Sobre o valor da esperança

Sonho CC



F. de Riverday recebera um grande embrulho com muitas coisas, muitas delas repetidas.

Havia dois pentes, dois relógios, dois cintos e várias outras coisas em duplicado.

A Riverday porém não gostava de ter coisas em duplicado.

Bastava-lhe um pente, um cinto e um relógio; não precisava de dois.

Pensava de si para si a quem poderia dar aquele excedente, sem se fazer muito notada.

Não compreendia as outras pessoas, que gostavam tanto de multiplicar as suas coisas.

O que Riverday mais gostava, pelo contrário, era de espaço.

Com o saco na mão, a Riverday entrou num elevador que desatou a subir em alta velocidade, como um foguetão.

As paredes do elevador abanavam como as cortinas do duche e Riverday pensou que se perdesse o equilíbrio cairia certamente de uma altura espantosa.

Tecto após tecto, o elevador furava os vários andares, até que disparou em direcção às nuvens.

«Ah!...» - exclamou Riverday. - «Como é possível?...»

A Riverday percebeu então que tinha morrido e, portanto, o novo plano em que se movia já não obedecia às antigas regras.

As cortinas do duche soltaram-se e a Riverday sentou-se no chão do elevador que voava velozmente sobre as colinas como um tapete voador.

Estava agora num desses subúrbios onde proliferam desordenadamente as casinhas e os respectivos pátios e onde a pobreza, mais que a dos bens, é a do gosto. 

Por todo o lado se viam leões de pedra ladeando os pequenos portões, aos pares.

À porta de um pequeno café, o seu meio de transporte estacou.

A F. de Riverday estava cheia de fome.

Abriu a carteira, mas só tinha cinquenta cêntimos.

«Não se preocupe.» - Disse-lhe o homem atrás do balcão. - «Aqui ninguém fica com fome.»

O homem desapareceu por uma porta, enquanto Riverday sonhava com a comida.

O que lhe apetecia mesmo era um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, mas, se fosse uma sandes de queijo, também ficaria contente.

É incrível como, na maior adversidade, e até mesmo na hora da nossa morte, nos basta o dom da esperança para sermos felizes.

A F. de Riverday flutuava na alegria indefinida dessa perspectiva indeterminada, mas certa, de vir em breve a saciar a sua fome.

Crianças 14

(Francisco, de sete anos.)



- Hoje o Diogo disse que tinha massa para o almoço.

- E então?

- Afinal não era massa. Era arroz. E o Bruschy disse: «O arroz mentiu.»

(Muitos risos.)

Orgasmos múltiplos

Sonho CXCIX



A Françoise vivia de novo num antigo T0 de onde se via uma nesga de mar.

Estava tudo a cair.

Mesmo umas estantes caras que então tinha comprado e que acreditava que resistiriam ao tempo tinham ruído com o peso dos livros.

«Para quê tantos livros?...»

- A terra move-se de um modo imperceptível. É por isso que tudo acaba por ruir. - Dizia alguém.

A Françoise estava com os olhos cheios de lágrimas e sentia que talvez não sobrevivesse a uma tão grande tristeza.

Sempre tanto trabalho para manter tudo limpo e de pé!... Sempre tanto trabalho só para manter tudo na mesma!...

Entravam no apartamento três homens que vinham fazer as obras.

Um deles perguntava:

- Há aqui alguma mulher? Tu és uma mulher?

E a Françoise respondia:

- Eu sou uma mulher.

- Tanto dinheiro que eu gastei neste candeeiro!... - Dizia o homem. - E ninguém nesta casa o ligou!...

- Um candeeiro que é próprio para mulheres, com a sua luz especial iónica!... - Continuava ele. - Vocês acham que não precisam dos homens, mas precisam!...

De facto, quando ele ligou aquela luz especial iónica, o ambiente ficou muito diferente.

- Foi por isso que tudo ruiu!... - Continuava o homem.

Entretanto entrou pela porta um rapaz que conseguiu seduzir a Françoise com um beijo.

Na verdade, o rapaz era um homem.

Qualquer que fosse a idade de quem se envolvesse consigo amorosamente, passava a ser um rapaz.

Há tanto tempo que não experimentava um beijo que a Françoise deu por si a vir-se quase imediatamente.

O rapaz apercebeu-se disso e ambos fugiram para um parque de estacionamento onde se enfiaram no carro e fizeram quase tudo o que conseguiam fazer.

É incrível como uma mulher pode viajar por tantos picos de prazer, com quase nada.

A Françoise lembrava-se de um certo professor na faculdade que deixava a sua imaginação de tal modo ao rubro só com as palavras que dizia e com o movimento das mãos enquanto falava que ela tinha de sair e torcer as cuecas no final da aula.


Françoise M. - «Cartas de amor a este mundo»

Fragmento 21




Houve um tempo em que quis que me fosses espelho, mas não me iluminaste.

Fiquei de olhos abertos na escuridão, à espera da luz, mas a luz não chegou.

A minha luz ficou por nascer – e em ti, também eu fiquei por nascer.

Em vão quis que me fosses esse outro corpo com que celebrar o meu.

Foi um espelho sempre tapado, para mim sempre coberto com um pano de feltro gasto

igual a esses panos que cobriam os móveis das casas de onde todos partiram

e a que ninguém voltou, afinal, depois da grande viagem.

Teria talvez precisado que me devolvesses, com a tua, a minha existência,

mas não se levantou nenhum eco do meu clamor às montanhas

e eu fiquei por aí perdida nessa paisagem surda-muda

dentro de um suave caixão de vidro, tal qual a outra princesa,

enterrado nos meus ouvidos o silêncio, como um vazio que me desvairava.

Quis que me fosses voz, mas não vi nada, não ouvi nada... Ó dor intraduzível!...

