Do alto de outra esfera nos lançamos

Fragmento 63
 

Há quem pense: do alto de outra esfera
nos lançamos, breves corpos humanos,
do turbilhão veloz, para esta terra,
e num lance de sorte, aqui singramos.

Estranho tabuleiro de espaço-tempo
aqui onde se joga a chance única
da vida que se arranca ao infinito.
Estranho amor sem nome que nos cruzou
e que me fez nascer em ti, no tempo.

É lá nesse plano do infinito
que estamos abraçados para sempre -
os que só podem nascer uns dos outros.

Pois aí já não há violência ou dor,
nem palavras erradas, nem o caos
com que aqui se vê calar o amor.


Sobre casais trágicos

Sonho LXXIV

A Maria do Mar estava muito feliz porque podia de novo abraçar o Diogo.

Na verdade, continuava a achar-lhe muita graça, por causa do corpo magricelas e desengonçado, que fazia lembrar o Lucky Luke, os caracóis negros e longos que lhe davam um ar meio esgrouviado e aquele semblante de cavaleiro medieval, o ar de adolescente irreverente e as unhas roídas.

Porém, a situação não era, na verdade, nada agradável, a despeito das suas primeiras impressões, porque a verdade é que estavam ambos amarrados um ao outro e pendurados de uma corda, no alto de uma torre, como aqueles casais trágicos medievais, à espera que lhes cortassem a cabeça com um machado.

A cauda da minha gata

Fragmento 67


A cauda da minha gata parece comentar os movimentos do seu corpo.

Ela dá um salto e a cauda: «Zác!... Zác!....» Para um lado e para o outro, ritmadamente.

Arqueia as costas e a cauda... desenha um gancho no ar, como um ponto de interrogação.

Faz «Minháu!...», esticando o pescoço, e a cauda, logo a seguir, como um ricochete, assume um desenho diferente, espetada no ar.

É tão engraçado!...

Isto de ter um rabo comentador, ou melhor, uma cauda perfeitamente expressiva, deve ser uma coisa... - não posso dizer do outro mundo, porque não é – ... mas deve ser uma sensação espectacular.

Sobre o apocalipse

Sonho XCII

 
O mundo estava ameaçado, mas nós não nos apercebíamos disso imediatamente.
 
A minha casa estava cada vez mais vazia.
 
Todos os dias, quando acordava, havia menos umas coisas.
 
Menos uns pratos, menos uns copos, menos uns livros, menos uns lençóis, menos uns sapatos.
 
Por fim, eram já os móveis que desapareciam, como que por magia.
 
O próprio sol emitia uma luz cada vez mais fraca, deixando o interior da casa na penumbra.
 
Um dia, via um rosto distorcido e alucinado a espreitar pela janela, com uma expressão terrível.
 
Algumas pessoas deambulavam pelas ruas.
 
Já não pareciam seres humanos, mas bestas alucinadas.
 
Aflito, tentava proteger-me, descendo os estores e fechando-me o melhor possível.
 
As comunicações estavam cortadas, não se podia falar com ninguém.
 
Mas eu sabia que mais tarde ou mais cedo teria de sair de casa, para tentar arranjar comida.
 
Quando saí de casa, o mundo já não tinha coisas.
 
Tinham desaparecido os sinais de trânsito e as árvores.
 
A casa estava agora num descampado deserto e, ao longe, via-se uma cerca de arame farpado.
 
Por cima da casa havia uma torre de controlo e estavam lá alguns políticos, cercados pelo exército.
 
Muitos tinham uma expressão calma e decidida.
 
Portanto, era provável que esse grupo não sucumbisse ao desastre, ou então não teriam essa expressão no rosto.
 
Estava também aí um outro homem com uma expressão verdadeiramente preocupada, e eu perguntava-lhe: «O que se passa?»
 
Ele não me dizia nada, mas podia perceber, pela sua expressão de compaixão e terror, que o que se passava era realmente muito grave.
 
Afinal, talvez nem sequer fosse importante tentar arranjar comida.
 
