Crianças 13

(A Inês, de sete anos, ao limpar as mão com desinfectante, e depois de fazer uma careta)


- Cheira a mosquito!

- A álcool, queres tu dizer.

- A mosquito!

- A spray de mosquito, queres tu dizer?

- A mosquito, Professora!

- Mas alguma vez tu cheiraste um mosquito?

- Sim!... Já cheirei!... Encostei o nariz à parede e cheirei!... E isto cheira a mosquito!

- O quê?... Encostaste o nariz à parede?

- E também já cheirei um morto!

- Um morto?!!!

- Um morto, sim!

- Mas um morto?!!!

- Um mosquito morto.

- Ah...

- E hoje a Sofia matou uma minhoca e eu cheirei-a.

- Cheiraste-a?

- Era preta, e eu cheirei-a!

- Uma centopeia, seu papa-formigas...

- Uma minhoca preta.

- Só porque são pretas, cheiras essas coisas?

- Sim. E ia comê-la. Eu tinha coragem.

- Ai meu Deus...

(muitos risos)

Sobre uma costela bissexual

Sonho CXCIII



A Françoise, ao pendurar-se de uma varanda antiga em ferro forjado (já não sabemos porque motivo), caíra e, com o seu peso, arrastara parte da varanda consigo.

A Françoise, apenas com a ponta dos dedos, conseguira segurar-se.

Não seria por falta de força, mas porque o seu peso arrastava a frágil varanda, ainda presa à parede por finos cabos de ferro, que a Françoise sucumbiria.

Admirava-se com a força que tinha nas mãos, agora que se tratava de agarrar-se à vida.

Na hora de tocar os estudos de Chopin tinham-se revelado muito mais frágeis.

A Françoise gritou:

«Socorro!...»

Mas ninguém reparou.

A Françoise continuou a gritar, a intervalos regulares, mas com uma contenção e premeditação inacreditáveis.

Tinha medo que o esforço de gritar pusesse em causa o frágil equilíbrio da varanda e dos ferros que ainda a ligavam à parede.

Por fim, um dos transeuntes olhou para cima e reparou no que se passava, quase caindo ao chão com o susto.

Logo se mobilizou toda a gente.

Uns telefonavam, outros corriam, outros gritavam, outros ainda chamavam uns pelos outros.

Um homem enorme, um daqueles brutamontes que nos filmes de Chaplin fazem parecer o Chaplin ainda mais pequeno e efeminado, colocou-se debaixo da varanda, mas um pouco afastado.

- O que é que você está aí a fazer? - perguntou-lhe a Françoise.

- Estou à espera que você caia, para poder apanhá-la. - respondeu ele.

- Assim não consegue. - explicou-lhe a Françoise. - Está muito longe para conseguir apanhar-me.

- Não tem importância. - ripostou o gigante. - Quando você vier a cair eu dou um passo à frente e apanho-a.

Apesar da sua posição precária, a Françoise não conseguiu deixar de se sentir irritada com este excesso de confiança. 

Os ferros tinham cedido e a varanda já caíra um pouco mais, mas a Françoise, apesar de estar um pouco mais perto do chão, continuava bem segura pela ponta dos dedos.

Se caísse, não estava suficientemente em baixo. Ainda era a morte.

A Françoise viu com alegria uma jovem mulher que saía da porta do seu prédio carregando um grande colchão, em grande velocidade.

A mulher colocou aquele colchão debaixo dela e, quando a Françoise caiu, não se magoou.

A mulher era encantadora. Parecia uma bruxa ou uma feiticeira, com um casaco verde. Tinha qualquer coisa de uma antiga pintura fenícia, como uma dessas raparigas pintadas a negro e ocre num vaso elegante, milenar.

A Françoise sempre suspeitara que tinha uma costela bissexual, e agora confirmava-se a verdade.

Porque ela não queria apenas abraçar e agradecer àquela mulher que a salvara.

Queria beijá-la na boca e casar-se com ela, até à morte.



Espinosa e a crueldade

Fragmento 86


Segundo Espinosa, Deus é uma substância eterna e infinita, com infinitos atributos, dos quais apenas conhecemos dois, extensão e pensamento. Traduzindo para uma linguagem mais actual, Deus será a matéria toda do universo, energia escura, energia branca, cosmos de infinitas dimensões, das quais experimentamos apenas duas, espaço-tempo e pensamento. 

Perguntas: os afectos são o quê, para o pensamento? Um afecto não é o resultado de uma força que se cruza entre o corpo e a mente, como uma ponte que os ata (como a duas margens aparalelas) num mesmo nó? A que dimensão pertencem os afectos, a que atributo, se eles parecem ser os passageiros nómadas (vagabundos sem terra) entre os dois únicos que conhecemos, isto é, entre o corpo (espaço-tempo) e a alma (pensamento-tempo)?

E se eu sou apenas um modo no espaço-tempo, versão humana de uma essência eterna, singular e infinita que é um elemento fixo e cristalino em Deus, mas feito carne no espaço, se eu sou um modo tal como uma flor, um leão, uma pedra, um gato ou uma mosca, será caso para dizer que, neste mundo, as essências se ocupam em devorar-se umas às outras, como diversas etapas do consumo de uma máquina infernal? O que pensar? Como pensar? 

