Três índios

Sonho CLVIII
 
 
Era de noite e F. de Riverday estava num cais de madeira, encolhida num canto de cócoras.

Apareceram três índios. Um rapaz, um homem e um velho.

F. de Riverday perguntou ao pequeno rapaz:
 
«Tu és um índio, certo?»
 
O rapaz tinha o corpo brilhante como bronze e usava uma tanga de pele sobre os órgãos genitais e um colar de sementes ovais ao pescoço.
 
Mas o rapaz ainda não tinha aprendido a ser um índio. Era por natureza irreverente.
 
«Ele não leva nada a sério.» Queixou-se o homem que também era o seu mestre.
 
«Olha bem para os seus olhos. Os olhos são puros quando riem. São sem malícia. Eu, pelo contrário, sou mau. Olha bem para este traço aqui, na minha pele, sobre as sobrancelhas. Foi vincado e cozido no ressentimento. Sou um índio dentro das regras dos índios. E consigo ser muito mau.»
 
Enquanto isto, o índio mais velho, de cócoras, recolhia peixes que tirava do rio para dentro de um cesto e fazia-o como se fosse um urso, com a mão.

«Que escuro que está.» - observou a Riverday - «Como é que ele consegue pescar tão depressa?»

«O rio tem mais peixes que água.» - respondeu o mestre, com um sorriso.

E, para se despedir, abriu-lhe os braços para lhe dar um abraço de igual para igual.

Aquele cumprimento índio consistia em encher os pulmões até ao limite do ar, encostar o peito ao outro peito e apertar os troncos com força ao mesmo tempo que todo o ar saía.

As maminhas de F. de Riverday doeram com o impacto, de tal modo que ela se perguntou se aquele seria um cumprimento exclusivo apenas dos homens.

Uma onda de calor intenso alastrou por todo o seu corpo ao mesmo tempo que a Riverday sentia que aquele ar lhe fora insuflado.

«Que abraço, meu Deus.»

E os três índios desapareceram com os cestos carregados de peixe.


Quartos Alugados, de Alexandre Andrade

Fragmento 177
 
 
Um grande escritor escreve quase sempre para daí a um século. Ele lança uma seta que será apanhada daí a muitas décadas, provavelmente por um outro escritor que a lançará de novo, e assim sucessivamente. A ideia não é minha, é de Deleuze, mas traduz uma circunstância real que está no âmago da nossa dificuldade em julgar um contemporâneo. E não apenas porque qualquer coisa de novo que se produza agora, no presente, tenha a virtude de passar invisível, porque é uma novidade. Não penso que o principal critério para julgar arte seja a novidade, até porque essa novidade, precisamente, é inescapável em qualquer produção original. É neste ponto que me separo do escopo geral da ideia em Deleuze. O juízo da posteridade só se verificará quando estivermos todos mortos, e a ideia não é simpática, nem para os egotistas, nem para os caçadores de fama, é um facto. Mas a ideia também não deixa de ser delirante e divertida para uma certa espécie de humoristas (rara, e geralmente incompreendida) que primam por não se renderem a nenhuma teoria definitiva sobre o sentido da sua própria vida.

Superado o pedido de benevolência, falemos de Alexandre Andrade.
 
Existem quatro coisas que o distinguem. Um português puríssimo que não se rende a uma tentação grosseira de inovar por inovar, ou de ser diferente por ser diferente. Uma cultura real e assombrosa, que não deriva da vaidade, mas de uma viva curiosidade e de uma atenção vital às coisas humanas. Um humor que está para além do irreverente e que funciona como uma máquina de desmontar lugares-comuns (como uma máquina de abstracção, portanto). Uma percepção subtil.
 
Lembro-me, há duas décadas atrás, de um minúsculo pormenor num romance dactilografado do Alexandre, que me acompanhou toda a vida. Alguém (não sei se Vera), tinha o hábito de colocar um fio de cabelo entre o puxador e a ombreira da porta, para garantir que a sua intimidade não teria sido violada.
 