Ele dizia-me:
 
«Avise-nos, por favor, quando a zona frontal da primeira série de chaminés começar a desaparecer.»
 
«O que é isso?...»  
 
«A zona frontal da primeira série de chaminés?...»
 
«Olhe e veja.» Dizia ele.
 
E eu olhava.
 
Ao longe via-se um quarteirão de prédios vulgares, com as suas chaminés erguidas ao alto.
 
Havia em torno desses prédios uma espécie de nevoeiro, como um halo.
 
E de súbito eu percebia, aterrorizado, que já só se viam as segundas chaminés. 
 
As outras chaminés, as que estavam atrás, tinham sido «apagadas»... como se tivessem sido dissolvidas naquele halo.
 
Era uma lenta e imperceptível devoração que estava a apagar as coisas, em silêncio total.
 
Não se ouvia uma explosão, não se ouvia um grito, não se ouvia um choro, e ninguém corria.
 
Aterrado, olhava para o homem olhos nos olhos, no fundo dos olhos, bem no fundo dos olhos, e perguntava: «É suposto que aquilo também me aconteça?...»
 
Ele acenava afirmativamente com a cabeça, quase a chorar.
 
«Faça-me um favor.» Dizia eu. «Tenho aqui uns baús.»
 
«São os meus escritos e os meus planos de livros.»
 
«É o meu tesouro.»
 
«Talvez alguém queira continuá-los, já que agora não vou poder mais.»
 
Ele entrava comigo em casa, para ir buscar os meus papéis, quase a chorar.
 
Eram já poucas as coisas que ainda lá estavam, na casa sombria, e eu ria-me. 
 
«Tantas coisas!...»
 
«Tantas preocupações!...»
 
«Fechar a casa, arranjar comida... Afinal... Para quê?...»
 
O homem estava com uma expressão realmente aflita e permanecia em silêncio, com as lágrimas nos olhos.
 
«Muito obrigado.» Dizia eu, entregando-lhe os baús, com um ar solene.
 
«Agradeço-lhe do fundo do coração.»
 
«Será que pode ainda fazer-me um outro favor, já que está a ser tão simpático comigo?»
 
O homem acenava afirmativamente, como se estivesse hipnotizado.
 
Não se podia dizer, naquelas circunstâncias, que estivesse apaixonado, mas era uma espécie de coisa semelhante, era como se estivesse magnetizado.
 
«Por favor, mate-me agora.»
 
E sentava-me numa cadeira, muito direito.
 
Ele pegava numa seta de madeira, uma arma especial, que eu nunca vira, e, com a mesma expressão de terror e compaixão, sentava-se à minha frente, talvez a um metro de distância, hirto e introspectivo.
 
Empunhando lentamente a sua arma, com os olhos fixos nos meus, conseguia disparar sobre mim, mas a mão tremia-lhe.
 
Eu podia sentir a ponta da seta cravada no peito, levemente, e depois um foco de calor, e depois uma vaga com o pulsar do coração, uma onda de embriaguez, semelhante àquela que se tem quando se bebe uma bebida muito forte muito depressa.
 
De repente, ficava muito quente e era levado numa onda, como se flutuasse.
 
Sentia o veneno a circular com a corrente de sangue, ardente e quente e corrosivo como um ácido, e pensava:
 
«É bom morrer assim.» 
 
Contudo, eu não morria.
 
Afinal, parecia que eu era um caso à parte.
 
Aquilo levava bocados de mim, como folhas arrastadas numa tempestade de vento, mas não conseguia matar-me.
 
Como se costuma dizer, eu era «um osso duro de roer».
 
O homem estava ainda mais aterrado, em completo silêncio.
 
O exército ia levar-me com eles, para me transformar num caso de estudo.
 
«Será que ainda posso continuar a escrever?...»
 
Era só no que pensava, alegre e entusiasmado, enquanto me carregavam, ainda sentado sobre a cadeira, com a seta atravessada no coração.

