das Botas

Sonho CCXI


 
Eu e uma amiga estávamos a passar férias num hotel de luxo, mas sentíamo-nos muito infelizes.
 
Incomodava-nos o luxo e o ócio.
 
Queríamos sair dali o mais rápido possível, só que não havia transportes.
 
Mesmo assim fizemos as malas e pusemo-nos a caminho da saída, para o que desse e viesse.
 
Por uma coincidência incrível, encontrámos a Esmeralda que conduzia uma grande carrinha, fazendo trabalho voluntário no transporte de doentes com mobilidade reduzida.
 
Como é que a Esmeralda, que trabalhava tanto, ainda arranjava tempo para ajudar os outros?
 
A Esmeralda uma vez interpelara um bando de miúdos que arrastavam uma pomba com um cordel ao pescoço, e que já estava ferida:
 
- Meus meninos, não querem dar-me essa pombinha, para eu cuidar dela?
 
E a pombinha salvara-se.
 
A Esmeralda também um dia lhe lera um poema que fizera em menina para o seu avô, que era moleiro num velho moinho, e ela lembrava-se de ter chorado, ao ouvir o poema, porque tinha uma cadência tão certa e era, além disso, tão inocente.
 
E ali estava a grande e boa Esmeralda.
 
Mas a Esmeralda era tão grande, tão grande, tão grande que fazia três vezes o seu tamanho, quer o seu, quer o da sua amiga.
 
Como eram ambas pequenas, ao lado da Esmeralda!...
 
- Ó Esmeralda!... As suas botas!... - Exclamara de repente, ao reparar nas suas enormes botas.
 
A Esmeralda mirou as suas botas com orgulho.
 
Parecia o Gato das Botas.

Apesar de não estarmos doentes, nem com mobilidade reduzida, estaríamos a salvo, pois havia espaço na carrinha.

A Esmeralda nunca nos deixaria ao abandono por causa de umas regras que naquele momento a ninguém prejudicava quebrar.

Como era a história do Gato das Botas?

Parecia que já não se lembrava.

Apenas da sua avó, a contar a história do Gato das Botas.

E de como o Gato das Botas era bom e dedicado, esperto e encantador.






Noite

 
 
 
 
 
 
20-03-2017
 
 
 
 
 




Nem o futuro é previsível, nem o presente é garantido



As Mães da Síria, de Isabel Aguiar


 
 



Na sequência de um Requiem por Auchwitz (1), este livro reata quase sem fissura a mesma urgência, a mesma qualidade das palavras quase em bruto que estão à beira de um grito sufocado.

Tantas vezes desatamos a rezar, ou uma coisa em nós começa a rezar, diante de uma árvore, da morte, do mar ou de uma catástrofe.

Aqui levamos de chofre com as palavras e o fluxo que está à beira da oração intermitente e incontida perante a devastação, à beira do abismo interior que o testemunho da guerra e, afinal, as acções reais, possíveis, embora no limite do imaginável, da história viva da humanidade, podem desdobrar, replicar, ou revelar.
 
É isto o que mais impressiona nesta poesia.
 
Multiplicam-se as referências bíblicas, ou melhor, há todo um vocabulário bíblico, um imaginário bíblico. A fonte, a água, o deserto, as chagas, os anjos, os pregos, as sandálias, a areia, os jumentinhos, o sangue, o arqueiro, a flecha, os peixes, a nuvem... Mas este vocabulário não nos chega como uma ruína, como uma coisa velha ou morta de outro tempo. Ele chega-nos puro e intacto. Diríamos: transparente, novo, lavado. É impossível não pensar nos profetas do Antigo Testamento e na qualidade única que têm as frases e as palavras nesses livros pré-cristãos. 
  
V
 

Os jumentinhos estavam tristes
Eram jumentinhos que davam abraços às jumentinhas
 
As jumentinhas tinham vindo de longe para brincar com as meninas
Eram jumentinhas que conheciam as searas de trigo
Duas rosas nasceram num jardim
As jumentinhas não comeram as rosas
 
As rosas eram as chagas de uma menina
As rosas eram duas e as chagas eram duas uma em cada mão
 
As jumentinhas nunca tinham visto tanta maldade
Ofereceram uma lágrima à menina
Que não resistiu muito tempo
 
Aos pés da menina brotou uma fonte
 
A fonte era uma luz
A fonte era uma luz
A fonte era uma luz
 
A luz guiava as jumentinhas na noite
 

 
Qualquer coisa, como sublinha Luís Quintais, de não moderno, qualquer coisa «de prévio à enunciação» (ainda que não tenhamos a certeza de que esta coisa seja o resultado de uma intenção de «contrariar a dissociação da sensibilidade moderna») (2) qualquer coisa faz arder esta escrita de lés-a-lés. Na verdade, a escrita de Isabel Aguiar parece situar-se mais na quase extinta linhagem dos profetas, do que na dos poetas.
 