Não sei exactamente porque cito este pormenor. Talvez porque nele se condensa o mesmo tipo de surpresa e a mesma dimensão de subtileza que encontro em frases como: «Péricles deixou-se ir, imaginando que regressava a uma cidade repleta de enigmas mas nunca cruel o suficiente para sonegar as soluções desses enigmas àquele que se dispusesse a encontrá-las, munido apenas das suas mãos nuas, do seu engenho humano, do seu corpo vertical estremecido muito ao de leve pela pulsação.»
 
Está no limite do sensível, sim, mas somos «corpos verticais» estremecidos «muito ao de leve pela pulsação.» E é verdade que a respiração dos outros (e a nossa) marca a passagem do tempo «como um metrónomo».
 
Nas séries de quartos alugados que desfilam ao longo dos contos que compõem o livro, muita gente, com nomes incompossíveis (Péricles, Mónica, Ágata, Renato, Inge, Ole...), e em geral nómadas (estudantes, gente tão fora das sua terra que chega a alugar quartos em cidades imaginárias, donos de nada, desocupados ou entre um estado e outro estado, ainda por definir), uma gente a quem o Alexandre dedica uma atenção vital, compassiva, rigorosa, amorosa, por vezes satírica, esta gente compõe uma pluralidade alegre da qual se destaca uma certeza luminosa e arejada - a de que uma pessoa estará sempre para além de uma descrição.
 
A máquina do humor que serve, a meu ver, este propósito, é complexa e daria pano para mangas desmontá-la. Há sempre uma viragem, uma curva irreverente em cada um dos contos, que lança no ar esta certeza como um foguetão. Pode ser a figura oculta e enigmática de uma Mónica a desvendar por um detective improvisado, uma Mónica que de súbito entra no apartamento do próprio detective e que desfia em alíneas, e na primeira pessoa, todos os seus mistérios, ou pode ser a destinatária de uma extravagante declaração de amor («O Ramo Dourado», de Fraser, copiado à mão pelo amado) que passa abruptamente de uma hipótese de explicação transcendente para uma lista trivial das preocupações quotidianas, como o estado da canalização ou da rede eléctrica do apartamento.
 
As passagens são sempre incrivelmente rápidas, abruptas, mas paradoxalmente naturais.
 
Em suma, respira-se.

Sobre os mundos paralelos

Sonho CLVII
 
 
Durante vinte e quatro horas, viajava entre mundos paralelos.
 
Em todos eles, porém, eu era o mesmo rapazito de doze anos, pequeno e franzino, de cabelos castanhos.
 
No primeiro mundo paralelo, vivíamos em submarinos blindados e estávamos sob o fogo de um conflito intergaláctico entre populações extraterrestres.
 
As nossas casas eram incrivelmente funcionais e assépticas.
 
Os quartos eram totalmente lisos e despidos, iluminados com uma luz glauca e rarefeita que fazia brilhar suavemente o chão cor de cinza e as paredes esmaltadas de branco.
 
Todos os móveis e mesmo as camas e as cadeiras estavam embutidos nas paredes lisíssimas e só saíam quando se carregava num botão.
 
Não se ouvia nenhum ruído que viesse do mundo lá fora, nem havia janelas que permitissem ver qualquer paisagem.
 
Tudo branco, excepto, debaixo dos pés, o chão em cinza.
 
E neste mundo eu era tão infeliz como na minha adolescência verdadeira.
 
No segundo mundo paralelo, contudo, eu e a minha irmã éramos os filhos de um eminente general e, apesar de vivermos em submarinos, já se podia sair.
 
Além disso, não estávamos em guerra e víamos o exterior através de pequenas vigias.
 
Ao longe, desfilava uma parada militar composta por naves ultra-sónicas que pareciam arranha-céus e que brilhavam ao lusco-fusco do fim de tarde com muitas luzes coloridas dispostas ao longo dos vários andares.
 
Neste mundo, eu passeava sozinho numa cidade ruidosa e queria testemunhar um ritual sangrento que decorria num palco rodeado de borracha negra onde se movimentava um grupo de homens encapuçados de vermelho.
 
