ANDREIA MARQUES
 

Sobre a impunidade e a punição

Sonho CXXXII



Estávamos todos sentados à mesa quando apareceu a Maria do Mar a correr.
 
De repente, antes sequer de abrir a boca, a Maria do Mar transformou-se numa grande tela branca e o que se seguiu foi um filme que nós, os comensais, seguimos avidamente.
 
Em primeiro plano vimos uma rampa de madeira muito inclinada que subia até à entrada de uma grande gaiola sobre o ramo de uma árvore.
 
A Francisca trepava por essa rampa em grande velocidade e, por causa disso, o fecho éclaire que se via nas costas do vestido abria-se até ao fundo das costas.
 
Era um típico tailleur dos anos cinquenta, justo e recto, cortado um pouco acima do joelho, sem decote e sem mangas.
 
A Maria do Mar seguia-a com a mesma velocidade e o seu vestido, que era igual, abria-se também pelo fecho éclaire das costas, mas de uma forma tão violenta que lhe saía pelos pés.
 
A Maria do Mar trazia ligaduras nas articulações dos joelhos e uns estranhos arames que faziam com que as suas pernas parecessem próteses.
 
Faziam lembrar as próteses que Pistorius deixou à beira da cama na noite em que quis matar, ninguém sabe se um intruso, se a namorada, e, como para a grande justiça humana vale mais deixar por punir um assassino do que condenar um inocente, ele ficou livre, por causa da impossibilidade de determinar um juízo rigoroso.
 
Porém, para a pobre Maria do Mar de imediato surgiu um polícia para a multar e talvez prender por andar assim despida na via pública.
 
A Maria do Mar tinha contudo outros recursos.
 
Lançou-lhe um bruxedo, enfeitiçando-o com um olhar pontiagudo que lhe acertou em cheio.
 
O polícia ficou completamente imóvel e repetia, de olhos fixos no vazio:
 
«Abc, abc, abc, abc...»
 
E pouco mais soubemos, quanto ao final da história.
 

Fragmento 187

 
 
 
 
"Ma blessure existait avant moi, je suis né pour l'incarner."
 
 
Joë Bousquet
 
 



Sobre a utilidade e a inutilidade da literatura

Sonho CLXX

 
A avó Edith, afinal, estava viva.
 
Era de uma beleza rara, que fazia lembrar a de Natasha Kinski mas que nela envelhecera tão bem. E tinha esses cabelos brancos tão brancos e tão bem delineados em torno do rosto aristocrático, que ela mesma cortava, por detestar que lhe mexessem na cabeça, os cabeleireiros.
 
Os negros olhos brilhantes muito vivos e nos lábios um ligeiro baton.
 
Essa avó que adorava cuidar de animais e de flores e a quem todos os cabelos tinham caído com vinte anos, depois de amparar o irmão mais novo que se suicidou com um tiro de caçadeira e que lhe morreu nos braços.
 
«Não existe acto de maior cobardia, nem acto de maior coragem». - Dizia ela, quando falava do suicídio em geral - «Foges da tua vida, sem saberes para onde vais.»
 
Mas concerteza que não falava de morte voluntária, aquela que desejou quando agonizou nos últimos anos da sua vida com cancro, e que seria um outro tipo de acção.
 
«O que eu queria era entrar no mar e nadar até perder a terra de vista, até já não ter forças. Pedir-vos que me matassem... Mas não posso fazer de vocês assassinos.»
 
O irmão tinha fechado a porta à chave mas ela trepou pelas paredes e quebrou as altas bandeiras de vidro sobre as portas e lançou-se no interior do quarto.
 
E afinal estava viva, esta avó que sofria de um curioso inconformismo social que a fazia tecer inusitados comentários, achando graça àquela criada que numa noite recebia o polícia, noutra o bombeiro.
 
«Uma noite eram as botas do polícia. Na outra eram as botas do bombeiro.»
 
Ou condenar a Princesa Diana por não ter sabido prevaricar ao menos como a Rainha de Inglaterra, sem escândalo.
 
«Não penses que a Rainha não sabia divertir-se.»
 
Ou rir-se sempre que a neta perdia a aliança de casamento.
 
«Esta não gosta nada da anilha!...»
 
O que não a impedia de lhe comprar imediatamente uma nova, para que não andasse sem anilha.
 
Ela própria, enfim, de uma integridade rara, apesar da sua cordial compaixão por fraquezas alheias.
 