Enviei-te um poema, como quem manda uma flor com uma carta,

um pedaço de lã, ou um retrato dentro de jóia...

mas nunca cheguei a saber se lhe tocaste, a esse corpo amoroso entregado,

nunca soube se chegaste a tocar-lhe – pois só tive de volta silêncio... e a dor

de conhecer a opacidade – e de ficar exilada, talvez, como morta entre páginas por abrir.

Errei tanto quem me aconteceu amar... e nunca cheguei a amar quem me amasse.

Foi esta maldição a minha de errar sempre um qualquer cruzamento possível,

como uma praga sem sentido... uma espécie rara de infidelidade.

Mas nunca me separei dos versos nem do mundo que me atravessou,

nunca me separei de como me olhou a visão que olhei, ao amar-te,

nunca me separei do amor que me tomou, em contemplar-te,

pois quis fazer só uma coisa obscura e muito antiga, essa magia de te convocar

com artes de um feitiço para me transportar, intacta, para as tuas mãos.

Penso, para me consolar, que talvez estivesse doente e intocável,

e estava... e talvez por isso tivesse sido assim... mas é uma fraca consolação,

sei que é uma fantasia muito tosca, como uma má desculpa,

porque em tudo pareço ter falhado, com dor, e fiquei como essa vagabunda meio louca

a dançar no que me sobrou da vida, funestamente, até poder enfim chorar estas lágrimas,

chorar como quem recomeça para depois sonhar outra vez e ser criança,

para depois da queda me encher de graça, de voo, de futuro e de dança,

ainda que apenas uma vez, uma breve e fugaz mas outra vez, outra vez.

Não escrevo agora versos de amor a seres humanos que se fecham

como pérolas em conchas, que se enterram como mortos descendo às valas,

ainda que proclame que voltarei sempre a escrevê-los, estes versos

por um novo amor não-humano a este mundo, uma vez mais e outra vez e outra vez...

É uma proclamação, uma promessa. Porque agora parece que falam mais comigo

as flores e as abelhas que voam no calor, agora parece que são as árvores

que nascem à volta da minha casa quem mais me contempla e acompanha.

Quero escrever versos de amor a este mundo, sonetos de amor para a água tranquila

que cintila nos tanques e para a luz que vibra em recortes na relva,

porque aqui e agora sempre me olham os cactos que florescem na primavera à beira mar,

eles sempre me vêem, sempre me atravessam, me tocam e me reflectem

e por isso quero fazer-lhes poemas de amor hoje e amanhã

como quem se entrega, dando-lhes de volta um corpo inteiro.




Luva, crina, dó

Sonho CXCVIII



Era um sonho interessantíssimo.

«Que coisa extraordinária!...» - Pensei.

Era uma descoberta, um renascimento. Agora, sim, eu iria começar a pensar de um modo totalmente diferente. 

«Ah!... Como se pode olhar de repente para tudo com novos olhos!... Como é tudo diferente!... Ainda não estou morto!... A realidade ainda não se cristalizou numa forma adulta, numa única modalidade!... Ah!... Que infinito!... Que horizonte!... Que extensão!... Que possibilidades!...»

Mentalmente, no interior do sonho, tomei nota de três coisas:

Luva

Crina


Pois eram os eixos, as articulações desse raciocínio que me salvaria da morte.

Quando acordei, porém, encontrei-me apenas com isto: 

- Luva. Crina. Dó.

Onde estava o resto?

Que raio de coisa absurda!...

Onde estava o caminho do infinito que essas palavras me prometiam?

É triste que a passagem do entusiasmo à miséria se faça com elementos tão dúbios e tão risíveis.

Contraponto Infinito

Fragmento 45


O erro de Kant foi considerar Deus como o fundamento necessário para uma metafísica dos costumes, ou seja, para a motivação séria de uma acção realmente boa e virtuosa, cuja recompensa estaria numa outra vida, na continuação além-mundo da alma imortal (por exemplo, na ideia cristã do Reino de Deus). Como é que um ser humano pode motivar-se na vida prática com uma tal teoria? A humanidade, por natureza, não parece destinada, nem ao sacrifício, nem ao martírio. Pelo contrário, a humanidade parece destinada à alegria. Como compreender as motivações de fanáticos que se fazem explodir em praça pública, na mira do paraíso?

Que a ligação imediata a uma coisa maior e a dependência prática em Deus, num sentido Espinosista - «Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido» -, ou seja, que essa ligação tenha o resultado prático imediato de libertação, saúde e graça, foi isto que escapou a Kant, de forma dramática. Pode-se ser foco de graça com o estômago vazio, um passado miserável, um desgosto amoroso e a conta bancária a zeros. É óbvio que estes sofrimentos não constituem a vocação natural de nenhum ser humano, mas a graça é materialmente inexplicável. Surge inesperadamente. Sente-se sem aviso prévio. Está ligada a uma leveza paradoxal que é a de nada ter importância, mas tudo manter, ainda assim e em si, um valor infinito. É uma alegria que dura mil anos e dança ao lado das guerras, das destruições e das tristezas, deixando-as embaraçadas, desajeitadas, como fracos actores num teatro infinito, poeiras desengonçadas entre o majestoso bailado das estrelas... A graça deixa o horror sem jeito. É um contraponto infinito. Um contraponto infinito para a crueldade e o absurdo do mundo, e nem sempre perceptível. A graça é, neste aspecto, parecida com as asas de uma borboleta que ontem poisou na grade da minha varanda. Eram duas asas magníficas, coloridas como se de uma aguarela abstracta se tratasse, e via-se nelas a energia das linhas brilhantes e fluídas que pareciam os traços rasgados e livres de um pincel. «Que maravilha!...» Pensei eu. Aproximei-me, fascinada, e apercebi-me, estando mais perto, que as bordas das asas estavam «roídas». Faltavam bocados. E ali afinal também estava marcada a ordem de uma outra espécie de violência. O meu coração apertou-se, o meu peito oprimiu-se. Porém, paradoxalmente, isso não tinha importância. E o valor infinito da ínfima borboleta, o seu valor sagrado, digamos assim, era, apesar disso, completamente independente dessa falta de importância. Porque não interessa o tamanho das coisas, pequenas ou grandes, importantes ou insignificantes, porque a dimensão delas, vistas sob este afecto, evaporou-seDançar fluidamente entre dimensões evaporadas, é essa a essência de um estado de graça. Não interessa o peso, a consequência, o primeiro e o segundo, o antes e o depois, a causa e o efeito. Tudo fica leve, tudo dança, tudo flui. Tudo - na sua passagem, na sua consumição, na sua destruição, na sua participação inegável de um outro sentido -, tudo tem um valor absoluto. Mas esse sentido é como uma franja, capta-se num limite, e o seu sinal é esta alegria. Uma absoluta confiança na vida, que já não passa pela forma de uma garantia humana, de um contrato meramente humano. Uma vida que já não é apenas a minha, apenas a da borboleta, apenas a de uma ou outra coisa. Mas uma vida em que cada coisa, independentemente do seu tamanho, tem um valor infinito. Uma alegria injustificável e impossível de esquecer. E ainda que aconteça numa fracção de segundo, que dure o tempo de uma breve faísca, é uma alegria que dura um milhão de anos. Como um raio que fulgura e cuja forma, num instante captada, num recorte faiscante de quartzo, jamais se esquece. Kant decerto não a experimentou, ou não teria necessidade de um outro reino. 

