Sobre a imensidão

Sonho CLXXXIX




De um barco à vela, tínhamos caído ao mar.

Nós os náufragos gritámos fortemente de modo a que o resto da tripulação nos ouvisse.

Tentámos nadar para perto do barco mas percebemos que uma corrente fortíssima nos levava, enquanto o vento levava o barco.

«Nada.» - Pensava eu. - «Somos menos que nada.»

Porque era tão ínfima a nossa força perante a força da corrente e tão avassaladora a nossa impotência.

Em menos de segundo, qualquer ideia de futuro se dissipou como uma voluta de fumo a confundir-se com o ar.

Num ápice, o barco desapareceu do nosso horizonte.

Como é imenso o mar!...

Como é imensa a terra!...

Atordoado, eu fazia contas à vida e à morte.

A morte seria dolorosa mas pelo menos rápida.

A vida, pelo contrário, parecia-me que ficava por viver. 

Tantos livros por ler!...

Tantos livros por escrever!...

Mais do que tudo o que me doía eram esses livros na hora da minha morte.

«Ainda não chegou a hora da nossa morte!...»

Gritou um dos meus companheiros de infortúnio, ao ver, no meio das vagas, um helicóptero.

«Aqui está um verdadeiro Deus ex machina.» - pensei eu, maravilhado com o som do helicóptero.

Depois disto, não dormiria durante três dias.

Tal era o píncaro de alegria em que me lançava a inesperada novidade de me saber dotado de uma hipótese de futuro, isto é, de uma vida.






Citações sem leitura

 Fragmento 9


Ter citado passagens de um livro sem nunca as ter lido é uma das experiências mais desconcertantes e poderosas que se pode ter. De onde vos conheço?... Onde nos encontrámos, afinal, antes?... Em que vida é que vos li?... De onde venho?... Passei por onde, ou entre onde?...  É extraordinário como nos sentimos tão próximos destes longínquos seres que nos repetem, nas décadas ou nos séculos ou nos milénios anteriores ao nosso nascimento. Não são estes os mais íntimos dos íntimos, estas nossas outras almas?… Agradeço com uma intensidade próxima da devoção terem escrito e deixado estes livros a troco de nada, tantas vezes na pobreza ou na solidão, e agora os livros são como pontes de lianas que atravessam os abismos da nossa morte próxima ou como as caravanas que nos transportam a salvo pelos desertos ardentes de uma eminente perdição. Ao mesmo tempo que nos salvam, que nos acolhem, que nos consolam, obrigam-nos a colocar tudo em causa. Sabemos o quê, pensamos o quê, sentimos o quê, pensamos que sabemos ou que sentimos o quê?... A consciência é escassa como um telhado partido. A nossa vida é sempre como esta estranha casa maior do que o telhado - uma espécie de casa absurda e que tal como um corpo se expande continuamente para fora do que sabemos dele. Eu que em tempos acreditei (ingenuamente) que era tão importante morrer, para que outros nascessem e pudessem começar a pensar de novo do nada, como se partissem do zero, constato afinal que estamos sempre a começar do meio, de qualquer coisa que já começou. Perdi a minha adolescente justificação da morte, ganhei uma infinitude de questões. Inconsciente colectivo, reencarnação, percepção transcendental, as pequenas percepções de Leibniz… Tantos conceitos criativos para tentar capturar o incompreensível e para justificar uma única experiência tão poderosa, enquanto um céptico ou um desencantado falarão apenas de uma fatídica falta de originalidade, na miserável raça humana. Mas eles não explicam nunca esta alegria, uma alegria que está nos antípodas do desencanto e que é tão intensa que se transfigura em redenção. 

«Nuvens... São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível...» (1) E eu também, eu também, meu querido amigo, minha outra alma, eu também fiz exactamente versos em prosa às sensações intransmissíveis com que quis tornar meu o universo incógnito. 



Fotografia de Joaquim Cardoso Dias, 2016







(1) Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Fragmento 204).

Sobre o instinto de conservação

Sonho CLXXXVIII



Vivíamos em pleno caos, pois todo o tecido social se tinha vindo a desfazer, ao longo dos últimos anos.

Os delitos eram tantos que não havia possibilidade de os contar, muito menos de os punir.

Muitas pequenas máfias tinham assumido o controlo das povoações e das cidades que passaram a estar divididas em bairros, conforme os chefes que as dominavam.

A condição das mulheres tinha regredido para o estado de muitos séculos atrás - e a maioria dos homens carregava uma arma.

Mas a Françoise continuava a comportar-se de um modo muito rebelde.

Certa vez estava parada num sinal vermelho, quando verificou que estavam a desmontar-lhe o vidro do carro, para o levar.

A Françoise não fez mais nada.

Tirou o vidro das mãos do homem e arrancou com o acelerador no fundo.

Esta atitude colocou-a na pior das situações.

«DÍVIDA DE MORTE.» - era como lhe chamavam.

A partir de agora, a sua rebeldia só poderia ser paga com o próprio sangue.

A Françoise não se tinha lembrado das novas condições em que se vivia.

De novo parada num sinal vermelho, viu entrar pelo vidro o cano de uma arma que foi apontada à sua testa.

De um modo bastante patético, a Françoise estendeu o vidro ao seu carrasco, como quem diz: «Leve-o.»

Ele riu-se, ufano com o poder de apontar à cabeça de uma mulher desarmada.

A Françoise ficou branca e sentiu uma fúria, uma tal fúria que lhe eriçava os cabelos e lhe dava essa força que é própria dos loucos e dos destemidos.

Agarrou no cano da arma com a mão e, de um só golpe, disparou-a contra o rosto do seu carrasco e, logo de seguida, contra o peito.

A Françoise não tinha apontado às pernas, nem aos braços.

Disparara sem piedade, sem remorso.

«Entre tu e eu, eu.»

Um animal fortíssimo e selvagem trepara por ela adentro e tomara conta de todo o seu corpo, de toda a sua alma.

Nessa velha equação do altruísmo sobrara apenas um único elemento - o instinto de conservação.

Crianças 12

A Laura, de cinco anos, depois de solicitada para contar uma história:



«Era uma vez um elefante, uma aranha e um esquilo. E não sabiam.»
 

Sobre a luxúria

Sonho CLXXXVII


A Maria do Mar encontrava-se uma vez mais com Biaggio Yamagutti, por pura luxúria.

Nem sequer falavam.

Mal ele abria a porta, depois de um surdo «olá» que se estrangulava nas gargantas, despiam as roupas o mais depressa que podiam e abraçavam-se.

A Maria do Mar mergulhava naquela pele como quem dá um mergulho de mar, fruindo o bálsamo da água fresca depois de um longo período de exposição ao sol.

Era inebriante.

Se ao menos aquele prazer durasse além da Hora!....

Em breve chegaria essa tristeza que é também a do alcoólico quando percebe que já terminou a segunda garrafa da bebida mais forte e não consegue pôr-se de pé.


Berenice Abbott (1898-1991)