Comunista por adesão imediata, antes de saber dos assassínios em massa perpetrados pelos regimes totalitários, crente convicta em como seríamos descendentes de extraterrestres, por estarmos, ao contrário dos outros animais, tão desadaptados ao planeta Terra e, por outro lado, por causa das inúmeras e subtis referências tecnológicas dos contos de fadas e da Bíblia (tapetes e vassouras voadoras, elevadores em pés de feijão, nuvens tele-dirigidas, portas que se abrem e fecham por telecomandos de ondas vocais à distância, espadas de fogo, discos voadores faiscantes, espelhos falantes pré-televisivos, saltos e viagens telepáticos, etc).
 
«Já reparaste que somos os únicos animais que andam com roupa?»
 
«Vê lá bem, existe coisa mais natural do que o comunismo? Já se viu coisa mais bem pensada?»
 
Desligada dos bens materiais e generosa ao ponto de despir toda a roupa para dá-la a quem tivesse frio, essa fora a rapariga que nascera fora do casamento e que um dia confrontara o pai, no luxuoso palacete da Avenida da Liberdade, lançando-lhe aos pés um enorme jarrão da China enquanto toda a família se escondia debaixo da faustosa mesa para quarenta pessoas, temendo a imprevisibilidade de um homem que regressara louco da Primeira Guerra Mundial, depois de ter sido dado como morto durante quatro anos de que não houvera história, nem relato, nem memória.
 
«La vie en rose.» - Dizia ela, referindo-se ao amor da sua vida, aos criados, às quintas, aos automóveis, aos cavalos e aos vestidos feitos por medida no Paris em Lisboa, mas, para a neta que a ouvia e que também ouvia a história desses filhos extravagantes ou loucos que tinham fugido da casa violenta e rica, ou que se tinham matado, ou tentado matar, e que ouvia a história daquela irmã inteligente mas que tirara o sétimo ano do liceu às escondidas porque era uma rapariga e não a deixavam estudar (pois só podia tocar piano e, quanto muito, aprender francês), essa neta que agora pertencia a uma geração subitamente pobre por avareza ou inconsciência dos pais e transformada em simples trabalhadores-nus, como tão bem descreveu Marx, para si essa vida em rosa tinha um aspecto sangrento, excessivo, terrível e uma dor insuportável atravessava-a por todos os lados, como um campo por um vento feroz e desregrado, que tudo arrancasse, como uma terra sucessivamente fendida por sismos traumáticos, e era uma dor excessiva que nos deixava de rastos, sem forças, sem cabelos e exaustos ao ponto de quase não poder construir, de novo e gesto por gesto, pegada por pegada, pedra por pedra, o edifício dos sonhos que nos agarram à vida e que nos permitem andar de pé e viver.
 
«La vie en rose...»
 
E agora ali estava ela, mesmo à minha frente, viva, tão viva que me ardia nos olhos e me deixava sem coração, aquele espírito irreverente mas peculiarmente conformado e a quem o terror de uma lucidez demasiado aguda pintara tudo de rosa, deixara tudo em rosa.
 
Qual rosa?
 
Onde estava a literatura que agora me iria ensinar a lidar com a revolta de ter ficado sem ela que afinal não partira mas que andava airosa e bem-disposta por ali, sem eu saber, pois mudara-se apenas para um outro sítio onde a surpreendera por um mero acaso e em que vivia uma vida mais alegre e da qual eu não participava nem podia participar, de  modo algum?
 

Desejo

Fragmento 186

 
«Se o desejo pudesse trazê-lo até mim de corpo e alma, ao desejado... Se tivesse a força de um raio e, mesmo sendo uma árvore, o arrancasse pela raiz... Se o desejo arrastasse montanhas e abrisse os mares e devorasse as distâncias e o universo, ah!, não só, não só sendo forte e entrando na substância do mundo, pois essa é a natureza invencível do desejo, é o gume diamantino e a sua aresta fulgurante, criar sempre qualquer coisa, nem que seja uma destruição, e operar um diferença, sempre, mas se tivesse a velocidade e a força para o arrebatar num cavalo alado e trazer até mim de uma vez por todas, ao desejado... Estranha força e paradoxal que tem uma potência perfeitamente inversa ao seu fim... Porque é a mim que ele arrasta no turbilhão como se eu fosse a feiticeira montada no vento; é a mim que transforma no fumo que sobe pelas chaminés e se compõe em fluxos de ar, de sopros e de nuvens; é a mim que trilha e separa e urge; que abala e transforma deixando a marca da sua onda; e é em mim que é motor dessa audácia indomável de imaginar a leveza - talvez a esperança. Mas «esperança» é ainda um termo demasiado cristalino quando comparado com a força tremenda e obscura que nos faz agarrar à vida com unhas e dentes, depois da passagem no deserto.»
 