Turner

Fragmento 90

 
Do alto da rua que desce, sobre os telhados e as copas das árvores, vê-se ainda o mar, o imenso mar tranquilo em que planam quase imóveis os grandes navios mercantes, e, por cima deles, as nuvens, as inesperadas e enormes nuvens em múltiplos e suaves graus de cinza que se erguem em castelos do outro mundo e que falam de Turner.
 
Parece que as lágrimas me saem pelos poros da pele, não pelos olhos, mas sim pela pele, com um arrepio de acidez, dolorosamente amargo. O peito oprime-se com uma intensidade insuportável e, de repente, parece que sou aquele degradê entre as cinzas, que é por ali que passo, que é por ali que voo, com esse rápido arrepio que arde pela espinha acima e uma inesperada libertação.
 
Ah!... Vida!...
 
Bem diz Deleuze que Londres é a nossa Pítia, porque Turner está lá.
 
Eu tenho o meu Turner à porta de casa, nas minhas visões de nuvens e de mar.
 
Não há dúvida. São visões em que se abre a passagem, não a derrocada.
 
A pele sabe o que é «atravessar o muro». O corpo sabe milímetro a milímetro essa coisa incomparável que não é de época nenhuma, isso que vem de um eterno futuro ou que foge para lá.
 
Qualquer coisa que corre, ondeia, rebenta... o desejo?...
 
Nessa passagem que me desfaz, as cores cantam e o corpo dança, imóvel no seu lugar, na sua insuportável intensidade.
 
Que me importa se morrer? Nada me importa.
 
Tenho vontade de morrer exactamente como quando vejo esta paisagem.
 
Diluir-me nesta visão de cinza, absolutamente indiscernível.
 
Eu...
 
Afinal isso é só o motivo para um vago sorriso, vagamente apaziguado.
 
Pois não há qualquer dúvida que sou só de passagem, como que por um estranho acaso que não deixa, ainda assim, de ser uma fulguração.

Sobre a utilização de um bisturi


Sonho CXXVI
 
Muito antes de lhe ter dito adeus no descapotável, a Maria do Mar aceitara um convite de Biagio Yamaguti para assistir a uma operação à sua nova namorada.
 
A namorada de Biagio era uma alemã de cabelos louros e olhos verdes, a Alex Abendroth.
 
Estavam os três num quarto de hotel e a Alex despia a camisa, deitando-se de lado.
 
A Maria do Mar estava branca de medo e não percebia porque é que não chamavam os médicos.
 
Biagio pegava num bisturi e fazia um longo corte na zona exterior do braço de Alex, um corte lento e preciso.
 
Primeiro um braço, depois o outro.
 
Pela precisão dos movimentos, parecia saber o que estava a fazer.
 
A Maria do Mar ouvia a carne a rasgar-se, como se fosse um tecido, enquanto os seus pensamentos corriam desordenados.
 
«Mas porque é que ele estava a fazer aquilo?...»
 
«Seria uma operação estética, para ela ficar com um peito maior?...»
 
«Mas então porque é que ela tinha de estar ali a ver?...»
 
«E o que é que o peito tinha a ver com os braços?...»
 
«A rapariga estaria bem anestesiada?...»
 
«Mas porque é que a rapariga concordara com a operação?...»
 
A rapariga gemia, à medida que o bisturi lhe abria a carne.
 
A Maria do Mar queria fugir, mas não podia.
 
Estava aterrada e, de certo modo, achava que era melhor haver pelo menos alguém a ver.
 
Por fim, Biagio terminava a operação e lançava-lhe o bisturi no colo, fazendo voltear o instrumento no ar.
 
«Ah!...»

Gritava a Maria do Mar quando via a lâmina extremamente afiada aterrar no seu colo e furar-    -lhe a roupa, quase tocando na carne.
 
«Seu estúpido!... Veja o que podia ter feito!...»
 
A Maria do Mar trazia uma linda camisola em verde-água que parecia uma rede, mas agora a camisola estava inutilizada.
 
E era tão raro que tivesse dinheiro para comprar roupa!... 
 
De resto, ele também não iria pagar os estragos.
 