Os capuzes eram altíssimos, do tamanho de uma criança de pé.
 
Talvez fossem devorar animais vivos ou fazer qualquer coisa de inimaginável e terrível, mas, quando me viram, correram comigo à paulada porque eu não pertencia àquele grupo.
 
Por fim, no terceiro mundo paralelo eu era um pássaro muito pequeno, talvez um pardal.
 
Mas continuava a ter uma alma de rapaz.
 
Havia um homem sedutor, insinuante e manhoso que me queria conquistar, só que eu fugia para dentro de uma caixa de correio.
 
Ficava muito amachucado, mas a minha irmã salvava-me escondendo-me dentro das suas pequenas mãos.
 
Num outro mundo, não sei se o quarto, se o antepenúltimo, se o primeiríssimo de todos, o que eu tentava fazer era reabilitar um velho Mini que tinha sido nosso há trinta e seis anos.
 
Arrependia-me, porém.
 
O velho Mini tinha lá dentro dois objectos de duas pessoas que me tinham morrido, uma bolsa de praia da minha avó, e uma calçadeira tricolor do meu avô.
 
Eu não sabia o que sentia, com aquelas duas coisas nas minhas mãos.
 
«Já viu?» Dizia eu para o mecânico que tentava reabilitar o velho Mini. «Isto serve para calçar os sapatos.»
 
Tinha sido uma péssima ideia, reabilitar o velho Mini.
 
Se acelerássemos a cento e quarenta debaixo de chuva batida o velho Mini parecia desconjuntar-se em mil bocados. 

F. de Riverday I

Fragmento 176


Quando dava um passeio à beira-mar, a F. de Riverday viu uma menina passar de mão dada com o pai, e o seu coração apertou-se.
 
Como gostaria alguma vez de ter dado a mão ao seu pai!...
 
E aqueles dois faziam-no com naturalidade, como se esse fosse um gesto simples e tranquilo... 
 
A menina tinha um ar confiante e altivo, cheio de si e  ao mesmo tempo inexpugnável.
 
Que força não teria ela, protegida por um tal gesto de carinho e pelo homem mais importante da sua vida de menina?
 
F. de Riverday só muito raramente se permitia sentir essa tristeza em relação a seu pai.
 
Que nunca lhe tivesse telefonado, nunca tivesse festejado consigo nenhuma conquista, nunca lhe tivesse dado um abraço. Que nunca lhe tivesse dito: «Muito bem!...»
 
Quando um «nunca» é realmente nunca, um nunca verdadeiro, real, imenso e impossível de sentir, a percepção humana resvala para o domínio do insensível, que é também o do insuportável.
 
A humanidade tem estratégias incríveis para lidar com a dor.
 
A insensibilidade. O esquecimento. A invisão.
 
A F. de Riverday só uma vez em dez anos lhe caíra uma lágrima - uma única lágrima, de facto - uma lágrima ácida e efervescente que ameaçara sulcar-lhe o rosto e dividi-lo em dois, de tão ardente e dolorosa que era.
 
«Se não fossem vocês, eu era rico. Se não fossem vocês, eu tinha um Ferrari.» - era o que lhes dizia o pai.
 
E no entanto, era um homem agradável.
 
Cordial em público, distinto, elegante, frio como uma pedra com ela, F. de Riverday, mas gentil com o seu irmão, com a sua mulher e os seus pais e sempre cumpridor, polido e educado.
 
Na verdade, uma tal condição treinara-a numa arte infeliz - a de ser capaz de amar a indiferença.
 
Talvez porque assim preservasse a sua quota parte do amor.
 
Preferível a esse vazio abismal e tremendo que é o de nem amar nem ser amado, pelo menos guardava um pouco dessa doçura, desse calor e dessa esperança ao treinar-se nessa esquisita forma de amar que é mais parecida com uma arte de desfiar conversas meramente sonoras diante de um surdo.
 