Há uma sensação omnipresente de estar no limite da urgência, no limite da sensibilidade e no limite do suportável.
 
Perguntamos: porque é que no terceiro poema estamos em lágrimas e o nosso corpo arde de alto a baixo, como se tivesse sido atado a uma pira?
 
Nestes versos sem pontuação nenhuma, sem uma única vírgula presente, sem um único ponto final, despidos de qualquer travessão, versos que às vezes parecem até a letra de uma música ausente, de um hino, ou de um salmo, e em que o andamento e o ritmo fluem com uma certeza arcaica, com uma força de pedra levantada, de monumento, as repetições nuas, os quiasmos, os ecos, a simplicidade quase pré-literária da sintaxe, criam um efeito de acumulação progressiva, na verdade, um efeito em que a intensidade do desespero é acumulada para lá do suportável, e ficamos dessa intensidade com um elemento tão real (na imobilidade e no espanto), uma prece tão pura e tão espontânea que de facto parece que só de um outro tempo nos pode chegar.
 
IV
 
Anjo triste
Anjo puro
Anjo que dormes nos umbrais
Anjo das manhãs
Anjo que não dormes
Anjo que não desces de uma nuvem
Anjo da terra no céu
Anjo da água aspergida
Anjo possível e real ao mesmo tempo
Anjo que bebe a água que não tem
A fórmula química da água
Anjo terreno na tua condição eterna
Anjo que não és só eterno
Anjo que viste os copistas de deus
Escreverem esta tragédia
Anjo que assististe ao fiat
Anjo que te alarmaste quando a
Luz não se acendeu nas escadarias terrestres
Anjo com uma materna face que perdeu o esplendor
Anjo concebido nos desertos sem matéria
Traz a tua vida
Santa solidão é a tua vida
Anjo ser espiritual que enternece
Anjo com um manto tecido nos teares eternos
Anjo que tens um sorriso incorpóreo
Que desafia a física nuclear
Nada explode em ti
Nenhuma partícula se perde
Anjo que te separas da matéria
Por uma homeostasia
Anjo que só vês escuridão
Sem um único ponto luminoso que sobressaia
Sem tréguas o teu coração volta-se para o céu
E rezas uma prece infinita
Noites a fio vês as meninas e as suas mães
Sem que possas ser visto
A tua dor não conhece os limites
Anjo que não bebes água por nenhum copo
Anjo que prodigalizas o ser em completo recolhimento
Tão alheado do corpo que outrora te conteve
Pudesses tu salvar as meninas da Síria

 
 
 
 
(1) AGUIAR, Requiem por Auschwitz (Lisboa: Licorne, 2016).
(2) Prefácio de Luís Quintais, p. 9 in AGUIAR, Isabel, As Mães da Síria (Lisboa: Licorne, 2017).

Sobre o celibato

Sonho CCX


A Françoise decidira investigar o paradeiro de alguém que em tempos amara.

Encontrou uma fotografia sua de costas, porque ele era um cobarde.

Mas quem não é cobarde?

O pior era forma como olhava para uma cena em que duas mulheres e um homem se divertiam no meio da lama.

Os corpos nus estavam cobertos de musgo e lama.

O que lhe lembrava uma cena do Indiana Jones em que ele cai por uma cascata de lama e aterra num lago de lama com a cara mesmo no meio das pernas da sua companheira coberta de lama, e, depois de alguns segundos, levanta o rosto enlameado e a sorrir, embevecido.

A Françoise lembrava-se bem de que como achara esta cena interessante, aos doze anos.

Mas o musgo e a lama também lhe lembravam uma cena do Stalker em que os três peregrinos dormem no chão, com o rosto encostado à terra e, por cima do corpo, pequenos bichos andando.

Era como se o Stalker tivesse uma relação amorosa e íntima com aquela terra.

Porém, aqueles participantes da cena na lama pareciam estar a fingir o seu prazer.