Que valor positivo pode ter um afecto que me destrói, como por exemplo o sofrimento diante do absurdo e da crueldade e, em particular, diante do absurdo e da crueldade da devoração e do consumo mútuo entre os elementos vivos e mortos de toda a natureza em movimento?

A resposta de Espinosa, quando afirma e explica que as essências em Deus nunca se destroem como essências, mas apenas se consomem como modos, é o eixo da sua filosofia da alegria (mas, ainda assim, não sei se é suficiente).

Sobre a tortura

Sonho CXCII



A Francisca arranjara finalmente coragem para partilhar um espaço público com Heinrich Hart, apesar do abalo que isso lhe causava.

Quem segurava as rédeas da sua alma nem suspeitava do que levava nas mãos!...

Abdicando de toda a compostura, e apesar de estar num espaço público, a Francisca já nem se dava ao trabalho de disfarçar, nem sequer em prol da boa educação.

Olhou para Heinrich Hart e de imediato tapou os olhos com as mãos, inspirando profundamente, ao mesmo tempo que escorregava pela cadeira.

Pior do que ser atingido por um raio, pior do que arder de febre prostrado num leito, pior do que ser desfeito a golpes de picareta - era aquele estado.

«Perdido por cem - perdido por mil.»

E mais triste ainda do que aquela triste figura, naquele momento, era a sua melhor amiga estar tão bêbada e não conseguir manter-se direita, na cadeira a seu lado.

De que servia que ela, Francisca, não tocasse em álcool há vários anos?

«Diz-me com quem andas - dir-te-ei quem és.»

Era esse o pressuposto juízo alheio que a torturava, irreparavelmente.

Entre o trivial e o sublime

Fragmento 40


Naquelas primeiras reuniões, enquanto ouvia os outros falar, chorava. As lágrimas rolavam-  -me pelo rosto, incontidas. Crianças filhas de outras crianças, adultos à força que ficam, em adultos, como estranhos anões. Adultos-crianças, depois de serem crianças-adultos. Histórias de sofrimentos impossíveis, de doenças, de mortes, de milimétricas perdas indizíveis, discretas e silenciosas, contadas por vezes em pequenos deslizes, sem que o protagonista se apercebesse do significado ou da realidade da própria história. Histórias banais, as histórias de todos, mas com erros de proporção. Porque não há ordem possível, acordo possível, entre o sofrimento a suportar e as forças da criança, dessa antiga criança que continua, pela vida fora, a reclamar o seu quinhão perdido, a gritar o excesso sem nome, em factos silenciosos, em actos de loucura e de tortura, em repetições e gestos absurdos. Não se trata de injustiça, não se trata sequer de desordem. Intensidade no meio do caos, que tanto cria como destrói. Uma franja de sublime, bordejando o excesso da dor. As contas de um jogo tremendo no tabuleiro do acaso. E eu chorava. Chorava por ser tão claro, tão evidente e, ao mesmo tempo, tão incompreensível. Depois vinha um elemento cómico, para aliviar aquele estado de tragédia, para me trazer de novo ao risível de uma comum humanidade, de um corpo mais trivial e mais escalonado... E qual era o elemento cómico?... Alguém me estendia, com expressão terna e compungida, um lencinho de papel... e o que é que eu fazia?... Ora... Assoava-me - com a inevitável fanfarra do nariz.


Palavras de Riverday antes da morte

Sonho CXCI



A sua vida chegara ao fim.

Chegara a hora da sua morte.

Os seus perseguidores eram implacáveis.

Depois de inúmeras fugas, disfarces, esconderijos e muitas outras formas de ludibriar os assassinos, estava por fim encurralada.

F. de Riverday não sobreviveria.

Estava no meio de um banquete, numa mesa com muitos convidados, e disse à sua melhor amiga:

«Esconde-te. Nega que és minha amiga.»

E disse ao seu irmão:

«Finge que não és meu irmão.»

E preparava-se para dizer aos seus pais:

«Neguem que são os meus pais.»

Mas não foi preciso, porque não estavam lá.

Na verdade, há muito que tinham desertado desse lugar.



Magritte, «Decalcomania» (1966)





Fragmento 156 - Opus Postumum




Poucas coisas tão difíceis de avaliar como poesia, filosofia, arte.

Nenhum juízo tão falível como o do crítico.

Nenhuma sorte tão flutuante como a das obras.



Uma das páginas manuscritas do «Opus Postumum» de Kant, que ficou por publicar até 1936-38, cerca de cento e trinta anos após a sua morte. Incompreensível para os seus contemporâneos, houve quem o considerasse, mais de meio século depois, um produto da senilidade. A primeira edição inglesa, em 1995, surgiu quase duzentos anos depois. Em Portugal, permanece por traduzir.




Sobre uma dificuldade máxima

Sonho CXC



F. de Riverday estava com muito frio e, por isso, pediu uma manta de lã à sua mãe.

A manta estava em cima de uma cadeira, mas a sua mãe não lha deu.

F. de Riverday não conseguia perceber se a sua mãe estava surda ou se não lhe estendia a manta porque fora precisamente isso o que pedira.

Foi em vão que repetiu o pedido.

É possível que não haja nunca maior desgosto de amor do que o primeiro, nem prova mais difícil de superar do que a indiferença ou a loucura subtil de um progenitor.