Sempre e de um modo fatal ela procurava reencenar esse deserto, essa aridez e a desolação de um amor teimoso e infecundo, enviando cartas sem resposta, dedicando a alma a casos insanáveis, ou amando ainda outra espécie de indiferentes, como Orlando I.
 
Porquê?
 
Porque assim era como se dissesse à vida: «Desta vez, vida, conquistei-te»?
 
Não há dúvida.
 
A nossa alma segue desígnios incompossíveis.

Sobre uma fotografia falhada

Sonho CLVI


Com o objectivo de tirar uma fotografia genial, a Maria do Mar decidira fazer uma viagem de barco.
Levara consigo uma amiga dedicada, uma aliada imprescindível - a Mariana Silk.
Jenny Stuart, uma tia inglesa que apreciava a forma elegante como a Maria do Mar se vestia, dissera, com preocupação e sem maldade, de uma amiga que ambas tinham em comum:
«Ela precisa de aprender a vestir-se... Precisa de saber pentear-se... Precisa de aprender a assinar o seu nome... Não concordas?...»

Jenny Stuart fora aquela que certa noite, muito bêbada, decidira beijar a sua rã de estimação. A inocente rã, porém, mal sentiu o beijinho de Jenny Stuart, deu-lhe uma dentada no lábio inferior e não mais a largou, de modo que a Jenny Stuart teve de dirigir-se ao hospital de Cascais a meio da noite para ser salva de uma rã demasiado amável no serviço de urgências.
Era de noite. Do rio por onde navegava o barco via-se a cozinha envidraçada de uma casa luxuosa onde se dava uma grande festa, iluminada por dentro.
Aí, um grupo de criados fardados a rigor comia apressadamente numa mesa apertada, muito encostados uns aos outros.
«Pensavam que isto já não existia, mas ainda existe.»
«Isto» era a extrema desigualdade entre as classes sociais, degradante para todos os implicados, sem excepção.
Mas a Maria do Mar encontrava finalmente a sua fotografia genial, no interior do barco.
Era uma pequeníssima e redonda mancha vermelha, levemente desfocada, ao lado de um pionés azul claro.
«A minha máquina!...» - gritava ela para a sua amiga, a Mariana Silk.
O barco estava agora em alto mar e balançava debaixo de uma forte tempestade marítima.
Quando a Mariana Silk abriu a porta do camarote onde se encontrava a máquina, todo o conteúdo do camarote se precipitou pela porta e foi deslizando em alta velocidade pelo convés até cair no mar.
A Maria do Mar temeu pela sua amiga mas foi encontrá-la mais adiante, sentada e muito sossegada, entretida com uma tarefa que a fazia olhar para as mãos.
«Meu Deus... Tenho de me deitar.»
Estendeu-se ao lado da sua amiga enquanto se masturbava discretamente por cima das roupas, e depois reclinou-se.

Frases que nos viajam

Fragmento 175


Uma pequena notícia, hoje:
 
«A sonda New Horizons descobriu a existência de céus azuis em Plutão e água gelada na superfície do planeta-anão. A água gelada só é visível nalgumas regiões do planeta-anão - grande parte da superfície de Plutão não mostra gelo de água exposto. Noutras áreas, a água gelada "estará coberta por outros gelos mais voláteis", explicou o cientista Jason Cook. "Perceber porque é que a água aparece onde aparece, e não noutro lugar, é um desafio que estamos a começar a enfrentar".»
 
É incrível o que uma expressão como «outros gelos mais voláteis» nos pode fazer.

 
GELO DE ÁGUA EXPOSTO
 
ÁGUA GELADA
 
OUTROS GELOS MAIS VOLÁTEIS
 
...
 

Não se trata apenas da sensação que se produz quando tentamos imaginar um «gelo volátil», quando a única forma volátil terrestre que conhecemos da água se experimenta sob a forma de um gaz. «Gelos mais voláteis» catapulta-nos para um outro plano da existência física, uma em que os corpos sólidos e gelados se volatilizem.
 