Sobre o aparente paradoxo de um facto transcendental

Sonho CXCVII



De madrugada, F. de Riverday desceu as íngremes escadinhas da Praia das Avencas, mas não foi para fazer amor às escondidas.

Na praia passeava um gigante, um homem enorme e assustador, e, um pouco adiante, um pequeno homem com próteses em vez de pernas que transpôs um muro com uma agilidade impensável.

«Onde é que te vieste meter?» - Perguntou-se Riverday.

Graças a Deus, o dia estava a nascer.

Num pequeno bar estava uma elegante mulher que preparava acepipes.

Ela era a proprietária do bar e procurava mostrá-lo de muitas maneiras, desde a indumentária, até ao tom em que distribuía ordens e instruções, passando por uma permanente atitude vistorial.

Talvez se sentisse frustrada, pensou F. de Riverday.

Solícita, uma outra mulher aproximou-se, com o intuito de dizer uma coisa agradável.

«Que bolos deliciosos!» - Disse a mulher.

«Porque é que não te vais suicidar hoje à tarde?» - Foi a resposta.

Nunca se dizem coisas agradáveis a certas pessoas quando estão no auge de uma frustração.

A maldade, tal como a bondade, não deixa de ser um elemento transcendental em acção.



Sobre uma garrafa de Vodka

Sonho CXCVIII



A Françoise vivia de novo esse sonho de reencontrar Heinrich Hart, um sonho que parecia repetir-se indefinidamente.

Desta vez, porém, o sonho era mais real e mais assustador.

Alguém dizia: «A partir de uma certa idade ninguém se casa.»

Pois era como se a partir de uma certa idade o princípio da realidade ganhasse uma tal força que já não sobrava margem para quaisquer fantasias a respeito do casamento.

Heinrich Hart prodigalizava-lhe uma agradável atenção, entre a gentileza, o humor e uma graça que lhe era intrínseca, tão natural como um certo ar.

Estavam tão perto um do outro como se fossem iniciar um beijo e, tal como Proust, quando beijou Albertine pela primeira vez, a Françoise sentiu-se à beira de uma desintegração.

O rosto dele que era essencialmente longitudinal a uma certa distância alterou-se de tal forma que tudo pareceu perder-se para a Françoise.

Ela já não sabia quem amava, nem exactamente quem era. Tudo se desfazia no enorme rosto que parecia uma estepe, um planalto, um deserto. Os olhos, e principalmente o nariz, estavam irreconhecíveis. Ao longo de uma imensa linha latitudinal tudo se dispersava, tudo acelerava. A Françoise sentia que os seus pontos cardeais se tornavam tão precários e instáveis como os de uma estrela suspensa de um vórtice em movimento. Sentia que tinha oito braços mas que eles não agarravam nada. Era como se tudo girasse à beira de um nada, de uma desaparição. A intensidade era tal, que tudo se esboroava.

Além disso, este género de felicidade paradoxal durou pouco, mal a Françoise descobriu que afinal Heinrich Hart queria apenas que casasse com o seu melhor amigo.

A contabilização deste desgosto era tão difícil, a distância entre a esperança e a desilusão, entre o desejo e a realidade, entre as suas precipitadas percepções e a verdade era de tal modo imensa que a Françoise só quis de súbito um rápido esquecimento, uma suspensão da sensibilidade, uma espécie de morte intervalar, isto é - uma garrafa de Vodka.


Sobre a graça e o mérito próprio

Sonho CXCVI



Conduzia o meu carro já noite avançada, quando vi passar em sentido contrário uma camioneta que circulava com a caixa aberta e, dentro da caixa, crianças que corriam e saltavam, sem qualquer segurança.

«É um crime!...» - Pensei, olhando para trás para ver a matrícula, num relance, porque não podia tirar os olhos da estrada, nem fazer inversão de marcha.

«Que posso fazer?...»

A matrícula era 03-07-07. Não fazia qualquer sentido.

Onde estavam as letras?

«É um crime ainda mais grave!...» - Pensei. - «Nem sequer estão identificados!...»

Ao chegar ao meu destino, porém, reparei que não tinha travões. 

Coloquei os pés fora do carro e travei com os pés, como se o carro fosse uma bicicleta.

Nem travões, nem acelerador, nem embraiagem, como é que tinha chegado ao meu destino?

O meu banco não andava só para trás e para a frente, como é habitual nos automóveis, mas andava para cima e para baixo, como é habitual nas bicicletas.

