Sobre uma refeição atrasada

Sonho CL
 
 
Apesar de serem cinco horas da tarde, eu e Orlando I queríamos almoçar.
 
Sentámo-nos num restaurante onde ainda nos podiam servir.

Orlando I pediu uma posta de garoupa grelhada e eu um bife da vazia.
 
A posta de garoupa chegou no devido tempo, mas o bife nunca mais chegava.
 
Esfaimado, disse ao empregado que me trouxesse então um bitoque.
 
Em vez do bitoque o empregado trouxe-me um talo gigante de bróculo graciosamente colocado no prato com uma espiral de maionese.
 
Eu não queria saber que a sua filha fosse uma admiradora extasiada de todos os legumes existentes - possíveis ou impossíveis.
 
Orlando I já tinha comido a garoupa enquanto eu ainda esperava pelo bife.
 
Há um limite de tempo para o tempo que se pode esperar por um bife.
 
 

Nuno Maria
 


Sobre um elevador

Sonho CXLIX
 
 
Estava morto por chegar a casa.
 
Ao abrir a porta do elevador, reparei que entrava no átrio do prédio uma velha senhora caminhando com alguma dificuldade apoiada no braço da filha, que também já não era jovem.
 
Respirei fundo e dispus-me a esperar pelas duas senhoras, dizendo de mim para mim, ao sentir-me tão subliminarmente contrariado:
 
«Como a nossa bondade é pequena!...»
 
Quando as duas senhoras entraram no elevador, agradecendo muito, perguntei-lhes para que andar é que iam.
 
Foi então que, sem querer, toquei num botão que tinha um símbolo ilegível, ao invés de tocar no número que me tinham dito.
 
Só pensava nas inúmeras coisas que tinha para fazer, quando chegasse a casa.
 
Mas pedi imensa desculpa ao dar pelo erro, enquanto pensava, para os meus botões:
 
«Quanto mais depressa, mais devagar.»
 
Contudo, o elevador não subiu para nenhum andar, em consequência do meu erro.
 
O elevador disparou como uma carruagem de montanha russa a deslizar sobre dois carris que permitiam uma vista panorâmica sobre a cidade de Lisboa e os arredores de Cascais.
 
«Mas porque é que os nossos elevadores haveriam de ter esta vertente turística?...»
 
Pensava eu - concluindo que afinal devia ser por isso que tínhamos pago tanto por eles.
 
«Peço imensa desculpa...» - Dizia eu às duas senhoras. - «Faço-vos perder tempo... e apanhar sol... as minhas sinceras desculpas... se eu soubesse...»
 
Elas diziam que não, que não me preocupasse tanto e não me desculpasse - porque a toda a gente acontece errar, ora essa!..., e que o passeio era até muitíssimo agradável e além disso qualquer pessoa poderia ter um descuido ao carregar num número tão elevado de botões...
 
Agora tínhamos de ir até ao Cabo da Roca, passando pela Duna Crismina e pela Malveira da Serra.
 
O nosso elevador era um espécie de móvel multifunções e  por vezes íamos como que numa pequena carruagem sobre carris, enquanto noutras íamos pelo ar pendurados num cabo como nos teleféricos.
 
Eu não via já como chegar a casa a tempo de fazer tudo o que ainda me faltava fazer.
 
Para cúmulo do desastre, às duas por três estávamos a atravessar a praia do Guincho mas, como os carris estavam sobre as águas e a maré subia velozmente com o mar agreste e revolto, tivemos de nos agarrar com força à base dos bancos para não sermos arrastados pelas ondas.
 
«Que irresponsáveis, os promotores deste passeio turístico!...» - Pensava eu, guardando para mim estas considerações de modo a não apoquentar ainda mais as duas pobres senhoras.
 
Nesse momento já não fazia sentido pedir qualquer espécie de desculpas.
 
Com o impacto de uma grande onda a minha mochila azul voou e fiquei a vê-la flutuar na espuma do mar revolto, enquanto ponderava qual a melhor de duas más opções -
ou lançar-me às águas, ou aguardar em longas filas de espera de modo a substituir o cartão de cidadão, a carta de condução, o livrete do carro, os cartões de crédito, etc.

Essa mochila tinha escrito em letras pretas: «À procura da liberdade.»
 
Acabei por me lançar à água e, com muito esforço e risco da própria vida, reaver a mochila azul.
 
Já não esperava animadamente chegar a casa, quanto mais realizar as tarefas planeadas.
 
 

Nuno Maria
 

 

Fragmento 168




Máquina de resistência.

Corpo contra a morte.

A arte.




Sobre uma poça de água

Sonho CXLVIII


De joelhos e com as mãos apoiadas no chão, debruçava-me sobre uma poça de água à
beira-mar.
 