Coloco no entanto a hipótese de que o termo «volátil» não esteja empregue na forma literal, mas na forma metafórica, no sentido de «passageiro».
 
Segundo esta hipótese, a viagem não se produziria. Gelos mais passageiros são só esses que se derretem mais depressa, e isso não é difícil de imaginar.
 
Havia também na notícia a referência à atmosfera de Plutão, com um aspecto de «fuligem», fuligens avermelhadas e azuis, compostas por «polinas». E como esta palavra - «polinas» - nos é inteiramente desconhecida, é toda uma estrada que se desvela, como um imenso corredor atrás de uma cortina, como um palácio fascinante e composto de desmesuradas alas incógnitas.
 
Todo o desejo se acende nesta viagem imóvel.
 
Há ainda a recordação de ligeirezas e ventos que se comunica nos sons semelhantes das duas palavras justapostas - «gelos» / «voláteis» -, nos ésses, nos vês, nos éles, nos gês e nos ês, e que nos faz dançar como bruxos ou feiticeiros, em colunas de gaz e de euforia. Há ainda a imagem viva da transparência do gelo e da água e a franja de velocidade que se abre em «outros». «Outros gelos».
 
Viajamos porventura porque o cientista escreveu mal, ou porque lemos mal.
 
Que interessa?
 
A viagem entretanto aconteceu. 


Técnica de espoliação

Fragmento 174


Há pessoas que não fazem a mínima ideia do que possa ser ter uma opinião favorável a respeito de si mesmas.

Habituaram-se desde muito cedo a colocar tudo em causa, começando por si próprias. Estiveram muito perto da loucura, ou passaram por lá. Nunca tiveram grandes atenções. Também não sabem muito bem o que é o amor, ainda que não desistam de o imaginar. Desconfiam em geral de si mesmas, muito mais do que dos outros, mas também desconfiam dos outros. E em crianças, é possível que os pais ou figuras tutelares fossem cruéis, indiferentes ou demasiado exigentes.
 
Estas pessoas, se lhes disserem que em geral as pessoas tendem a ter uma opinião «demasiado favorável» a respeito de si mesmas, podem por momentos convencer-se que a sua habitual opinião desfavorável, ainda assim, é qualquer coisa de favorável ou mesmo - demasiado favorável.
 
Técnica de espoliação de um miserável - eis no que consiste esta (auto) manipulação.

E o resultado é nulo.

Liberdade de voto

Fragmento 173
 
 
Em 25 de Abril de 2015, a democracia portuguesa, tal como a conhecemos, fará quarenta e um anos.

Como é possível que, volvido quase meio século sobre uma tal conquista, seja a abstenção quem vence por maioria as últimas eleições?
 
Quer queiramos quer não, este é um dos grandes espectros que nos assombram.
 
Mas será que uma democracia que durante quarenta anos fez dançar as cadeiras da assembleia entre dois partidos é uma democracia em cuja salubridade e maturidade possamos - e devamos - confiar?

Não podemos impedir-nos de observar como a relação do conjunto das pessoas portuguesas (vulgo - povo) com aqueles que as governam se assemelha à daqueles «casos amorosos» em que um dos cônjuges, apesar de séria ou subtilmente maltratado pelo outro, fica paralisado na acção pela mistura explosiva de dois afectos poderosos - a dependência e o medo.
 
A quem pertence uma grande parte da responsabilidade colectiva pelo estado do país após mais de trinta anos de governo às mãos de dois grandes partidos, senão  a esses mesmos partidos?
 
Eis o famoso sermão do medo, a vozinha trémula que habita o fundo de todas as almas: «Um salto no escuro... é sempre um salto no escuro...»
 
Mas eu gostava de citar a Maria do Mar, quando ela escreve:


Mais vale um dia sermos
a falha desastrosa
de uma aventura excessiva e perigosa,
do que sermos o menos
de tudo o mais que pudéramos ser.

 
Não deixa de ser um facto. Teremos sempre um futuro na medida da nossa coragem.