Queriam apenas ser uns como os outros, isto é, queriam ser aceites.

O que mais afligia a Françoise era o comprazimento que o seu antigo amado parecia retirar daquela miséria alheia.

Como é que a Françoise via isso?

Via-o na expressão do seu rosto, subtilmente matizada de gozo e altivez.

Captava-o de um modo tão instantâneo como quem capta uma cor - um verde, ou um azul.

A Françoise tinha amado aquele homem durante muito tempo.

No entanto, ser capaz de captar aquele desprezo dissimulado que ele tinha por um semelhante deixava-a tão fria como um bloco de gelo polar.

Primeiro o desencanto, depois a indiferença e depois a tristeza, apoderaram-se dela.

Mas qualquer coisa de extraordinário aconteceu a seguir.

Libertou-se uma energia incrível, como se a sua alma fosse um foguetão e tivesse acabado de disparar.

A Françoise sentiu uma independência veloz, uma força incrível.

Jamais ela seria o primeiro ou o segundo elemento de um casal.

À sua frente abria-se o infinito, como uma ampla pradaria de estrelas a explorar, um imenso espaço indeterminado e prometedor, aventuroso.

A qualidade específica dessa alegria era indescritível.
 

Sobre a impossibilidade de ficar indiferente

Sonho CCIX



Era uma casa cujo interior tinha sido construído ao contrário.

Todas as divisões que deviam ser iluminadas pela luz solar - os quartos, as salas e a cozinha - tinham sido colocadas no interior da casa. E todas as divisões que podiam prescindir dessa luz - os corredores, as casas de banho, a arrecadação e a despensa - tinham sido colocadas no exterior da casa.

A casa não era minha, era de um amigo. Não deveria ser ele a cuidar desse assunto?

Mas isto incomodava-me muito.

Indignava-me com o construtor daquela casa.

Sentia-me sufocado.

Um quarto sem janelas, e um corredor cheio de janelas.

Uma sala sem janelas, e uma despensa com janela.

Foi mais forte que eu.

Um dia, bati à porta com duas picaretas, uma em cada ombro.

- Vamos a isto? - perguntei.

- Começamos por que parede?

Lusco-Fusco

 
 
 
 
 






Sobre os homens e os pássaros

Sonho CCVIII



Os homens cortejam-se ao contrário dos pássaros.

No caso dos pássaros, eles é que se emplumam de cores variegadas e preparam o ninho, eles é que lançam os cantos mais elaborados, enquanto elas, cinzentas e pardas, parecem quase iguais umas às outras.

No caso dos homens, porém, são elas que se aperaltam e, eles, de um modo geral, quase todos se vestem de igual. Sempre de calças. Sempre de cabelos curtos. Sempre sem maquilhagem. Essa coisa de usar um chapéu com uma pluma ou um sapatinho com um laço de seda, isso foi há muitas dezenas de anos atrás, num mundo que já se extinguiu. Que homem hoje se vestiria com umas belas meias de seda cor-de-rosa e uns macios calções de veludo?

Será justo que as mulheres se divirtam a compor múltiplas personagens com os seus infinitos adereços e depois acabem por cortejar um homem que é sempre o mesmo e que se veste sempre com as mesmas pardas roupagens?

Afinal, entre o reino das aves e o dos homens impera apenas este curioso denominador comum - o da desigualdade entre os sexos.





Sobre a serpente e a maçã

Sonho CCVII



Era uma empresa de sucesso, com uma publicidade desleal e perigosa.

No passeio, em frente da porta, ardia uma lamparina sobre um suporte, com uma chama azul e difusa, que atraía a atenção de todos os que por ali passavam.

A lamparina, como estava à altura do estômago de um adulto, pegava fogo às crianças e aos incautos que por ali andavam.

Quando isso acontecia e algum distraído era apanhado era de imediato lançado o alarme e vinham os bombeiros em grande velocidade.

A Maria do Mar, parada no passeio, viu uma criança com o cabelo na parte de trás da cabeça a arder, enquanto todos gritavam. Segundo aquela gente, porém, tudo acabou em bem, e o homem que salvou a criança em chamas foi considerado um herói.

Não foi motivo para desligarem a lamparina, pois tudo isto chamava ainda mais a atenção de todas as pessoas e aumentava o fascínio pela lamparina e pela porta da empresa e, consequentemente, por tudo o que estava ligado àquela empresa.

