Sobre as casas que baloiçam

Sonho CCXXIX


As casas na areia baloiçam muito.
 
Parecem árvores muito altas mas não são flexíveis, ao contrário das árvores.
 
Nós ali temos muito medo, temos muito medo - mas fingimos que não é nada connosco.
 
As casas na areia não têm raízes, por isso abanam muito, abanam muito com o vento.
 
Nas casas caiadas de branco as molduras das janelas e das portas eram pintadas de azul.
 
E também havia uma faixa azul rente ao chão.
 
Nos terraços havia piscinas, mas era difícil apanhar banhos de sol, por causa do balanço.
 
Como o estacionamento era na areia, os carros também baloiçavam e saltavam, conforme a maré descia ou subia.

Pareciam pulgas da areia.
 

Sobre os animais que se multiplicam

Sonho CCXXVIII


A Maria do Mar estava bastante surpreendida por verificar que sofria de uma queda aguda de cabelo.
 
Podia observar no espelho que uma grande queda se tinha verificado no alto da cabeça, criando ali uma clareira circular que fazia lembrar a tonsura dos monges.
 
Para isto a Maria do Mar não se preparara.
 
Sabia que a pele lhe cairia um dia em torno do corpo, que os cabelos ficariam cinzentos, os ossos frágeis, as articulações calcificadas - mas nunca imaginara que pudesse ficar careca.
 
Além disso a Maria do Mar tinha agora um animal doméstico que se multiplicava sob stress.
 
Chamava-se Rasputine.
 
Lá em casa, o vento fazia bater uma porta com estrondo e... ZÁS!...
 
Em vez de um Rasputine - trinta Rasputines.
 
- Rasputine!... - bradava a Maria do Mar.
 
Era como aqueles professores que, pelo medo que inspiram aos alunos, tornam mais insignificante o medo natural que estes têm relativamente à dificuldade das tarefas.
 
Os trinta Rasputines voltavam a ser um Rasputine, mas era sol de pouca dura.
 
Ouvia-se dentro de casa o estrondo de um camião que passava sobre um buraco da estrada e... ZÁS!...
 
Em vez de um Rasputine - trinta Rasputines. 

Sobre a inexistência da coisa pública

Sonho CCXXVII


Vivíamos debaixo de fogo cerrado, precisamente no enclave onde se defrontavam as forças de dois países inimigos.
 
Tudo aquilo em que pensávamos se resumia à nossa sobrevivência.
 
Carregar água, conseguir alimentos, fazer pão, manter-nos limpos, tratar das crianças, escapar das bombas.
 
Vivíamos nas garagens subterrâneas de um prédio reduzido a escombros e todo o nosso tempo livre era dedicado a escavar um abrigo.
 
Se os inimigos nos descobrissem e entrassem na nossa casa, poderíamos ao menos refugiar-nos naquele buraco.

Aquele buraco era toda a nossa esperança.

Todos os dias podíamos sentir a opressão e a angústia dentro dos nossos peitos, mas tentávamos não pensar nisso.

Todos os dias nos imaginávamos a fugir para ali, disfarçando a entrada com um armário, tijolos que tínhamos preparado para o efeito e pedras. Levaríamos os nossos gatos debaixo dos braços em sacolas.
 
Éramos civis inocentes. Mas mesmo que fôssemos culpados seria um castigo desumano e cruel matar-nos ou mutilar-nos com uma bomba.

Havia três crianças, dois gatos, duas mulheres e um homem.
 
Um dia conseguimos ligar para o Presidente da República.
 
- «Oiça, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, você como representante maior do estado, como figura digna e emblemática, como porta-voz do povo, pelo menos você deveria denunciar esta guerra - e todas as guerras - em nome da lucidez e da sanidade física e mental de todos os cidadãos. Mas diga-nos, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, porque é que você anda para cá e para lá, com falinhas mansas?... Nós as pessoas não temos nada a ver com os países. Os países são entidades e negócios que nos transcendem, exactamente como os antigos reis transcendiam os povos. Tudo o que temos é uma língua - mas ela nem sequer é um pai. Sabe, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, tudo o que temos é uma língua-mãe. E ela deixa-nos aqui ou ali, pelo mundo fora. Não temos pátria. Só temos mátria. E não somos apenas pessoas. Também somos gatos. Os nossos gatos não têm culpa que falemos francês, mas serão exterminados por isso mesmo, se o inimigo nos apanhar. Que temos nós, as pessoas, a ver com os negócios de todos os países, com os interesses instalados? No momento em que nascemos o mundo já existe... Só queremos cuidar das nossas crianças, proteger os nossos filhos e viver com alegria e dignidade. Você pelo menos como figura emblemática do estado comece por defender a abolição dos países, comece por denunciar que a nacionalidade que se impõe aos cidadãos, desde a nascença, é uma atrocidade, que os países são totalmente extemporâneos às pessoas, são uma maldição, um aparelho parasitário, como a antiga aristocracia, uma canga com que se carregam as multidões para as domar e para as explorar, de preferência até ao tutano, e que se serve delas, como qualquer tirano e se a necessidade ou a oportunidade surgirem, como carne para canhão, segundo os seus interesses próprios e individuais, mas que não têm nada a ver com a vida geral... Que lastro de morte e desolação!... Que caravana sombria de gente triste e mutilada!... Como avançam os homens de ombros vergados, de olhos opacos!... Decrete, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, que em vez de países, se organizem as terras do mundo, e que a guerra seja para sempre banida. Ah!... Desculpe-nos. Esquecemo-nos que você não é presidente de coisa de nenhuma. Não existe nenhuma coisa pública, como indica a honorável forma do seu título. Se houvesse uma coisa pública, de facto, ela não seria propriedade só de alguns, nem caberia aos poderosos escrever as leis que servem para oprimir os impotentes.»