Sobre o que decidimos fazer numa situação limite

Sonho CCXXIX


Começara a guerra.
 
Em Aranjuez preparava-se um êxodo.
 
O que Françoise mais gostara em Aranjuez não fora o Palácio Real, nem a Casa del Labrador, mas os plátanos do jardim do palácio.
 
Eram plátanos muito antigos a quem ninguém cortara os ramos, como se faz habitualmente nas cidades; e os ramos rasavam o chão, numa expressão de volúpia.
 
A Françoise não sabia se havia de fugir de metro ou de carro.
 
Para onde?
 
Em direcção ao centro da Europa ou em direcção a Portugal?
 
Será que o velho Opel aguentaria a viagem?
 
Era preciso reunir mantas, mantimentos e garrafões de gasolina.
 
A sua avó que tinha morrido há tantos anos estava ali e a Françoise correu a abraçá-la.
 
- Queres ir comigo no meu carro?
 
Portugal, pela sua insignificância, era um destino mais seguro.
 
A Françoise aproximou-se do carro de Heinrich Hart e disse:
 
- Não parta sem mim.
 
- Não sou seu amigo nem seu pai, porque haveria de partir sem si?
 
A Françoise sorriu com um sorriso de circunstância, guardando os sentimentos no fundo de si como num cofre.
 
- Tem toda a razão. Porque haveria de partir sem mim? Se vir algum perigo, por amor de Deus, parta imediatamente. Mas se puder esperar, espere por mim que eu vou atrás do seu carro.
 
Fora apenas por causa de Heinrich Hart que a Françoise decidira arriscar a viagem de carro.
 
Mas isso nunca ninguém saberia. 
 
 

Sobre a culpa e a sobrevivência

Sonho CCXXVIII


Seguíamos por uma dessas estradas de montanha, íngremes e sinuosas, quando o meu companheiro foi arrebatado por um tigre.
 
Cobarde, desatei a fugir.
 
Mas talvez me sentisse melhor se tivesse morrido com ele.
 
Tudo o que vi foi um pedaço de tripa que vinha arrastada pela água da cisterna dos bombeiros, estrada abaixo, e que desapareceu numa sarjeta.
 
Agradeci ao realizador do sonho que não tivesse mostrado mais.
 
Ver apenas aquela parte do corpo foi suficiente para que ficasse morto por dentro.
 

Sobre a culpa indirecta ou a causalidade excêntrica

Sonho CCXXXI


 
A Maria do Mar queria realizar um pedido de desculpas, mas era muito difícil.
 
Os seus maiores defeitos de carácter eram o orgulho e a teimosia.

Quando era criança, a ideia de pedir desculpa era equivalente à ideia de lhe arrancarem a língua.
 
Com a agravante de que a pessoa a quem queria pedir desculpa estava muito zangada e sem disposição para perdoar.
 
Essa pessoa deu-lhe a seguinte notícia:
 
- Houve um homem que roubou o teu carro, teve um acidente - e morreu.
 
A Maria do Mar desatou a chorar.
 
Sentia-se culpada porque alguém que tinha roubado o seu carro tivera um acidente - e morrera.
 


Sobre a frequente incompatibilidade entre o desejo, as inclinações e o tempo

Sonho CCXXXI


Primeiro fora ele que, tomado por uma espécie de pudor por causa da diferença de idades, se coibira de avançar.
 
Depois fora ela que, por causa de uma mistura entre humildade e insegurança, não se achara digna de um homem tão admirável.
 
Um dia, a Françoise caiu aos seus pés e, abraçando-lhe os joelhos, exclamou:
 
- Sou inteiramente sua. Quer casar comigo?
 
Nesse dia ficou a saber que Heinrich Hart já há muito que casara.




Ingmar Bergman, O Sétimo Selo




 
 
 
A CARTA DE UM ESPÍRITO SINGULAR
 
 

Sobre a relação entre o amor e o silêncio

Sonho CCXXX


Finalmente, a Françoise M. conseguira cruzar-se com o grande amor da sua vida.
 
Que alegria, estarem sentados um diante do outro!...
 
Mas a Françoise sentia uma terrível timidez e por causa disso estava completamente paralisada e sem ideias para dizer coisa nenhuma.
 
Tantos anos se tinham passado, e não fazia diferença nenhuma.
 
- Sabe, - dizia ele - você fala demais. Você é uma tagarela.
 
- Pois, - retorquia a Françoise - a culpa é sua. Se eu estivesse consigo já não falaria assim tanto.