Fragmento 155

 
 

Vida infinita que estás em toda a parte,
que seja celebrado o teu esplendor
e venha a nós a tua força.
 
Que a tua potência se realize
assim na terra como no céu
e que aquilo que hoje precisamos
nos seja dado hoje.
 
Que as nossas fraquezas possam ser superadas
com a mesma força que nos permite superar
as mágoas que o mundo nos vai causando.
 
 E não nos deixes ficar diminuídos,
 mas livra-nos dos afectos tristes.
  
Amén!

 

A imensa tela negra

Sonho CXXXIV
 
 
Pedalava na minha bicicleta com uma tal velocidade que ela ganhou balanço e, levantando voo, saiu da estrada.
 
Ficámos eu e a bicicleta no alto de uma muralha que descia sobre a linha férrea, à beira do mar.
 
Não é fácil conduzir uma bicicleta tão rápida num caminho tão estreito.
 
Depressa perdi o controlo e tive apenas tempo de soltar a bicicleta das pernas e de me agarrar com as mãos nas arestas da muralha.
 
Pensei em deixar-me cair, mas observei o fundo, e o fundo não tinha água.
 
Era de pedra bem dura e nua.
 
Mesmo assim pensei em deixar-me cair, mas tornei a olhar de relance, e era demasiado alto.
 
Impossível sobreviver.
 
Não muito longe podia ver um cais onde uma multidão esperava o comboio.
 
Gritei por socorro com as forças que me restavam, mas foi apenas um fio de voz.
 
Não sobram muitas forças quando todo o peso do corpo está nas pontas dos dedos.
 
Tudo o que me ocorria ao contemplar aqueles homens de fato e gravata e mulheres de tailleur aprumado era que decerto esperariam cada um pelo seu comboio.
 
Estavam tão indiferentes e separados uns dos outros que não poderiam embarcar no mesmo comboio.
 
Olhei então para baixo para as enormes pedras nuas e douradas e percebi que minha morte estava perto.
 
Como uma imensa tela negra que de súbito fechasse o mundo, toda a luz do meu sonho desapareceu.
 
É que nos sonhos não se morre.
 
Por segundos, só o mundo se pode apagar.
 

Crianças 1

Fragmento 57

 
Da capo al fine:
 
dá a capa ao alfinete.
 
 
 




ALMA DE RAPARIGA


*


FIM




aqui





 

Sobre um almoço demasiado caro

Sonho CX
 
 
A Francisca M. estava na fila dos almoços do self-service da Gulbenkian, sozinha, quando se apercebeu que Heinrich Hart estava um pouco atrás de si, também sozinho.
 
Acenou-lhe, entusiasmada, mas ele mostrou-se frio e distante, acenando-lhe ao de leve, como fazem as pessoas que não querem cumprimentar-se.
 
A Francisca sentiu-se bastante infeliz e lamentou profundamente tê-lo cumprimentado com tamanha efusão de alegria.
 
Para piorar a situação, quando chegou a hora de pagar o almoço, a Francisca verificou que a sua conta era exorbitante, qualquer coisa como quinhentos euros.
 
Sentiu-se realmente mortificada, ainda por cima com a presença de Heinrich Hart um pouco atrás de si, na fila.
 
Não conseguia perceber como é que um almoço em self-service podia custar aquele preço.
 
«Porque é que não olhaste para os preços antes de pôr a comida no tabuleiro?»
 
Era no que pensava.
 
Apesar de tudo, a Francisca atreveu-se a perguntar como é que uma refeição podia custar aquele preço.
 
Responderam-lhe que estava a pagar todas as horas de trabalho necessárias para descascar os legumes do buffet, as beringelas, as courgettes, as cenouras, os rabanetes, as beterrabas, o feijão verde, etc., e que também estava a pagar a lavagem de toda a loiça, e também a limpeza da cozinha, de modo a que pudesse ter escolhido aquelas coisas que tinha no prato, mas que, se não achasse que fosse justo, então podia apresentar uma queixa em tribunal.
 