Não conseguia perceber porquê, mas tinha colocado o banco tão alto que nem chegava aos pedais.

«Estás a ver?» - Dizia de mim para mim. - «Tão preocupado com as infracções dos outros, que nem reparas nas tuas!...»

Bem se podia dizer que, se chegara são e salvo ao destino, e sem atropelar ninguém, fora apenas pela infinita graça de Deus, e não por mérito próprio.



Caos

Fragmento 73

Uma queda livre, uma vertigem. Não sei o que pensar. Não sei em que prisma, em que perspectiva, em que escala me colocar. Sou uma mosca passeando num vidro? Sou uma galáxia que se contorce no vazio? Sou um neutrão contraído num átomo? Sou uma escarpa no fim do cosmos, à beira de outro infinito? Que corte é que opero no caos? Que travagem realizo na velocidade? Não sei sequer por que ideia pego, para suspender esta queda infinita.

Os sapatos do adúltero

Sonho CXCV



Pela terceira vez, F. de Riverday cortara o cabelo de um modo radical.

A primeira fora com seis anos de idade.

F. de Riverday não se lembrava de nada.

As fotografias é que mostravam uma menina de românticos cabelos dourados que de repente se transformara num rapaz.

A segunda fora aos dez anos.

A terceira, porém, teve qualquer coisa de dramático.

O cabeleireiro não queria proceder à operação.

Contrariado, fez uma longa trança com os cabelos e, depois de a cortar, entregou-lha, com uma expressão fúnebre.

Apesar de não ser já uma criança, Riverday preservava uma curiosa inocência que a impedia de colocar a hipótese de que os cabelos pudessem ser objecto de comércio.

Não percebeu aquele gesto, mas guardou a trança.

Ao subir a escada do seu prédio, a Riverday observou que um dos vizinhos tinha deixado os sapatos de fora.

Eram uns excelentes sapatos de pele, bem cortados e bem cosidos, muito elegantes.

Na verdade, tratava-se de um código para avisar que estava com a amante, não com a mulher.

Estranha mentalidade!...

F. de Riverday estava na posse desta informação por um mero acaso, por ter sido, de um modo inconsciente e durante um curto tempo, a amante involuntária de um homem comprometido.

Apesar de serem tão caros, o adúltero não tinha medo que lhe roubassem os sapatos.

Estavam usados. Ninguém se interessava por eles.




Fragmento 157









SEGUE A TUA ALEGRIA

(Follow your joy)





Kandinsky, «Outono na Baviera», 1908, óleo sobre cartão,
45 x 33 cm, Centro Georges Pompidou, Paris













Sexo surreal

Sonho CXCIV



A Françoise vencera por fim aquela paralisação involuntária que sempre a impedira de olhar durante mais de alguns segundos para Heinrich Hart.

Tal como a Medusa, que com a sua cabeleira de serpentes transformava em pedra quem para si olhasse, assim esta visão tinha possuído durante muito tempo um idêntico poder, fosse pela qualidade indefinível da aura amorosa, que a Françoise nunca compreendera, fosse pelo abalo que lhe causava o desejo entretanto provocado.

Agora porém a Françoise tinha passado à acção, e não se arrependera.

Era urgente transitar dos abraços para os beijos e depois arrancar toda a roupa para ficarem apenas pele com pele, não havia tempo a perder.

Há momentos singulares em que se torna absolutamente evidente que não cabem na escassez do tempo, nem o nosso desejo, nem os nossos gestos.

Durante o sonho porém a Françoise apercebeu-se que a posição em que se tinham colocado era anatomicamente impossível.

Uma mulher não pode amar como se fosse um homem e continuar a ser uma mulher.

A Françoise não queria dar-se conta de estar apenas no interior de um sonho, nem que, com essa consciência, o sonho terminasse.

Era tão triste que aquele desejo chegasse ao fim.

«Pelo menos tu, sonho, não te acabes tão cedo!...»

Crianças 13

(A Inês, de sete anos, ao limpar as mão com desinfectante, e depois de fazer uma careta)


- Cheira a mosquito!

- A álcool, queres tu dizer.

- A mosquito!

- A spray de mosquito, queres tu dizer?

- A mosquito, Professora!

- Mas alguma vez tu cheiraste um mosquito?

- Sim!... Já cheirei!... Encostei o nariz à parede e cheirei!... E isto cheira a mosquito!

- O quê?... Encostaste o nariz à parede?

- E também já cheirei um morto!

- Um morto?!!!

- Um morto, sim!

- Mas um morto?!!!

- Um mosquito morto.

- Ah...

- E hoje a Sofia matou uma minhoca e eu cheirei-a.

- Cheiraste-a?

- Era preta, e eu cheirei-a!

- Uma centopeia, seu papa-formigas...

- Uma minhoca preta.

- Só porque são pretas, cheiras essas coisas?

- Sim. E ia comê-la. Eu tinha coragem.

- Ai meu Deus...

(muitos risos)

Sobre uma costela bissexual

Sonho CXCIII



A Françoise, ao pendurar-se de uma varanda antiga em ferro forjado (já não sabemos porque motivo), caíra e, com o seu peso, arrastara parte da varanda consigo.

A Françoise, apenas com a ponta dos dedos, conseguira segurar-se.

Não seria por falta de força, mas porque o seu peso arrastava a frágil varanda, ainda presa à parede por finos cabos de ferro, que a Françoise sucumbiria.

Admirava-se com a força que tinha nas mãos, agora que se tratava de agarrar-se à vida.

Na hora de tocar os estudos de Chopin tinham-se revelado muito mais frágeis.

A Françoise gritou:

«Socorro!...»

Mas ninguém reparou.

A Françoise continuou a gritar, a intervalos regulares, mas com uma contenção e premeditação inacreditáveis.

Tinha medo que o esforço de gritar pusesse em causa o frágil equilíbrio da varanda e dos ferros que ainda a ligavam à parede.