 
 
 
Françoise M., Cartas, 1976-1996.

Sobre uma saída que não existe

Sonho CLXIX


A Maria do Mar descia pelas escadas de um estacionamento subterrâneo, quando foi abordada por  um desconhecido.

«Tenho o carro no menos um, e você?»

A Maria do Mar desejou uma de duas hipóteses. Ou ter uma arma na mão, escondida no bolso. Ou ter asas nos pés, como um deus antigo.

Chegaram ao menos um, que tinha a porta entaipada, e o homem riu-se:

«Mas era mesmo no menos um!...»

Nesse momento ouviram-se os passos de um grupo de capacetes azuis e o homem gritou, ao mesmo tempo que disparava contra o quadro da electricidade:

«Vamos deixá-los às escuras!»

A Maria do Mar desatou a correr com todas as forças que tinha.

O carro que se lixasse.

Durante a corrida pegou no telemóvel e falou com a polícia.

Sim, era aquele homem de aspecto insignificante e fato escuro e gravata.

A sua descrição batia certo com a de um raptor que constava dos seus arquivos há anos.

E de facto encontraram naquela zona entaipada sete mulheres que estavam ali presas há muito tempo, sem se lavar, e quase sem comer.

Mas a Maria do Mar não conseguia parar de correr.

Numa barraquinha de feira lia-se em grandes parangonas:

ALISTE-SE CONTRA O TERRORISMO.
NÃO ESPERE QUE LHE CAIA UMA BOMBA EM CIMA DA CABEÇA.
 
E noutra mais à frente dizia-se:
 
VENHA TREINAR PARA SER UM GUERREIRO PURO E ARDENTE.
VAMOS ANIQUILAR OS INFÉIS EM NOME DE ALÁ.
 
Só que a primeira não tinha fila, enquanto na segunda parecia haver maior movimento.
 
E a Maria do Mar continuava a correr.
 
Queria sair do mundo, mas não encontrava a saída do mundo.

Escher, «Côncavo e Convexo», 1955


Sonhos

Fragmento 185

 
 
Quanto a sonhos, somos inimputáveis.

Quanto à sua escrita, e como Freud aliás percebeu, trata-se de um outro problema.


 


Sobre a nova linguagem dos animais

Sonho CLXVIII
 
 
A Maria do Mar era ainda bastante jovem e seguia atrás dos pais.
 
A mãe falava depressa e com charme enquanto contava muitas mentiras, mas, curiosamente, o pai não parecia dar conta de nada, mesmo quando uma velha mentira era trocada por outra, totalmente diferente, e a mesma história contada numa versão incompatível com a primeira.
 
A Maria do Mar seguia atrás em silêncio, como uma sombra, enquanto os pais davam saltos e corridas em ziguezagues como se fossem loucos ou saltimbancos.
 
De repente, porém, a Maria do Mar encostou-se num canto com a cabeça contra a parede e começou a chorar.
 
Dizem que chorar alivia, mas para a Maria do Mar as lágrimas ardiam como fogo e doíam como um ácido que lhe rasgasse o rosto.
 
Podia ouvir as vozes e os risos dos pais cada vez mais longe à medida que se afastavam. Quando por fim se acabaram as lágrimas, a Maria do Mar estava de joelhos com as mãos no rosto e a testa poisada contra a parede.
 
Mas os seus dedos continuavam ligados às mãos, e as mãos aos braços, e os braços ao tronco.
 
E os seus pés estavam ligados às pernas, e as pernas ao tronco.
 
E a sua cabeça em cima do pescoço, e o pescoço em cima do corpo.
 
Aquela dor que parecia fender a alma como se inusitados abismos a pudessem separar em mil bocados incomponíveis, essa dor afinal não tinha desfeito o corpo que ela ainda podia habitar como um viajante desfeito e exausto.
 
Sozinha, ergueu-se, e era como uma rocha no meio do deserto.
 
Tinha a força de uma rocha no meio do deserto.
 
Avançou para uma cidade onde se ouvia música em todas as praças e onde, por causa dessa música executada ao ar livre, os animais tinham aprendido a falar.