Como precisava desesperadamente de trabalho, a Maria do Mar decidiu vender a alma ao diabo.

Dentro da empresa havia um homem que a magnetizou com a sua sensualidade insinuante.

Devia ter os seus cinquenta anos.

Era qualquer coisa entre as linhas do seu nariz e dos seus olhos azuis, frios como os de um lince, mas intermitentemente bem humorados. E qualquer coisa no seu corpo um pouco atarracado que a prendia como se fosse um íman.

A Maria do Mar envolveu-se com o homem e abraçaram-se os dois numa espreguiçadeira à beira-mar.

Como era Inverno, estavam vestidos, e a Maria do Mar apercebeu-se que não queria prosseguir.

Ficara com um ataque de acne, como o seu corpo tivesse decidido falar o que lhe ficara entalado na alma.

- E esta?... - pensou a Maria do Mar, observando com desgosto a sua cara no espelho. - Parece que tenho treze anos.

Quando regressou, e apesar de terem passado menos de cinco minutos, o homem estava com outra mulher e tinham cada um uma criança entre as pernas.

Como a Maria do Mar levava uma maçã na mão, ele, vaidoso, fez uma expressão enfastiada.

- Não!... Não quero essa maçã!...

- Parvalhão. - pensava a Maria do Mar, observando tudo minuciosamente.

- Mal sabes tu que esta maçã não é para ti. É para mim.

E deu uma dentada sonora na maçã, que era bem rija.

- Devem ter isto em comum. - pensou a Maria do Mar, olhando para ambos com detalhe.

- Uma criança entre as pernas. Mas que raio tenho eu em comum com este homem?

De regresso à casa de banho, a Maria do Mar colocou a cabeça debaixo da torneira.

A sua cabeleireira fizera-lhe um corte horrível, abominável. O seu cabelo estava empastado com uma massa insuportável de qualquer coisa que a Maria do Mar não fazia ideia o que fosse.

Esfregou a cabeça com espuma até se ver livre de tudo aquilo e, quando terminou, cortou o cabelo da maneira mais selvagem que foi capaz.

Pelo menos agora que parecia saída de um presídio ou de um manicómio sentia-se mais de acordo consigo própria.

A Maria do Mar pegou no carro e, por acaso, encontrou aquele mesmo homem que a traíra, andando a pé, cosido com um muro que ladeava a estrada.

Trepou por ela um impulso de crueldade.

Encostou o carro ao muro como se fosse esmagar aquele homem, o dono da empresa.

Mas isto não durou muito tempo.

A expressão de pânico na cara do homem de súbito petrificou o seu instinto de crueldade.

Parou o carro e abriu-lhe a porta:

- Queres uma boleia?

Agora já se tinha curado do acne e divertia-se intimamente com aquela expressão entre o terror e a perplexidade que flutuava na cara do homem.

O homem entrou, pois não tinha outro remédio.

A Maria do Mar tencionava deixá-lo mais adiante, num sítio decente.

- Como a carne é fraca!... - pensava ela.

Porque ao mirá-lo de alto abaixo podia sentir os olhos a ferver e, entre as pernas, um calor que a derretia e se propagava de alto a baixo.

O desejo circulava devagar e aos «ésses» por dentro do corpo, como uma serpente.

Mas como poderia deitar-se com alguém que desprezava?

Abriu a porta, para que o homem saísse.

O homem olhava-a ainda com aquela expressão entre o medo e o desconcerto enquanto a Maria do Mar pensava, com mais humor que nostalgia:

- Pois é. Nunca nos conheceremos.



Sobre as coisas que nunca mais se dizem

Sonho CCVI



A tia Milú tinha preparado um magnífico almoço de Natal.

Havia puré de batata verdadeiro, lombo de porco com laranja e puré de maçã acabado de fazer, com pó de canela servido à parte, em tacinhas pequenas, enfeitadas com colheres de prata. A lista dos doces era infindável. A massa dos bolos fatiados e dispostos em pratos redondos tinha um aspecto quente e fofo, muito fofo. Bolo de maçã, bolo de limão com glacé, mousse de manga, crumble e gelado de nata feito em casa, decorado com folhas de hortelã.

A Françoise sentia-se envergonhada por não ter trazido nada, nem sequer o seu célebre bolo de amêndoa com creme de manteiga, tão apreciado. Mas ficava contente por haver tantos doces em cima da mesa. Ninguém sentiria falta de nada.