Ali estavam as anémonas de aspecto esponjoso que agitavam suavemente os tentactáculos moles e modernamente coloridos, verdes e amarelos ácidos e rosa shocking.

Uma espécie de caracol-vampiro que parecia alimentar-se do sangue das flores, deixando atrás da sua marcha lenta um rasto de destruição.
 
Uma serpente que rastejava por entre as rochas, desaparecendo por túneis e ressurgindo depois num outro ponto inesperado, com um rosto frio e ameaçador.
 
Completamente imóvel e de joelhos, contemplava este mundo multicolor e incrivelmente variado, ao mesmo tempo repelente e fascinante, como se estivesse hipnotizado.
 
Nuno Maria

 

Fragmento 167

 
 
 
 






 
Pássaro - Voa!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
*Fotografia do bailarino Diogo Oliveira


Sobre o "Fundo de Miséria"

Sonho XCVII

 

 
Tratava-se de um subsídio que se chamava «fundo de miséria».

As pessoas recorriam a ele na condição de levarem uma vida monástica e pareciam felizes e realizadas.

António Pizarro, como já levava uma «vida monástica», mesmo sem saber antes disso que a sua vida cabia em semelhante definição, ponderava se não devia candidatar-se a um tal «fundo de miséria».

Porém, candidaturas, como as dos prémios, ou das bolsas, não pareciam ser para si nem para nenhuma espécie de vagabundos afim.


 

Órfãos do infinito

Fragmento 17


Não pertenço a nenhum grupo, a nenhuma religião.
 
Tenho pena.
 
Poderia talvez amar um ritual como uma planta que, se fosse capaz de amar, amaria a sua raiz.
 
Mas não pertenço a nada. Estou sempre de passagem.
 
Acredito porém que preciso de criar qualquer coisa, em vez de religião, de outra forma morrerei como todos os que morrem aos poucos.
 
Preciso de uma nova visão, preciso de um novo pão.
 
Não desejo que a morte seja apenas uma comédia com pormenores grotescos, hilariantes e trágicos.
 
Sem Deus, ainda que vivamos em abundância, ficamos sempre muito magros ou muito gordos, passamos fome ou comemos até à náusea, até nos envenenarmos e deformarmos a nós próprios, como que inchados por maus tratos.
 
Demasiado pobres, viciados em miséria, ou demasiado ricos, como ladrões inconscientes, satisfeitos e vaidosos, trabalhamos muito até já não pensar, como escravos púdicos e embriagados desse prazer de cumprir um dever.
 
Cada um, ébrio de si, pode então escolher o íntimo prazer com que esquecer e morrer.
 
Baralhos de cartas, substâncias que se engolem, bebem, injectam ou inalam, sexo em série, objectos de luxo, paixões amorosas, carreiras ou famílias instaladas, e até o que parece bom não deixa de ser um vício, diminutivo e por fim doloroso e fatal como uma doença, enquanto andamos desta maneira desvairados, perdidos de deus - os órfãos do infinito.


 

Sobre a rendição como estratégia de guerra

Sonho CXLVII
 

F. de Riverday via como se fosse num álbum de fotografias animadas os seus pais quando eram ainda bastante jovens.
 
Tratava-se de uma reportagem sobre a realização de um filme a preto e branco - um projecto que eles e os seus amigos tinham decidido empreender em conjunto, para se divertirem, numa floresta de eucaliptos.
 
Com os seus fatos de excelente qualidade e bom corte, as motas de alta cilindrada e os carros descapotáveis, mostravam-se, quer nas maneiras, quer nos comentários e ideias, caprichosos, inconscientes, vaidosos e incrivelmente fúteis.
 
Folheando o álbum, F. de Riverday reflectia no facto de como, no espaço de apenas uma geração, a perspectiva de vida poder transformar-se de um modo tão radical e abrupto.
 
O mais grave porém era que ela às duas por três também estava metida naquele filme.
 
Levava consigo um casal de violinistas que eram pais de uma menina chinesa de seis anos, muito inteligente, mas o filme começava a correr muito mal, pois havia um elemento que cortava eucaliptos na direcção errada.
 
Os eucaliptos caíam com estrondo em cima dos vários participantes que iam morrendo de forma instantânea, apesar de correrem em todas as direcções.
 
A Riverday também corria e, mesmo tomando a morte como certa, conseguiu escapar-se por entre os buracos de uma rede que entretanto lançavam para cobrir e apanhar os cadáveres.
 
Mal se escapou, correu ao encontro da menina chinesa, pois sentia-se responsável pelo que acontecera aos seus pais.
 
Quando chegou perto da menina, antes sequer de abrir a boca, ela disse:
 
«Eu já sabia.»
 
«Já sabias o quê?»
 
«Já sabia tudo o que veio a acontecer.»
 