Os peixes dos lagos e dos tanques falavam uma língua que às vezes parecia russo, outras alemão.

Mas os pássaros, os cães, os gatos e os cavalos também falavam outras línguas distintas entre si.

Que fascinante que aquilo era!

É que os animais pareciam realmente mais perspicazes, assertivos e inteligentes que os seres humanos, nas suas conversas.

 


Crianças 8

(Frederik, de cinco anos, um trilingue norueguês.)



- Como se chamam aqueles que têm um rabo red e depois os outros pensam que é uma apple e vão lá e tiram?

- Tiram o rabo vermelho porque pensam que é uma maçã?

- Sim.

- Os babuínos?

- Isso.

Sobre o valor ilimitado de uma tautologia

Sonho CLXVII
 
 
Como estava doente, a Francisca M. tinha de apresentar uma justificação para não ir trabalhar.

Mas não tinha sequer forças para se justificar, tal era a prostração em que se encontrava.
 
Quando conseguiu pôr-se de pé, verificou que as ondas do mar cobriam o caminho que tinha de atravessar e, por isso, a Francisca e um grupo de turistas, decidiram recuar.
 
Entraram numa sala onde se encontrava um grupo em oração e a Francisca avistou Faysal Fatin, um muçulmano que tivera um problema grave de alcoolismo.
 
«Continuas sóbrio, mesmo estando em África?» - Perguntou a Francisca, ajoelhando-se à sua frente.
 
Nesse momento chegou um gordo que a agarrou pelos ombros e que a obrigou a girar, com um desejo boçal.
 
«Ah!... Gosto tanto de te ver de costas!...»
 
«Larga-me!» - Chispou a Francisca, lançando fogo pelos olhos.
 
«As pessoas são pessoas.»
 
«Não são objectos.»


Crianças 7

(A Maria, de sete anos, a propósito do Carnaval.)





- Professora, na sexta-feira vem de quê?

- De gata. Acho que venho de gata. Mas é surpresa. E tu, vens de quê?

- Oh, Professora!... Eu venho de rato!...

- A sério?













(Grandes risadas.)


Sobre generalidades e casais

Sonho CLXVI
 
 
Estavam os dois sentados numa mesa, Rostropovich e a sua ex-mulher, e ele dizia-lhe:
 
- Fazer melhor do que os espanhóis, e basta.
 
Fazer melhor do que os espanhóis? É claro que se referia ao desempenho erótico, a uma coisa de cama. Mas com que género de lucidez é que se atrevia a fazer comparações entre a vida privada dos povos?
 
- Calha, por exemplo, que és muito bom em determinada tarefa. Por exemplo, a traduzir chinês, ou a interpretar música da renascença, em especial, Jacob Clement, esse alcoólico que se auto-apelidou «Não Papa» para marcar bem a distância em relação à igreja de Roma e que se fazia pagar em barris de vinho, desgraçado -  mas afinal basta-te fazer contas de multiplicar acima de uma certa mediocridade estatística e já te sentes feliz só porque imaginas que estás acima do nível médio dos espanhóis? Oh, meu Deus!... Ainda que fosse «um espanhol»!... Um que conhecesses intimamente e que te despertasse um desejo de emulação... Mas contentas-te com uma média ficcional que traduza para os tolos a alma de um povo... Espanhóis. Mexicanos. Uruguaios. Afegãos... Uma imaginária linha média que te salve em pensamento da sensação de ser medíocre - uma ideia geral, oca, social e alheia... Meu querido amigo, que horror... Ainda bem que já és o meu ex-marido.
 
Rostropovich ria-se, bem humorado.
 
- Não te ocorre competir contigo próprio? Atingir o teu máximo? Essa sensação de plenitude e alegria que só a tua essência íntima conhece, e mais ninguém?
 
Rostropovich já se esquecera que tinha começado por falar de cama. Estava mais concentrado no jogo de sedução que consistia em enquadrar o absurdo daquela afirmação no contexto da sua personalidade singular e que compunha com a ajuda de gestos, expressões bem-humoradas e matreiras, acessórios e roupas. Na verdade, estava apenas a picá-la, para poder ao vivo vê-la pegar nas armas dos seus prolíficos e exóticos recursos de retórica, que Rostropovich apreciava, à sua maneira muito particular.

Quão distantes podem ser os íntimos!... Eram dois animais de línguas de tal forma estrangeiras uma à outra que causava espanto e admiração pensar que alguma vez tivessem formado um casal.