A pele

Fragmento 164


A pele não é só um espaço.

Um corpo não é só matéria.

Pelo fogo que se ateia nas mãos cada milímetro de pele passa a ser uma estepe, um oceano, um continente.

Um corpo é terra e mar e vazio cósmico, buraco negro.

Cada sensação é um rasto.

Há bandos de pássaros que voam, caravanas que marcham em linha pelos desertos, vagões pesados que de súbito entram em marcha.

Viajamos por estas súbitas explosões de movimento e de sombra.

É pela pele que passamos à morte.

E é por ela que habitamos a eternidade.

Como centelhas.

Sobre um encontro impossível

Sonho LXXV


A Francisca M. foi entregar um trabalho no Palácio de Buckingham e estava lá um gatinho branco e felpudo, com um laço cor-de-rosa.

«Mas que raio!...» 

De uma porta saiu Heinrich Hart, bastante mais velho e sobretudo um pouco mais gordo, o que era muito estranho.

O coração da Francisca M. batia com muita força, como sempre tinha batido, quase ao ponto de a fazer desmaiar, mas ela aguentava-se o melhor que podia.

Afinal, não fazia diferença nenhuma que ele estivesse mais velho ou mais gordo, a emoção era a mesma.

Heinrich Hart porém não a reconhecia e olhava-a com os seus olhos indiferentes e inexpressivos, um pouco críticos, e bastante frios.

Com imensa coragem, a Francisca M. decidiu aproximar-se e disse:
 
«Olá, não se lembra de mim?... Sou a Francisca!...»

Hart ainda demorou algum tempo a reconhecê-la, olhando-a com aqueles olhos indiferentes e frios.

Por fim, estremeceu com uma espécie de choque involuntário, quase invisível.

Mas Hart disse apenas «Olá e «Adeus.» e foi-se embora.

A Francisca partiu cabisbaixa, tentando o melhor possível conformar-se com essa dolorosa resignação.

«A realidade é realmente terrível!...» Pensava a Francisca. «Como querem que lide com a realidade?...»

De súbito, Hart pareceu mudar de ideias e veio atrás da Francisca a correr.

O problema era que eles se moviam em andares diferentes do mesmo edifício, Hart no andar superior e Francisca no andar inferior.  

Hart afinal correra num plano separado da Francisca.

Talvez quisessem encontrar-se (ou talvez fosse mais realista exprimir desta forma apenas o desejo de Francisca, no singular), mas não conseguiam sequer cruzar-se um com o outro.

Os dois planos em que se moviam não se interceptavam.

Cactus Opuntia

Fragmento 12



Cactus Opuntia é o nome destas plantas que estão à beira mar no caminho de São Pedro e que quero fotografar escrevendo-lhes poemas de amor.

Elas crescem sem ramos, em glóbulos que nascem de outros glóbulos, como esferas elípticas que vêm de outras esferas elípticas, com uma intensidade desarmante, que me comove.

Como podem existir estas formas vivas, e que Deus é que existe, afinal, nesta força que congrega a matéria veloz e aleatória em corpos?

Fico a olhar, a olhar, a olhar.

Talvez não exista mesmo nada que as descreva.

Mas num outro passeio sou surpreendida com uma alegria ainda mais intensa, totalmente inesperada.

Os grandes cactos mais altos que eu e que são de uma quase brutalidade escultórica, com as gigantescas massas verdes lisas e ovais, nascendo umas das outras, afinal os grandes cactos verdes e minimais estão em flor.

Atravessadas pela luz podem ver-se de súbito as pequenas e inesperadas folhas recém-nascidas das flores que imprevisivelmente florescem em pétalas luminosas nas suas auréolas circulantes.

Nunca, nunca, mas mesmo nunca imaginei que estes ovos verdes espalmados, tão primitivos e quase brutais, dessem flor...

A infinita delicadeza das pétalas, diáfanas sob a luz e que com o seu rosa e amarelo ali florescem, põe nesta brutalidade, nesta espécie de simplicidade minimal e nesta força original qualquer outra coisa...

Não sei o quê. Um inesperado...

Um inesperado que de súbito me abana até à raiz, como uma nova aprendizagem.
 

Sobre o futuro

Sonho LXXX
 
 
O planeta Terra estava realmente muito diferente.

As casas que estavam à superfície da Terra encontravam-se unidas umas às outras, não apenas por estradas, mas também por canais subterrâneos que as ligavam a centros comerciais com vários andares acomodados debaixo da terra.

A Maria do Mar enveredava por um desses canais e entrava numa ampla galeria praticamente deserta, toda forrada de mosaicos coloridos e brilhantes e com tectos abobadados e suspensos de colunas coloridas, semelhantes às dos antigos palácios egípcios.

«Mas que giro que isto é!...» Pensava ela.

Era de madrugada e como não havia quase ninguém a Maria do Mar sentia-se realmente corajosa por ser capaz de andar por ali em explorações, sozinha.

Não queria comer, naquele momento, mas havia comida deliciosa espalhada por todo o lado e era difícil resistir. Bolos, suspiros, morangos, chantilly, gelados, pão-de-ló, framboesas...

Ela passava por todas essas coisas o mais depressa que conseguia e com água na boca, mas sem provar nada, e acabava por se encontrar num corredor muito estreito, cheio de gente e onde quase não havia espaço para passar.

Um dos homens que estava à sua frente, muito agressivo, decidia então voltar para trás sem querer saber de ninguém.