Riverday sentou-a no seu colo quando viu aproximar-se uma velha de nariz adunco e expressão cruel.
 
O rosto da menina ficou branco e sombrio e o seu corpo crispou-se como se fosse inteiramente de pedra.
 
«O que se passa?» - perguntou F. de Riverday.
 
F. de Riverday reparou que a velha se imobilizava como um manequim e que o seu corpo ficava vazio como um invólucro.
 
«O que se passa aqui?» - Gritou a Riverday, desesperada.
 
A menina estava totalmente hirta e deitou-se na cama a olhar para o tecto, com as mãos sobre o estômago.
 
Apesar de nunca em toda a sua vida ter ponderado semelhante hipótese, a Riverday percebeu que a velha tinha passado para o corpo da menina.
 
«O que está a fazer, sua velha bruxa?»

A velha não queria mais habitar o seu corpo inchado, dorido e esclerosado.
Preferia deitar-se na cama com o corpo da menina.
 
«Mas não corres, não saltas, não brincas, não danças, não fazes castelinhos com a água e a areia?»
 
Não. A velha tinha uma alma de velha e, por isso, não se interessava por fazer nada.
 
Riverday chorou durante dez horas aos pés da cama, mas a velha tinha um coração de pedra.
 
Por fim, a velha abandonou o corpo da menina, pois já era noite e precisava de regressar a casa, e F. de Riverday decidiu matá-la.
 
Pegou numa grande faca e dirigiu-se para casa da velha com a intenção de lhe cortar a cabeça.
 
Sentia-se tomada de uma tal fúria que estava capaz de lhe cortar a cabeça de um só golpe, mas, quando chegou à frente do alto portão da casa, a velha e a sua neta deitaram-lhe um olhar através das grades que a paralisou como um feitiço.
 
F. de Riverday ficou de braços no ar, imóvel, a vê-las desaparecer no interior da casa, até que se quebrou o feitiço.
 
«Não os vences com as armas comuns - vence-los no próprio terreno.»
 
E foi deste modo que F. de Riverday, naturalmente avessa a todas as formas de magia, partiu em busca de um exorcista.
 
 
 
Nuno Maria (2015), «When things go out of hand»
Aqui
 



Tchaikovsky - Dança da morte do cisne

Fragmento 114
 
 
 
Os bailarinos usam as pernas como asas - e voam com elas.
 
Fazem trilos com os pés nas leves piruetas com que lançam o corpo inteiro inclinado no ar, num excesso de alegria.
 
Quando chega a dança da morte do cisne, a dança dolorosa da bailarina-cisne, é todo o seu corpo que é realmente cisne - e vê-se na transparência total aquele misto de dor, majestade e solidão que passa pelo corpo do cisne, acompanhado pelas tremuras involuntárias do animal.
 
Correm-me as lágrimas pela cara, perante a dança do estranho pássaro, mistura altiva de ave com nuvem. 
 
Há um pássaro que aparece de súbito no corpo da mulher como que em clarões ou flashes ou labaredas nos braços que ora desenham o corpo oblongo, ora as asas, ora o pescoço estendido e impossível.
 
Bailarina tão fina, como podes ser tão frágil e tão forte?
 
Os teus gestos já não são de gente, o teu corpo já não é de gente.
 
Toda tu passaste para o lado do animal.
 
São as inflexões e os tremores dos braços que me falam de uma outra paixão e de um outro amor que já não é o dos homens.
 
Paixão de voar. Paixão de existir. Amor por simplesmente ser.
 
Solidão infinita de todos os animais que existem sós e que não pretendem compreender, muito menos compreender-se. 
 
Se o bailarino, apaixonado e um pouco tonto, te persegue fascinado e sem nada entender, que importa afinal?
 
São as mãos torcidas no fim das asas que me falam de voar sem ter mãos.
 
Asas que já nunca foram mãos nos braços da bailarina-cisne e que se agitam numa emoção sem palavras, afectos dos que nunca falaram, estes animais que se levantam, que correm, que voam e que se suspendem nos ares, como que arrastados por vagas...
 
Mesmo quando o gesto se torna um pouco humano, um pouco mais legível, vem a seguir uma quebra, um desfalecimento nas costas, uma embriaguez que nos leva para outras franjas, para outras inconsciências.
 
Núpcias contra-natura!... Ó Príncipe perdido!... Como pode um cisne conter-se nos teus braços?...
 
Ela dobra-se e escapa-se como uma onda, como um corpo fluído.
 
Quando chega a dança alegre do quarteto, a dança leve e ritmada do «pas de quatre» das quatro bailarinas-cisne, é o fru-fru das saias que já são plumagem, por entre os braços cruzados e as mãos sempre dadas, formando «vês», no corpo múltiplo que se extrai do bando das raparigas, com um excesso de riso e leveza, é o absurdo fru-fru das saias que se agitam entre as pernas-asas das dançarinas virtuosas que me faz rir e chorar, sem saber porquê.
 
