Sobre o mar num dia de Verão

Sonho CXXXVII


Caminhava alegremente sobre as dunas de um areal selvagem quando me deparei com um mar que era espantoso, absolutamente espantoso.
 
Era um mar sem som.
 
Era verde e liso como a superfície de um espelho metálico, muito brilhante e homogéneo, quase irreal. 

Deslizavam nele ondas sem espuma que eram redondas e mais altas que três homens uns em cima dos outros.

Mas rolavam suavemente e sem qualquer ruído, como lentas ondas abstractas percorrendo um espaço celeste.
 
Ah!... Que mar!...
 
Nunca vira um mar assim!...
 
Despi-me e corri para dentro dele como se esses fossem os últimos segundos da minha vida.
 
Ao fundo, depois das primeiras linhas de ondas que rolavam suavemente, estava uma ampla plataforma flutuante onde os nadadores e as crianças podiam descansar, sem ter de regressar à praia.
 
Havia bolo indiano de camadas para comer e ainda litros de coca-cola cuja cafeína nos estava a deixar a todos eléctricos.
 
Eu deitava-me de barriga para baixo com os braços apoiados nos cotovelos e escrevia numa máquina antiga, com o teclado em degraus.
 
Era exactamente como se tivesse acordado de um sonho e escrevesse ainda deitado na cama.

 

Crianças 2


Vai um avião a voar e leva mil tijolos.
Cai um tijolo do avião.
Quantos tijolos ficam no avião?

999 tijolos?...

999 tijolos!… Acertou!…
Agora, imagine que um elefante cabe num frigorífico.
Como é que o mete lá dentro?

Em postas?

Como?!... Em postas?!...

Ora, um elefante é carne ou não é?... Corta-se em postas...

Nada disso. 
Se o elefante cabe dentro do frigorífico, você abre a porta do frigorífico e mete-o lá dentro.
Agora, imagine que uma girafa cabe dentro de um frigorífico.
Como é que a mete lá dentro?

Em postas?
Ou abre-se a porta, e mete-se lá dentro?

Mas estava lá dentro o elefante!…
Tira-se primeiro o elefante, e depois mete-se a girafa!…
O Rei Leão deu uma festa, quem não foi?

A girafa e o elefante?

Não. Só faltou a girafa.
O elefante já tinha saído do frigorífico.
Mas havia na selva um rio que costumava estar cheio de crocodilos.
Uma velha atravessou-o a nado, e não foi mordida.
Como é possível?

Era demasiado velha para que os crocodilos quisessem comê-la.
Era uma carne muito dura.

Não!!!… Os crocodilos estavam na festa do Rei Leão.
Mas a velha chegou à outra margem e morreu. Como?

...?

Ora essa, não adivinha?... Caiu-lhe um tijolo em cima da cabeça!


 

Sobre a renúncia da animação literária

Sonho CXXXVI

 
A Francisca M. assistia a um colóquio sobre Proust, que acompanhava com o maior interesse e excitação.
 
Um dos conferencistas decidira falar em particular sobre um dos seus episódios favoritos, esse em que Proust destrói espezinhando debaixo das solas dos sapatos o elegante chapéu alto do Senhor de Charlus.
 
Falava também um antigo professor que, apesar de uma inteligência desenvolta, tinha aquele hábito inextinguível de estabelecer relações sórdidas ou prosaicas (quase sempre insinuadas e raramente expressas) entre elementos que poderiam ser, se não elevados, pelo menos neutros.
 
A Francisca seguia avidamente todas as referências que ia registando ao longo dos seus sete volumes, com enorme satisfação.
 
Sabia por experiência que depois de uma tal partilha de ideias ao vivo os episódios de Em Busca do Tempo Perdido lhe ficariam para sempre gravados a fogo e ouro na memória, com cores mais fulgentes e ainda maior vivacidade do que se estivesse a ver um filme no cinema.
 
«Não é a mesma coisa quando nós as pessoas vivas não conversamos sobre os livros!...»
 
Razão pela qual ela e uma grande amiga falavam longamente sobre a grosseria do Duque de Guermantes ou sobre a maldade altiva mas nem por isso menos amarga da sua espirituosa esposa, ou ainda sobre a leviandade de Saint-Loup, como se fossem pessoas mais próximas do que os familiares ou amigos comuns.
 
A Francisca sabia que na solidão a memória é mais como um rio do que como um arquivo.
 
Tudo passa e tudo se esquece no leito de rocha que fica para sempre cravado na mesma eterna paisagem - essa tela parda e muito pouco interessante que as ideias conscientes, em conjunto com um incómodo e solitário «euzinho», se obstinam em compor.
 
Às duas por três a Francisca M. deu pela falta de um dos seus volumes, e ficou muito preocupada.
 
Para seu grande alívio, foi encontrá-lo no bengaleiro, onde alguém tinha tido a bondade de o devolver.
 