Empurrava um carrinho de compras de metal e como a Maria do Mar não conseguiu desviar-se, o homem passou por cima dela com o carrinho, apesar dos seus gritos e das suas súplicas.

Aquele homem era seu tio e era conhecido pelos da sua família como um homem tacanho e excepcionalmente insensível, mas ninguém se atrevia a confessá-lo publicamente.

No seu trabalho como professor universitário era apenas conhecido como um homem cordial e simpático, ainda que pedante e um pouco estúpido, mas em casa estava sempre a chamar «burra» à sua inteligente mulher e também à filha mais nova que um dia obrigou a acordar de repente, lançando-lhe uma prateleira de livros sobre a cabeça.

Portanto, nada mais natural que esse homem, encontrando-se em apuros com o sufoco em que estava, tivesse atropelado a Maria do Mar com o carrinho das compras.

Esta, mal conseguiu salvar-se do inusitado tormento, deu imediatamente de caras com uma senhora muito simpática que pretendia explicar-lhe como a sua cunhada estava «infectada».

«Mas infectada com o quê?...»

A verdade é que quando a cumprimentavam ela dava um choque como um aparelho eléctrico em curto-circuito.

«Meu Deus!...» Pensava a Maria. «Famílias!...»

E fugia dali, correndo.

Quando chegou à superfície, verificou que estava a decorrer um ataque massivo de animais à humanidade por causa das atrocidades praticadas contra eles ao longo dos séculos.

«Muito bem.» Pensava ela. «Já era tempo de se fazer alguma justiça.»

Um grupo de vacas, de bezerros e de touros atacava toureiros com forquilhas, para ver se eles gostavam da brincadeira.

Adiante, um homem gordo e atarracado fugia montado nas duas cabeças de dois cães.

A Maria do Mar podia ver de costas o seu rabo gordo a saltitar em cima das cabeças dos dois cães, para cima e para baixo, em grande velocidade e aos ziguezagues.
 

Crianças 3

(Rodrigo, de seis anos.)



-Professora, posso ficar a ver a aula da Maria?... Por favor! Vá lá!...

-É melhor ires brincar e apanhar sol. Tu precisas de brincar. Tens bicho carpinteiro.

- Professorinha!... Eu fico sossegado como um pato!...

- Como um pato?...

- Ah... Bem... Como uma pata...

A tomar conta dos seus ovinhos!

(Sorriso rasgado.)



Sobre a compaixão

Sonho XCI
 
 
Tinha nas mãos uns papéis do Professor José Gil, com uma primeira crítica ao meu trabalho.
 
Aí podia encontrar uma listagem dos pontos fracos e ainda, para meu grande contentamento, uma selecção de «nacos».
 
Os nacos eram as partes melhores, realmente inspiradas, desse trabalho que tinha realizado.
 
Surpreendentemente, também aparecia aí um comentário ao Artur Borboleta, que dizia:
 
«Ser um felino de olhos radiantes na escuridão não era suficiente para ele. Nada era suficiente para ele. Suficientemente liso, para que a fluidez fosse perfeita. Menos que isso não era suficiente.»
 
Uma matéria que permita acelerar sem obstáculos, um plano de velocidade por onde os fluxos mais intensos possam passar, um corpo em que as articulações não quebrem nem cedam, mesmo quando lançado dos píncaros.
 
E isto fazia-me pensar nos comentários de Deleuze sobre a matéria fluída de Kant, na Crítica da Faculdade de Julgar.
 
Tirava então os olhos dos papéis que tinha nas mãos e via a casa de Artur B., de cima, como se olhasse para um mapa, mas ao vivo.
 
A decoração tinha alguma daquela que julgo ser a sua vivacidade e infantilidade.
 
Havia um urso enorme, cor-de-laranja, colocado num canto.
 
Os sofás eram roxos e vermelhos, e havia, no chão, um tapete lilás.
 
Era tudo muito arrojado, completamente inusitado.
 
«Mas porque é que Artur B. tem este gosto?» - pensava eu. 
 
Artur B. com os olhos muito claros e ainda sem se ver neles o reflexo de um qualquer juízo crítico, uns olhos imensos por onde parecia que ia um universo inteiro ou uma nebulosa, como os olhos de certas crianças sonhadoras.
 
Íamos todos num mesmo carro - eu, Artur B., a Francisca M. e F. de Riverday - quando vimos uma mulher a dançar, sozinha no passeio.
 
Imediatamente lhe achei graça, pela sua liberdade e displicência, pela sua alegre independência.
 
Porém, um pouco adiante, ela cambaleava tanto que não conseguia acertar com o corpo no buraco da porta.
 
Como se fosse ao mesmo tempo muito leve e muito pesada dava corridas inclinadas como se uma gravidade diferente a subjugasse e era em vão que tentava agarrar-se às paredes ou às maçanetas das portas.
 
Tentando entrar com o corpo no buraco da porta dava em vez disso com o corpo na parede, sucessivas vezes, até cair.
 
«Ah!...» Pensava eu. «Está completamente bêbada!...»
 
Aquele estado de vulnerabilidade e loucura era, ao mesmo tempo, patético, trágico e cómico.
 
«Que raio de humanidade esta, que anda aos tombos...»
 
Porque eu sentia pena e ao mesmo tempo uma enorme simpatia por aquela mulher que primeiro dançava, e depois caía.