Por fim, um dos transeuntes olhou para cima e reparou no que se passava, quase caindo ao chão com o susto.

Logo se mobilizou toda a gente.

Uns telefonavam, outros corriam, outros gritavam, outros ainda chamavam uns pelos outros.

Um homem enorme, um daqueles brutamontes que nos filmes de Chaplin fazem parecer o Chaplin ainda mais pequeno e efeminado, colocou-se debaixo da varanda, mas um pouco afastado.

- O que é que você está aí a fazer? - perguntou-lhe a Françoise.

- Estou à espera que você caia, para poder apanhá-la. - respondeu ele.

- Assim não consegue. - explicou-lhe a Françoise. - Está muito longe para conseguir apanhar-me.

- Não tem importância. - ripostou o gigante. - Quando você vier a cair eu dou um passo à frente e apanho-a.

Apesar da sua posição precária, a Françoise não conseguiu deixar de se sentir irritada com este excesso de confiança. 

Os ferros tinham cedido e a varanda já caíra um pouco mais, mas a Françoise, apesar de estar um pouco mais perto do chão, continuava bem segura pela ponta dos dedos.

Se caísse, não estava suficientemente em baixo. Ainda era a morte.

A Françoise viu com alegria uma jovem mulher que saía da porta do seu prédio carregando um grande colchão, em grande velocidade.

A mulher colocou aquele colchão debaixo dela e, quando a Françoise caiu, não se magoou.

A mulher era encantadora. Parecia uma bruxa ou uma feiticeira, com um casaco verde. Tinha qualquer coisa de uma antiga pintura fenícia, como uma dessas raparigas pintadas a negro e ocre num vaso elegante, milenar.

A Françoise sempre suspeitara que tinha uma costela bissexual, e agora confirmava-se a verdade.

Porque ela não queria apenas abraçar e agradecer àquela mulher que a salvara.

Queria beijá-la na boca e casar-se com ela, até à morte.



Espinosa e a crueldade

Fragmento 86


Segundo Espinosa, Deus é uma substância eterna e infinita, com infinitos atributos, dos quais apenas conhecemos dois, extensão e pensamento. Traduzindo para uma linguagem mais actual, Deus será a matéria toda do universo, energia escura, energia branca, cosmos de infinitas dimensões, das quais experimentamos apenas duas, espaço-tempo e pensamento. 

Perguntas: os afectos são o quê, para o pensamento? Um afecto não é o resultado de uma força que se cruza entre o corpo e a mente, como uma ponte que os ata (como a duas margens aparalelas) num mesmo nó? A que dimensão pertencem os afectos, a que atributo, se eles parecem ser os passageiros nómadas (vagabundos sem terra) entre os dois únicos que conhecemos, isto é, entre o corpo (espaço-tempo) e a alma (pensamento-tempo)?

E se eu sou apenas um modo no espaço-tempo, versão humana de uma essência eterna, singular e infinita que é um elemento fixo e cristalino em Deus, mas feito carne no espaço, se eu sou um modo tal como uma flor, um leão, uma pedra, um gato ou uma mosca, será caso para dizer que, neste mundo, as essências se ocupam em devorar-se umas às outras, como diversas etapas do consumo de uma máquina infernal? O que pensar? Como pensar? 

Que valor positivo pode ter um afecto que me destrói, como por exemplo o sofrimento diante do absurdo e da crueldade e, em particular, diante do absurdo e da crueldade da devoração e do consumo mútuo entre os elementos vivos e mortos de toda a natureza em movimento?

A resposta de Espinosa, quando afirma e explica que as essências em Deus nunca se destroem como essências, mas apenas se consomem como modos, é o eixo da sua filosofia da alegria (mas, ainda assim, não sei se é suficiente).

Sobre a tortura

Sonho CXCII



A Francisca arranjara finalmente coragem para partilhar um espaço público com Heinrich Hart, apesar do abalo que isso lhe causava.

Quem segurava as rédeas da sua alma nem suspeitava do que levava nas mãos!...

Abdicando de toda a compostura, e apesar de estar num espaço público, a Francisca já nem se dava ao trabalho de disfarçar, nem sequer em prol da boa educação.

Olhou para Heinrich Hart e de imediato tapou os olhos com as mãos, inspirando profundamente, ao mesmo tempo que escorregava pela cadeira.

Pior do que ser atingido por um raio, pior do que arder de febre prostrado num leito, pior do que ser desfeito a golpes de picareta - era aquele estado.

«Perdido por cem - perdido por mil.»

E mais triste ainda do que aquela triste figura, naquele momento, era a sua melhor amiga estar tão bêbada e não conseguir manter-se direita, na cadeira a seu lado.

De que servia que ela, Francisca, não tocasse em álcool há vários anos?

«Diz-me com quem andas - dir-te-ei quem és.»

Era esse o pressuposto juízo alheio que a torturava, irreparavelmente.


Francis Bacon, Tríptico, 1987

Entre o trivial e o sublime

Fragmento 40


Naquelas primeiras reuniões, enquanto ouvia os outros falar, chorava. As lágrimas rolavam-  -me pelo rosto, incontidas. Crianças filhas de outras crianças, adultos à força que ficam, em adultos, como estranhos anões. Adultos-crianças, depois de serem crianças-adultos. Histórias de sofrimentos impossíveis, de doenças, de mortes, de milimétricas perdas indizíveis, discretas e silenciosas, contadas por vezes em pequenos deslizes, sem que o protagonista se apercebesse do significado ou da realidade da própria história. Histórias banais, as histórias de todos, mas com erros de proporção. Porque não há ordem possível, acordo possível, entre o sofrimento a suportar e as forças da criança, dessa antiga criança que continua, pela vida fora, a reclamar o seu quinhão perdido, a gritar o excesso sem nome, em factos silenciosos, em actos de loucura e de tortura, em repetições e gestos absurdos. Não se trata de injustiça, não se trata sequer de desordem. Intensidade no meio do caos, que tanto cria como destrói. Uma franja de sublime, bordejando o excesso da dor. As contas de um jogo tremendo no tabuleiro do acaso. E eu chorava. Chorava por ser tão claro, tão evidente e, ao mesmo tempo, tão incompreensível. Depois vinha um elemento cómico, para aliviar aquele estado de tragédia, para me trazer de novo ao risível de uma comum humanidade, de um corpo mais trivial e mais escalonado... E qual era o elemento cómico?... Alguém me estendia, com expressão terna e compungida, um lencinho de papel... e o que é que eu fazia?... Ora... Assoava-me - com a inevitável fanfarra do nariz.