No meio de tanta gente que ali estava, Heinrich Hart disse, com uma expressão de profunda reprovação:

- Françoise, aqueles «tês»...

Porque o desenho dos «tês» da sua caligrafia, nas cartas que lhe enviara, pelos vistos tinha tido um efeito semelhante aos de Gilberte na carta que enviara a Marcel, no romance de Proust.

Gilberte prolongava de tal forma os traços que atravessam as hastes dos «tês» que essas linhas se confundiam com as letras da linha anterior, o que fizera com que Proust lesse «Albertine», em vez de «Gilberte», e julgasse que a sua antiga amante estava viva, em vez de morta.

- Que teria acontecido?... - pensava Françoise, lembrando-se das suas cartas.

Heinrich Hart parecia-lhe agora um pouco mais atarracado, diferente de quando lhe lembrava uma pantera, com o seu corpo fino e elástico.

No meio de tanta gente, porém, era impossível enunciar uma pergunta.

Há coisas assim, que nunca mais se dizem.



Eudora Welty






Estivemos a celebrar Eudora Welty, no Porto.
Com ªSede.

Sobre a memória progressiva

Sonho CCVI


A disparidade inconcebível entre os dois elementos de um casal é sempre um desafio para a inteligência especulativa de alguém que os observe do exterior.

Era o caso típico de um casal cuja disparidade tinha o hábito de observar. Ela, impecavelmente cuidada, maquilhada, cabelos bem penteados, lenços escolhidos a dedo. Descontraída, mas elegante. Ele, barrigudo, mal penteado, a barba por fazer, por vezes com os cabelos mal lavados e sempre ponta a cima ponta abaixo, as camisolas cheias de borbotos, de tão usadas que estavam.

Um dia, a mulher aproximou-se de mim e disse-me:

- Eu conheço-a. Lembro-me bem de si.

- Ah... - respondi eu - Mas eu não me lembro nada... Tenho muito fraca memória...

- Não se iluda. - respondeu a mulher - Esse é o preço a pagar por uma memória progressiva.

- Memória progressiva?

- Sim. Quem não se lembra do passado, lembra-se do futuro. 

- Coisa estranha. Tem a certeza?

- Absoluta. Sempre uma grande virtude se transforma numa fraqueza, pela grande energia que consome, e vice-versa. Uma fraqueza pode transformar-se em virtude, pela quantidade de forças que liberta. Você não se lembra do passado, porque se lembra em excesso do futuro.

- Mas quem se lembra do futuro não será antes um visionário? Pela minha parte, não me parece que me lembre de alguma coisa do futuro...

- Você não sabe. Simplesmente tenho observado que esta lei opera de um modo infalível, absolutamente infalível.

- Mas que coisa tão estranha... Eis uma visão do tempo que vai contra tudo o que até agora fui capaz de intuir sobre o tempo, e é a sua visão!... No fundo, para si o tempo é como um espaço. Se você não está num sítio, então é porque está no outro. Mas o tempo já lá está de raiz, todo feito. Estarei a compreendê-la?

- Perfeitamente!

- Talvez como num casal em que as qualidades se deslocam com um movimento que não permite que estejam nos dois elementos em simultâneo, mas apenas num de cada vez?

- Sim, talvez. Pensando bem, é exactamente isso.

Como tudo nos parece lógico e natural enquanto dormimos, e difícil de pensar quando acordamos!...


Duas maminhas



Porto, 5 de Março de 2017

Sobre a necessidade de fazer arder os manuscritos

Sonho CCV



Quando a Françoise abriu a porta, o homem entrou e disse:

- Rápido. Passa para cá a arca.

Mas não seria a arca de Fernando Pessoa. 

A Françoise observou minuciosamente o rosto do seu interlocutor, em busca de um traço, na dentição, dos famosos caninos dos vampiros.

De qualquer modo, uma vez que a arca não era tão comprida como um verdadeiro caixão, o homem não poderia dormir confortavelmente dentro da arca.

E, mesmo que o homem precisasse da arca para dormir, como bom vampiro que era, a Françoise não queria, de modo nenhum, dar-lhe a arca. 

- Eu não sou um vampiro. - assegurou o homem.

Mas a Françoise não acreditava. Recordavam-lhe os chacais, os abutres e as hienas esses que, depois dos leões já terem comido a melhor parte, ainda andavam de roda da carcaça, com o intuito de matar a fome.