E é caso para perguntar: alguém aqui pode ser convertido a um sentimento como a pena, como a saudade?
 
Será que a bailarina-cisne tem saudades de ser mulher, ou que ela tem pena de não ser princesa?
 
A saudade e a pena dos homens chega sempre depois, depois das despedidas, depois das partidas, depois dos lutos e depois das perdas.
 
Mas este afecto de dor já vem de muito antes, de um outro tempo, como de um outro plano ou de uma impossibilidade absoluta de falar, impotência rigorosa de que apenas alguns de nós conhecem a violência.
 

Anna Pavlova (1905)
 
 



Sobre o caminho mais curto


Sonho CXI

 
Descobria um caminho mais curto para chegar a casa, um trajecto mais rápido.
 
«Como é que nunca me ocorreu vir por aqui?»
 
Seguia por um desses traçados ziguezagueantes entre as ervas rasteiras de uma colina, lembrando-me de uma passagem de Marx em que ele compara as diferenças entre o capital necessário para traçar um caminho rural, uma estrada ou uma linha férrea e do corpo social que cada um desses investimentos implica.
 
Enquanto caminhava também pensava em Deleuze, quando ele fala do cão que fareja traçando o seu caminho aos zigue-zagues, através da linha imprevisível do seu desejo (uma linha de curiosidade, uma fome de mundo...).
 
Porém, de repente, chegava a um ponto em que o caminho estava cheio de lama.
 
«Afinal, este caminho não é assim tão bom.»
 
Porque não havia maneira de colocar os pés a não ser na lama.
 
Como tinha umas boas botas, arrisquei-me a seguir em frente, mas senti a água a entrar dentro das botas e a molhar as meias.
 
«Afinal, estas botas não são assim tão boas.»
 
De repente, a água começou a subir e já me dava pela cintura.
 
Estava a ser arrastado por uma corrente  muito forte e pensava:
 
«Onde já vão as botas... Preocupado com umas meras botas... Preocupado em não sujar os sapatos... E agora... Já só quero chegar a casa!...»
 
No espaço de um minuto, as minhas expectativas estavam a descer com uma velocidade alucinante para o nível básico da sobrevivência.
 
Conseguia por fim agarrar-me as umas saliências que estavam nas paredes dos prédios e, com muita dificuldade, vencia a corrente de água e de lama.
 
Em ambos os lados da rua da minha casa havia prateleiras de ouriversaria com as jóias desarrumadas, porque a inundação tinha passado por elas.
 
Entre o lixo, os ramos quebrados, as latas e as tábuas partidas que seguiam na corrente de lama estavam os colares, os diademas, as pulseiras de prata e os diamantes.
 
Conseguia ver uma coisa extremamente pequena, um brinco de ouro com uma pérola, que ficara perdido do seu par.
 
Caíam-me as lágrimas dos olhos, enquanto reflectia no paradigma inverso ao da Lei de Lavoisier.
 
Na violência, e quanto ao imediato, tudo se perde - e nada se transforma.


 
 
Nuno Maria (2015) «When things go out of hand»
Aqui






 

 



Entre duas séries

Fragmento 167

Por vezes duas séries divergentes cruzam-se num uníssono fugaz, que é um fenómeno co-extensivo a toda a vida.
 
Podemos observá-lo, por exemplo, na coincidência entre os veios do mármore e as nuvens no céu, entre os os traços do mar que recuou na areia da maré vazia e os veios da madeira, entre o corpo da vespa e a cabeça da orquídea, entre os ramos das árvores e o sistema venal do corpo humano, entre as vozes oblíquas e contrárias de um coral de Bach que por segundos se unem num mesmo som ou nesse momento pontual em que dois heterónimos divergentes de súbito subscrevem o mesmo tom, o mesmo tema, a mesma sintaxe ou mesma ideia.
 
É possível que este seja o resultado universalmente produzido por toda a mecânica do acaso.
 
Mas também é evidente que é intrínseco à força de uma divergência, por natureza, variar sempre em infinitos graus de tensão e pontualmente - unissoar.


 


 
 
 


 

Lençol de linho

Sonho CXLVI


Um dos lençóis de linho estava estendido numa corda em frente à janela da varanda do quarto.
 
A luz da manhã coava-se através do lençol sobre a cama onde Riverday estava estendida com um dos braços dobrados em L, os dedos enterrados no cabelo e uma das pernas também em L, sobre os lençóis em  desalinho.
 
Há quem sonhe que está a sonhar.
 
Riverday levantou-se meio a dormir para ajeitar esse lençol de modo a que toda a luz entrasse através do linho.
 
Deitada na cama, entreabria os olhos, diluída na luz do linho.