Palavras de Riverday antes da morte

Sonho CXCI



A sua vida chegara ao fim.

Chegara a hora da sua morte.

Os seus perseguidores eram implacáveis.

Depois de inúmeras fugas, disfarces, esconderijos e muitas outras formas de ludibriar os assassinos, estava por fim encurralada.

F. de Riverday não sobreviveria.

Estava no meio de um banquete, numa mesa com muitos convidados, e disse à sua melhor amiga:

«Esconde-te. Nega que és minha amiga.»

E disse ao seu irmão:

«Finge que não és meu irmão.»

E preparava-se para dizer aos seus pais:

«Neguem que são os meus pais.»

Mas não foi preciso, porque não estavam lá.

Na verdade, há muito que tinham desertado desse lugar.



Magritte, «Decalcomania» (1966)





Fragmento 156 - Opus Postumum




Poucas coisas tão difíceis de avaliar como poesia, filosofia, arte.

Nenhum juízo tão falível como o do crítico.

Nenhuma sorte tão flutuante como a das obras.



Uma das páginas manuscritas do «Opus Postumum» de Kant, que ficou por publicar até 1936-38, cerca de cento e trinta anos após a sua morte. Incompreensível para os seus contemporâneos, houve quem o considerasse, mais de meio século depois, um produto da senilidade. A primeira edição inglesa, em 1995, surgiu quase duzentos anos depois. Em Portugal, permanece por traduzir.




Sobre uma dificuldade máxima

Sonho CXC



F. de Riverday estava com muito frio e, por isso, pediu uma manta de lã à sua mãe.

A manta estava em cima de uma cadeira, mas a sua mãe não lha deu.

F. de Riverday não conseguia perceber se a sua mãe estava surda ou se não lhe estendia a manta porque fora precisamente isso o que pedira.

Foi em vão que repetiu o pedido.

É possível que não haja nunca maior desgosto de amor do que o primeiro, nem prova mais difícil de superar do que a indiferença ou a loucura subtil de um progenitor.


Magritte, «Presença de Espírito», 1960.




Sobre a imensidão

Sonho CLXXXIX




De um barco à vela, tínhamos caído ao mar.

Nós os náufragos gritámos fortemente de modo a que o resto da tripulação nos ouvisse.

Tentámos nadar para perto do barco mas percebemos que uma corrente fortíssima nos levava, enquanto o vento levava o barco.

«Nada.» - Pensava eu. - «Somos menos que nada.»

Porque era tão ínfima a nossa força perante a força da corrente e tão avassaladora a nossa impotência.

Em menos de segundo, qualquer ideia de futuro se dissipou como uma voluta de fumo a confundir-se com o ar.

Num ápice, o barco desapareceu do nosso horizonte.

Como é imenso o mar!...

Como é imensa a terra!...

Atordoado, eu fazia contas à vida e à morte.

A morte seria dolorosa mas pelo menos rápida.

A vida, pelo contrário, parecia-me que ficava por viver. 

Tantos livros por ler!...

Tantos livros por escrever!...

Mais do que tudo o que me doía eram esses livros na hora da minha morte.

«Ainda não chegou a hora da nossa morte!...»

Gritou um dos meus companheiros de infortúnio, ao ver, no meio das vagas, um helicóptero.

«Aqui está um verdadeiro Deus ex machina.» - pensei eu, maravilhado com o som do helicóptero.

Depois disto, não dormiria durante três dias.

Tal era o píncaro de alegria em que me lançava a inesperada novidade de me saber dotado de uma hipótese de futuro, isto é, de uma vida.






Citações sem leitura

 Fragmento 9


Ter citado passagens de um livro sem nunca as ter lido é uma das experiências mais desconcertantes e poderosas que se pode ter. De onde vos conheço?... Onde nos encontrámos, afinal, antes?... Em que vida é que vos li?... De onde venho?... Passei por onde, ou entre onde?...  É extraordinário como nos sentimos tão próximos destes longínquos seres que nos repetem, nas décadas ou nos séculos ou nos milénios anteriores ao nosso nascimento. Não são estes os mais íntimos dos íntimos, estas nossas outras almas?… Agradeço com uma intensidade próxima da devoção terem escrito e deixado estes livros a troco de nada, tantas vezes na pobreza ou na solidão, e agora os livros são como pontes de lianas que atravessam os abismos da nossa morte próxima ou como as caravanas que nos transportam a salvo pelos desertos ardentes de uma eminente perdição. Ao mesmo tempo que nos salvam, que nos acolhem, que nos consolam, obrigam-nos a colocar tudo em causa. Sabemos o quê, pensamos o quê, sentimos o quê, pensamos que sabemos ou que sentimos o quê?... A consciência é escassa como um telhado partido. A nossa vida é sempre como esta estranha casa maior do que o telhado - uma espécie de casa absurda e que tal como um corpo se expande continuamente para fora do que sabemos dele. Eu que em tempos acreditei (ingenuamente) que era tão importante morrer, para que outros nascessem e pudessem começar a pensar de novo do nada, como se partissem do zero, constato afinal que estamos sempre a começar do meio, de qualquer coisa que já começou. Perdi a minha adolescente justificação da morte, ganhei uma infinitude de questões. Inconsciente colectivo, reencarnação, percepção transcendental, as pequenas percepções de Leibniz… Tantos conceitos criativos para tentar capturar o incompreensível e para justificar uma única experiência tão poderosa, enquanto um céptico ou um desencantado falarão apenas de uma fatídica falta de originalidade, na miserável raça humana. Mas eles não explicam nunca esta alegria, uma alegria que está nos antípodas do desencanto e que é tão intensa que se transfigura em redenção. 

