F. de Riverday I

Fragmento 176


Quando dava um passeio à beira-mar, a F. de Riverday viu uma menina passar de mão dada com o pai, e o seu coração apertou-se.
 
Como gostaria alguma vez de ter dado a mão ao seu pai!...
 
E aqueles dois faziam-no com naturalidade, como se esse fosse um gesto simples e tranquilo... 
 
A menina tinha um ar confiante e altivo, cheio de si e  ao mesmo tempo inexpugnável.
 
Que força não teria ela, protegida por um tal gesto de carinho e pelo homem mais importante da sua vida de menina?
 
F. de Riverday só muito raramente se permitia sentir essa tristeza em relação a seu pai.
 
Que nunca lhe tivesse telefonado, nunca tivesse festejado consigo nenhuma conquista, nunca lhe tivesse dado um abraço. Que nunca lhe tivesse dito: «Muito bem!...»
 
Quando um «nunca» é realmente nunca, um nunca verdadeiro, real, imenso e impossível de sentir, a percepção humana resvala para o domínio do insensível, que é também o do insuportável.
 
A humanidade tem estratégias incríveis para lidar com a dor.
 
A insensibilidade. O esquecimento. A invisão.
 
A F. de Riverday só uma vez em dez anos lhe caíra uma lágrima - uma única lágrima, de facto - uma lágrima ácida e efervescente que ameaçara sulcar-lhe o rosto e dividi-lo em dois, de tão ardente e dolorosa que era.
 
«Se não fossem vocês, eu era rico. Se não fossem vocês, eu tinha um Ferrari.» - era o que lhes dizia o pai.
 
E no entanto, era um homem agradável.
 
Cordial em público, distinto, elegante, frio como uma pedra com ela, F. de Riverday, mas gentil com o seu irmão, com a sua mulher e os seus pais e sempre cumpridor, polido e educado.
 
Na verdade, uma tal condição treinara-a numa arte infeliz - a de ser capaz de amar a indiferença.
 
Talvez porque assim preservasse a sua quota parte do amor.
 
Preferível a esse vazio abismal e tremendo que é o de nem amar nem ser amado, pelo menos guardava um pouco dessa doçura, desse calor e dessa esperança ao treinar-se nessa esquisita forma de amar que é mais parecida com uma arte de desfiar conversas meramente sonoras diante de um surdo.
 
Sempre e de um modo fatal ela procurava reencenar esse deserto, essa aridez e a desolação de um amor teimoso e infecundo, enviando cartas sem resposta, dedicando a alma a casos insanáveis, ou amando ainda outra espécie de indiferentes, como Orlando I.
 
Porquê?
 
Porque assim era como se dissesse à vida: «Desta vez, vida, conquistei-te»?
 
Não há dúvida.
 
A nossa alma segue desígnios incompossíveis.