As pessoas atrás de si estavam a ficar muito irritadas com o atraso que lhes estava a causar no almoço, mas a Françoise não conseguia deixar de observar em silêncio que era tudo completamente absurdo, apesar de uma certa aparência lógica, todos aqueles discursos com que se defendia o preço dos almoços, e pensava:
 
«Que mundo...»
 
Pelo que decidiu defender-se, recusando-se a pagar o almoço.
 
Observou então que Heinrich Hart desistira de almoçar e corria cheio de pressa para se colocar à frente de um pequeno coro de jovens que afinal ia actuar na hora do almoço.
 
Pensava por segundos que talvez por isso ele tivesse sido tão frio e mal educado consigo, uns minutos antes.
 
Nada disso a consolou, porém, porque a lucidez se sobrepôs à necessidade de auto-ilusão.
 
Sentia-se de rastos e, aliás, estava sem almoço.

Sobre as decisões que nos condenam

Sonho LXXXVI

 
Estávamos a fugir dos nossos assassinos, que nos perseguiam furiosamente.
 
Conseguíamos escapar entre as alas de um palácio abandonado, cheio de relíquias e móveis antigos acumulados.
 
Engenhosamente, escondíamo-nos no topo de uma pilha de cadeiras, encaixadas umas nas outras.
 
Eram mais de cem cadeiras empilhadas em pilhas únicas, erguidas em direcção aos altos tectos, como pilares insólitos.
 
Infelizmente, um dos nossos perseguidores lembrava-se de olhar para cima.
 
Estávamos condenados.
 
A nossa própria decisão de estar ali no topo das pilhas de cadeiras é que nos tinha condenado.

Sobre uma coroa de St. António

Sonho CXXX

 
Depois de uma terrível confusão e de ter passado por muitas casas, a Francisca descobriu que a única maneira de sair de um compartimento onde se dizia missa era montar numa espécie de pequeno guindaste que se encaixava numa pequena plataforma móvel, um tipo de pequeno tractor que parecia mover-se através de um telecomando.
 
O compartimento onde o padre e os fiéis se encontravam era um primeiro andar do qual conseguiu escapar saltando pela janela, pendurada no guindaste.
 
A aventura, porém, revelou-se extremamente perigosa.
 
Ao contrário do que seria esperado, o tractor movia-se com uma velocidade surpreendente e, por entre as ruas, a Francisca foi ficando sem roupa, tal como a Liberdade de Delacroix, erguida contudo num moderno pedestal metálico, sem bandeira, nem baioneta.
 
Por fim, no meio de uma marcha popular, o tractor foi travado pela multidão e a Francisca ficou estendida no chão.
 
Tinha uma coroa de St. António na cabeça, uma coroa de flores naturais muito bonitas, mas estava estendida no chão.
 
Alguém se aproximou, entre a multidão.
 
Eram dois turistas.
 
Um deles roubou-lhe a coroa de St. António, para ficar com uma recordação do Bairro Alto.

Sissi




 
 
 

Sobre a morte


Sonho CXXXIII


As filhas de Aethra Kaya estavam em partilhas, mas Aethra Kaya não tinha morrido.
 
Uma das netas de Aethra Kaya ocupara uma das casas, mas Aethra Kaya não tinha morrido.
 
Os móveis, as pratas, os espelhos de Aethra Kaya, os quadros, os tapetes e todas as demais coisas mais ou menos inúteis com que por vezes nos rodeamos na esperança de que os outros nos atribuam um alto valor, valor esse que a nós mesmos porventura aconteceu esquecer que é absoluto e sagrado, todas essas coisas tinham agora em cima as meras etiquetas com o preço em euros que o avaliador lhes tinha atribuído, mas Aethra Kaya não tinha morrido.
 
As pessoas não podem morrer assim.