«Nuvens... São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível...» (1) E eu também, eu também, meu querido amigo, minha outra alma, eu também fiz exactamente versos em prosa às sensações intransmissíveis com que quis tornar meu o universo incógnito. 



Fotografia de Joaquim Cardoso Dias, 2016







(1) Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Fragmento 204).

Sobre o instinto de conservação

Sonho CLXXXVIII



Vivíamos em pleno caos, pois todo o tecido social se tinha vindo a desfazer, ao longo dos últimos anos.

Os delitos eram tantos que não havia possibilidade de os contar, muito menos de os punir.

Muitas pequenas máfias tinham assumido o controlo das povoações e das cidades que passaram a estar divididas em bairros, conforme os chefes que as dominavam.

A condição das mulheres tinha regredido para o estado de muitos séculos atrás - e a maioria dos homens carregava uma arma.

Mas a Françoise continuava a comportar-se de um modo muito rebelde.

Certa vez estava parada num sinal vermelho, quando verificou que estavam a desmontar-lhe o vidro do carro, para o levar.

A Françoise não fez mais nada.

Tirou o vidro das mãos do homem e arrancou com o acelerador no fundo.

Esta atitude colocou-a na pior das situações.

«DÍVIDA DE MORTE.» - era como lhe chamavam.

A partir de agora, a sua rebeldia só poderia ser paga com o próprio sangue.

A Françoise não se tinha lembrado das novas condições em que se vivia.

De novo parada num sinal vermelho, viu entrar pelo vidro o cano de uma arma que foi apontada à sua testa.

De um modo bastante patético, a Françoise estendeu o vidro ao seu carrasco, como quem diz: «Leve-o.»

Ele riu-se, ufano com o poder de apontar à cabeça de uma mulher desarmada.

A Françoise ficou branca e sentiu uma fúria, uma tal fúria que lhe eriçava os cabelos e lhe dava essa força que é própria dos loucos e dos destemidos.

Agarrou no cano da arma com a mão e, de um só golpe, disparou-a contra o rosto do seu carrasco e, logo de seguida, contra o peito.

A Françoise não tinha apontado às pernas, nem aos braços.

Disparara sem piedade, sem remorso.

«Entre tu e eu, eu.»

Um animal fortíssimo e selvagem trepara por ela adentro e tomara conta de todo o seu corpo, de toda a sua alma.

Nessa velha equação do altruísmo sobrara apenas um único elemento - o instinto de conservação.

Crianças 12

A Laura, de cinco anos, depois de solicitada para contar uma história:



«Era uma vez um elefante, uma aranha e um esquilo. E não sabiam.»
 

Sobre a luxúria

Sonho CLXXXVII


A Maria do Mar encontrava-se uma vez mais com Biaggio Yamagutti, por pura luxúria.

Nem sequer falavam.

Mal ele abria a porta, depois de um surdo «olá» que se estrangulava nas gargantas, despiam as roupas o mais depressa que podiam e abraçavam-se.

A Maria do Mar mergulhava naquela pele como quem dá um mergulho de mar, fruindo o bálsamo da água fresca depois de um longo período de exposição ao sol.

Era inebriante.

Se ao menos aquele prazer durasse além da Hora!....

Em breve chegaria essa tristeza que é também a do alcoólico quando percebe que já terminou a segunda garrafa da bebida mais forte e não consegue pôr-se de pé.


Berenice Abbott (1898-1991)

Maria do Mar IV

Fragmento 155


«Desde os doze anos que vejo as luzes como Van Gogh as pinta. Antes dos doze anos, não me lembro. As linhas vivas e angustiadas que dançam em torno dos centros luminosos dos semáforos, dos candeeiros de rua e de todos os focos redondos que cintilam. No tempo de Van Gogh não havia semáforos, é certo. Mas eu vejo estas luzes do mesmo modo que ele via as outras que deixou pintadas, brilhando à solta pelas ruas. Desde os doze anos que penso: «Pintar é ver.» E muito mais tarde: «Ver é pensar.» Estes traços alucinados destacam-se quando olhamos as luzes fixamente, durante algum tempo, ou, pelo contrário - paradoxo... - quando as olhamos distraidamente, fixando genericamente o fundo sem as fixar, porque nesse caso o fundo que está atrás sobrepõe-se à frente, e as luzes começam a piscar. Tenho de investigar Van Gogh com alguma urgência. Tenho de fazê-lo urgentemente, antes que a morte me leve. Ler toda a sua correspondência. Conhecer palmo a palmo a sua vida. Olhar durante horas para os seus quadros e visitar as suas casas se conseguir reunir a coragem suficiente para viajar... Pois tenho a certeza que daí advirá... uma revelação.»


Van Gogh, Noite Estrelada (pormenor), 1889

Sobre o desejo de que um sonho não acabe

Sonho CLXXXVI



Finalmente chegara a hora de Francisca M. poder estar com Heinrich Hart, ao fim de tantos anos!...

Apesar de velho, ele continuava a magnetizá-la com a mesma intensidade.

Como ela amava aquela peculiar e eterna combinação de força e delicadeza que podia captar nos seus movimentos e no seu corpo, com toda a nitidez!...

Seria um tal emparelhamento entre feminilidade e virilidade, num  mesmo corpo, que a deixaria para sempre tão arrasada?

Ou era a forma como trocava os ditongos em «ão» por «am», como mordiscava o lábio inferior, o pensamento um pouco tortuoso, as atenções que lhe prodigalizava e o gozo e a marotice que se destilavam do seu olhar?