Não fizera por mal, é certo.
 
Mas também não se mostrava minimamente incomodado com o resultado.

Fragmento 28


Feliz com um livro no colo, na expectativa de ter fome e comer o almoço.

Sobre as miúdas que dão choque


Sonho XCIII


Heinrich Hart tocava ao de leve com as costas da mão numa das faces de Francisca M. e retirava-a muito depressa, como se se tivesse queimado.

«Esta miúda dá choque!...»

E aparecia-lhe então aquela encantadora expressão de surpresa divertida que às vezes se estampava no seu rosto.

«Pudera.» Pensava ela, para os seus botões.

«Se este homem me deixa completamente electrificada, é natural que eu dê choque!...»

O Tempo

Fragmento 129
 
 
Na auto-estrada Lisboa-Cascais, a visão das colinas.
 
Uma linha de verde, dobrada por outra que é um renque de choupos e de eucaliptos...  e, nessa linha delicada que divide a curva suave da colina contra o céu, uns tufos... uns fofos tufos de arbustos quase imperceptíveis que ali emergem, contrastando no cinza-azulado do céu imenso com a sua lógica de poeira dispersa e essa ironia pontual e quase infantil que tem o pequeno quando aparece no meio do grande.
 
O carro avança como uma nave entre o ritmo dançado das colinas, entre a conversa e a ilógica contrapontística das suas linhas cantantes, e o meu peito aperta-se com uma estranha ansiedade, essa emoção dolorosa dos encontros, que nunca se sabe quando irão terminar, ainda que o fim seja certo.
 
«É só isto.» Penso eu. «Eis tudo.»
 
Mas o coração enche-se então de um infinito, uma espécie de «ar».
 
Depois da ansiedade amorosa o coração expande-se e respira e eu vou nas linhas das colinas tanto como vou na linha suave que é a do movimento da minha nave, vou por ali naqueles tufos e na mistura suave dos múltiplos verdes, dançando em cada linha como se escorregasse por ela, como se acelerasse nela, como se com ela fendesse e abrisse um espaço, e em cada volta vou na velocidade infinita que é realmente mais pequena «que a do mais pequeno intervalo imaginado», tal é a rapidez com que o olhar me leva e trás, nas incontáveis direcções que compõem toda a paisagem em movimento que atravesso.
 
A ida é já uma volta, não há dúvida, e quando fui já voltei, sempre que fluí por cada linha.

De repente, foi abolido o tempo.
 
Onde estou, que já não tenho tempo?
 
O tempo fez-se paisagem, a vida agora é um panorama.
 
Parece que posso visitar a minha morte com o meu velho corpo de criança que me diz sempre que a morte é impossível, que a morte é uma ilusão de óptica.
 
Mas porque é que o tempo é tão diferente do espaço? Porque é que Espinosa os aglomerou no mesmo conceito de «extensão»? No espaço «anda-se» para trás e para a frente, mas não no tempo.
 
O tempo é como uma muralha de pó que vai voando à medida que a percorremos. Parece uma franja, um vento ou um feitiço. Não andamos de um lado para o outro, a encontrar os mesmos lugares no tempo. As histórias, os mitos, as narrações e as memórias não nos convencem. Tudo isso são andaimes nas ruínas do tempo, apenas um pouco mais lentos que a sua curiosa pulverização. Nunca sabemos muito bem «por onde fomos», no tempo. Ele é ainda mais inapreensível do que uma paisagem sob a bruma, composta de bruxedos que a desfazem, mal se tira o pé.
 
Mas então como é que agora sou mais rápida que o tempo, nas linhas das colinas que dançam?
 
Dobrei o tempo ao contrário – oh! alegria! – mas terá sido na velocidade do esplendor das cores que de repente o tempo se aboliu?
 
Talvez por isso me aconteça aquela opressão apaixonada no peito e o ar que me entra súbito no coração, talvez por isso apareça assim na mente esta intuição ainda por explorar e que simplesmente afirma:
 
«É só isto. Eis tudo.»