Estava neste colóquio um professor e conferencista que a Francisca não conseguia deixar de equiparar ao Barão de Charlus, quer pela sua impertinência e gosto pela provocação, quer pela inconstância do seu humor, quer ainda pela vaga misoginia e crueldade irreprimível com que não conseguia deixar de destratar os que considerava inferiores.
 
Era mais do que uma coincidência.
 
Porque sempre os livros atraem cada um uma fauna que os complementa e faz vibrar com as mais diversas ressonâncias, por vezes inesperadas, mas nunca aleatórias.
 
Porém, no que dizia respeito a Heinrich Hart, o resultado era ainda mais desastroso.
 
A Francisca não olhou uma única vez para Heinrich Hart, numa vã tentativa de se proteger.
 
É que esse homem tinha um tal poder de bruxo sobre si que bastava mirá-lo de relance para que ficasse enfeitiçada e começasse imediatamente a desejá-lo.
 
«Não tenho vocação para ser assim tão infeliz!...»
 
Pensava a pobre Francisca, a quem uma tal situação miserável apenas lembrava o suplício de Tântalo, que, por mais que se curvasse para beber a água que lhe dava pelo pescoço, nunca mataria a sua sede, e, por mais que estendesse as mãos para os frutos que rasavam a sua cabeça, nunca saciaria a sua fome.
 
Foi por isso que, apesar de toda aquela útil, pedagógica e excitantíssima animação literária, a Francisca decidiu pisgar-se em menos de um «Ai!...».
 
Não fosse ela afinal uma reverberação inversa de Swann ou de Marcel, e que, como idêntica opiómana do desejo, ainda que invertida pela reacção de fuga, ressoava por simpatia com esse dínamo poderoso da prosa proustiana.
 
 

Fragmento 156

O mundo sangra.

Sobre a psicopatologia da atracção amorosa

Sonho CXXXV
 
 
A Françoise M. ia de jeep com Joseph Blau, que em tempos lhe fizera a corte sem qualquer êxito.
 
Joseph Blau era um conhecido criador de cavalos e contava-lhe então o desgosto que tinha com a sua égua favorita, Lindsy Flau, um Puro Sangue Inglês, filha do garanhão mais bem sucedido da península ibérica.
 
Quisera lançá-la nos jogos de corridas e nas apostas, mas Lindsy Flau ficara sempre em último.
 
Quisera treiná-la para as provas de salto, mas Lindsy Flau tivera problemas nos cascos.
 
Por fim, quisera aproveitá-la para a escola de equitação, mas Lindsy Flau tornara-se rebelde, imprevisível e caprichosa.
 
Porém, Joseph Blau nunca desistira de Lindsy Flau.
 
Lindsy Flau era elegante, veloz, inteligente e talentosa, portanto, como poderia falhar sempre de um modo tão infalível?
 
Lindsy Flau não lhe correspondia de forma alguma, mas Joseph Blau continuava a fazer planos para a sua égua favorita.
 
Para a Françoise M., a quem nem rosas brancas, nem convites para tomar chá, nem cinema, haviam surtido qualquer espécie de efeito, foi a narração dos desaires com a égua que fez amolecer o coração de pedra.
 
Foi precisamente essa inesperada compaixão que sentiu por ele, e que lhe emprestou um encanto novo, que temperou com um vago romantismo aquela suave banalidade, foi precisamente essa repentina piedade que lhe suscitou o drama quase cómico dos desaires de Joseph Blau com a sua égua favorita, que a fez olhá-lo com novos olhos.
 
Joseph Blau não era a mesma pessoa para a Françoise, depois de uma tal descrição involuntária  a propósito da expectativa absurda que temos em seres que jamais nos compensarão pelo nosso amor e esperança, bondade, ou dedicação.
 
No fundo, sem que ela mesma se apercebesse, uma parte de si pensava, a um nível muito imperceptível: «Ah!... Afinal!... Joseph Blau é tão irracional como eu!...»
 
Era esta a constatação indetectável que lhe mudava a disposição.
 
E foi com volúpia e não apenas com simpatia que lhe estendeu e apertou a mão, por cima do travão de mão.
 
A psicopatologia da atracção amorosa é tão subtil e surreal que só mesmo um caçador de sonhos pode atrever-se a capturá-la.
 

Musette (para uma gata)

Fragmento 58


Piccola
Piccolina
Gaticha
Nháusicas
Bigodaças
Manchinha-Monstra
Algodãozinho
Nháucas
Nhinhúcos
Xuxú
Picuco
Ninuco
Picú
Tatuco
Picotim
Gáu
Gáu Gáu
Picau
Xi-nháu
Xi-nhá-nháu
Picutú
Fifi
Cucú
Lully
Titú
Lilú
Piquico
Piquinim
Piqui-cuco
Rôrônito
Rom-Rom...
(etc)