Certamente a Francisca M. haveria de esperar muitos anos antes de conseguir descobrir as palavras ou o conceito que descrevessem com exacta precisão a natureza real dessa magnética androginia, que se expressava em particular no movimento e na forma das mãos - finas, brancas, suaves, mas fortes e bem delineadas, como que marcadas a traço firme num desenho a carvão de Michelangelo.

Sentados lado a lado, ela podia sentir com perfeita nitidez a combinação destas duas forças opostas no corpo encostado ao seu, fino e elegante, vestido de linho branco.

A Francisca perguntava: «O que quer dizer WAS WIR?»

Mas não obtinha resposta.

«Dabliú dabliú.» - Insistia a Francisca, sentindo-se uma perfeita idiota.

Pois não há nada tão confrangedor como insistir em obter respostas de quem não no-las quer dar.

A Francisca ansiava por poder despir-lhe a camisa branca, botão a botão, e libertar-se a si de toda a parte de cima de um só golpe, camisola e roupa interior, para poder encostar o seu peito nu ao seu.

Sonhava com esse instante mágico em que se uniriam num beijo e ela poderia enfim fluir na embriaguez antecipada a tensão infinitamente suspensa do seu desejo.

«Ó sonho!... Não acabes ainda!...»

Mas o problema era o empregado de mesa, que não trazia a conta. E o Multibanco. E a prima Constantina. E o estacionamento do carro. A cómoda azul. O tapete persa. O relógio de corda. A leitura dos sete volumes de Proust. As circunstâncias. A vontade alheia. As intrigas. A maledicência. A inveja. A indiferença. O prazo de entrega da tese. As falsas teorias sobre a sexualidade dos poetas. O silêncio. A ausência. A rejeição. A distância quilométrica. A traição. O medo. A renúncia. 

Afinal, tudo se interpunha entre a Francisca e a consumação do seu amor.









Crianças 11

(Gaspar, de cinco anos)


- Aquela zona profunda da água, como era maravilhosa!... Eu adorei aquela zona profunda!... Aquela zona batipelágica...

- Gaspar (diz o pai), o mar tem muitas zonas. Nós aqui estamos na zona epipelágica. É a zona menos profunda. Depois existe a zona mesopelágica. Mais ou menos profunda. «Meso» quer dizer «meio». Depois tens uma zona mais profunda, a zona batipelágica, abaixo dos mil metros de profundidade.

- Ora (continua o Gaspar), naquela zona espidopelágica é que eu adorei estar!...

- Espidopelágica? (pergunto eu).

- Espumopelágica.

- Onde rebentam as ondas, a zona que está cheia de espuma?

- Não, essa é a zona espinhopelágica.

- Espinhopelágica?

- Não. Mebropelágica.

- Mebropelágica?

- Fedopelágica!

- O.K.!




Sobre a morte e a loucura

Sonho CLXXXV


Como aconteceu em tantos outros sonhos, a avó Edith afinal estava viva.

Porém, não habitava neste planeta.

Aliás, estava bastante aborrecida porque no planeta onde habitava não a tratavam como gostava.

Mostrava-me as pernas, ou melhor, as canelas, cobertas de uma pelagem branca que parecia uma barba.

«Oh!... Mas tu tens muito dinheiro!... Porque é que não te tratam como queres?...»

Ela explicava-me que nesse planeta o dinheiro não valia nada.

Por outro lado, a Francisca M. não conseguia deixar de pensar em Heinrich Hart, mesmo passados tantos anos.

A culpa era do Proust, que descrevera tão bem aquele estado obsessivo do amante rejeitado quando falara sobre o nome do amado que se repete como uma infinita frase mecânica na memória, causando um sofrimento extremamente difícil de suportar, mesmo para os mais fortes.

Infelizmente, a leitura desta acurada descrição havia reavivado na Francisca afectos de tal modo intensos que ela se convencera que tinha de fazer alguma coisa com urgência.

Para isso precisava de encontrar alguém que sofresse de uma psicopatologia semelhante e que a pudesse encorajar nos seus projectos.

Então, com o apoio de uma velha amiga, a Francisca decidiu inscrever-se num curso ministrado por Heinrich Hart, que se intitulava: «A consciência nas personagens da tragédia clássica grega.»

A Francisca estava em pulgas de curiosidade. Como discutiria ele a consciência de Fedra, Electra, Édipo, ou Tirésias?

«É claro que a consciência destas personagens devem ser os coros.» - pensava a Francisca. «Que empolgante será passar a pente fino todas as falas dos coros!... Que belo trabalho!... Ou não é a consciência sempre uma multidão? Uma multidão de vozes? E que seria de nós se nunca ninguém, desde o nascimento, tivesse alguma vez falado connosco? Seríamos conscientes

Claro que nas tragédias havia aquele peculiar desfazamento entre a consciência e a realidade. Ou a consciência chegava sob a forma de uma profecia absurda que era incompreensível, ou a consciência chegava sob a forma de um entendimento que era fatal. Inconscientes e felizes, como patetas alegres, ou lúcidos e mortos, como condenados, seriam as duas alternativas únicas para uma consciência trágica?

Embora soubesse antecipadamente que tinha de renunciar a projectos como este de se inscrever num curso para poder encontrar Heinrich Hart, a Francisca, por uns minutos, sentiu-se verdadeiramente feliz.

Mas sabia perfeitamente que quando chegasse a hora de estar a vê-lo o sofrimento seria tão atroz que nem uma migalha de pão poderia passar pela sua garganta apertada durante todo o dia e que não haveria outra saída senão fugir compulsivamente para poder chorar em qualquer lado a impossibilidade de realizar o único acto que lhe poderia trazer algum alívio - isto é, deitar-se com ele.

Gustave Moreau, Édipo e a Esfinge, óleo sobre tela, 1864, Metropolitan Museum of Art