Sobre o valor da esperança

Sonho CC



F. de Riverday recebera um grande embrulho com muitas coisas, muitas delas repetidas.

Havia dois pentes, dois relógios, dois cintos e várias outras coisas em duplicado.

A Riverday porém não gostava de ter coisas em duplicado.

Bastava-lhe um pente, um cinto e um relógio; não precisava de dois.

Pensava de si para si a quem poderia dar aquele excedente, sem se fazer muito notada.

Não compreendia as outras pessoas, que gostavam tanto de multiplicar as suas coisas.

O que Riverday mais gostava, pelo contrário, era de espaço.

Com o saco na mão, a Riverday entrou num elevador que desatou a subir em alta velocidade, como um foguetão.

As paredes do elevador abanavam como as cortinas do duche e Riverday pensou que se perdesse o equilíbrio cairia certamente de uma altura espantosa.

Tecto após tecto, o elevador furava os vários andares, até que disparou em direcção às nuvens.

«Ah!...» - exclamou Riverday. - «Como é possível?...»

A Riverday percebeu então que tinha morrido e, portanto, o novo plano em que se movia já não obedecia às antigas regras.

As cortinas do duche soltaram-se e a Riverday sentou-se no chão do elevador que voava velozmente sobre as colinas como um tapete voador.

Estava agora num desses subúrbios onde proliferam desordenadamente as casinhas e os respectivos pátios e onde a pobreza, mais que a dos bens, é a do gosto. 

Por todo o lado se viam leões de pedra ladeando os pequenos portões, aos pares.

À porta de um pequeno café, o seu meio de transporte estacou.

A F. de Riverday estava cheia de fome.

Abriu a carteira, mas só tinha cinquenta cêntimos.

«Não se preocupe.» - Disse-lhe o homem atrás do balcão. - «Aqui ninguém fica com fome.»

O homem desapareceu por uma porta, enquanto Riverday sonhava com a comida.

O que lhe apetecia mesmo era um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, mas, se fosse uma sandes de queijo, também ficaria contente.

É incrível como, na maior adversidade, e até mesmo na hora da nossa morte, nos basta o dom da esperança para sermos felizes.

A F. de Riverday flutuava na alegria indefinida dessa perspectiva indeterminada, mas certa, de vir em breve a saciar a sua fome.

Crianças 14

(Francisco, de sete anos.)



- Hoje o Diogo disse que tinha massa para o almoço.

- E então?

- Afinal não era massa. Era arroz. E o Bruschy disse: «O arroz mentiu.»

(Muitos risos.)

Orgasmos múltiplos

Sonho CXCIX



A Françoise vivia de novo num antigo T0 de onde se via uma nesga de mar.

Estava tudo a cair.

Mesmo umas estantes caras que então tinha comprado e que acreditava que resistiriam ao tempo tinham ruído com o peso dos livros.

«Para quê tantos livros?...»

- A terra move-se de um modo imperceptível. É por isso que tudo acaba por ruir. - Dizia alguém.

A Françoise estava com os olhos cheios de lágrimas e sentia que talvez não sobrevivesse a uma tão grande tristeza.

Sempre tanto trabalho para manter tudo limpo e de pé!... Sempre tanto trabalho só para manter tudo na mesma!...

Entravam no apartamento três homens que vinham fazer as obras.

Um deles perguntava:

- Há aqui alguma mulher? Tu és uma mulher?

E a Françoise respondia:

- Eu sou uma mulher.

- Tanto dinheiro que eu gastei neste candeeiro!... - Dizia o homem. - E ninguém nesta casa o ligou!...

- Um candeeiro que é próprio para mulheres, com a sua luz especial iónica!... - Continuava ele. - Vocês acham que não precisam dos homens, mas precisam!...

De facto, quando ele ligou aquela luz especial iónica, o ambiente ficou muito diferente.

- Foi por isso que tudo ruiu!... - Continuava o homem.

Entretanto entrou pela porta um rapaz que conseguiu seduzir a Françoise com um beijo.

Na verdade, o rapaz era um homem.

Qualquer que fosse a idade de quem se envolvesse consigo amorosamente, passava a ser um rapaz.

Há tanto tempo que não experimentava um beijo que a Françoise deu por si a vir-se quase imediatamente.

O rapaz apercebeu-se disso e ambos fugiram para um parque de estacionamento onde se enfiaram no carro e fizeram quase tudo o que conseguiam fazer.

É incrível como uma mulher pode viajar por tantos picos de prazer, com quase nada.

A Françoise lembrava-se de um certo professor na faculdade que deixava a sua imaginação de tal modo ao rubro só com as palavras que dizia e com o movimento das mãos enquanto falava que ela tinha de sair e torcer as cuecas no final da aula.


Françoise M. - «Cartas de amor a este mundo»

Fragmento 21




Houve um tempo em que quis que me fosses espelho, mas não me iluminaste.

Fiquei de olhos abertos na escuridão, à espera da luz, mas a luz não chegou.

A minha luz ficou por nascer – e em ti, também eu fiquei por nascer.

Em vão quis que me fosses esse outro corpo com que celebrar o meu.

Foi um espelho sempre tapado, para mim sempre coberto com um pano de feltro gasto

igual a esses panos que cobriam os móveis das casas de onde todos partiram

e a que ninguém voltou, afinal, depois da grande viagem.

Teria talvez precisado que me devolvesses, com a tua, a minha existência,

mas não se levantou nenhum eco do meu clamor às montanhas

e eu fiquei por aí perdida nessa paisagem surda-muda

dentro de um suave caixão de vidro, tal qual a outra princesa,

enterrado nos meus ouvidos o silêncio, como um vazio que me desvairava.

Quis que me fosses voz, mas não vi nada, não ouvi nada... Ó dor intraduzível!...

Enviei-te um poema, como quem manda uma flor com uma carta,

um pedaço de lã, ou um retrato dentro de jóia...

mas nunca cheguei a saber se lhe tocaste, a esse corpo amoroso entregado,

nunca soube se chegaste a tocar-lhe – pois só tive de volta silêncio... e a dor

de conhecer a opacidade – e de ficar exilada, talvez, como morta entre páginas por abrir.

Errei tanto quem me aconteceu amar... e nunca cheguei a amar quem me amasse.

Foi esta maldição a minha de errar sempre um qualquer cruzamento possível,

como uma praga sem sentido... uma espécie rara de infidelidade.

Mas nunca me separei dos versos nem do mundo que me atravessou,

nunca me separei de como me olhou a visão que olhei, ao amar-te,

nunca me separei do amor que me tomou, em contemplar-te,

pois quis fazer só uma coisa obscura e muito antiga, essa magia de te convocar

com artes de um feitiço para me transportar, intacta, para as tuas mãos.

Penso, para me consolar, que talvez estivesse doente e intocável,

e estava... e talvez por isso tivesse sido assim... mas é uma fraca consolação,

sei que é uma fantasia muito tosca, como uma má desculpa,

porque em tudo pareço ter falhado, com dor, e fiquei como essa vagabunda meio louca

a dançar no que me sobrou da vida, funestamente, até poder enfim chorar estas lágrimas,

chorar como quem recomeça para depois sonhar outra vez e ser criança,

para depois da queda me encher de graça, de voo, de futuro e de dança,

ainda que apenas uma vez, uma breve e fugaz mas outra vez, outra vez.

Não escrevo agora versos de amor a seres humanos que se fecham

como pérolas em conchas, que se enterram como mortos descendo às valas,

ainda que proclame que voltarei sempre a escrevê-los, estes versos

por um novo amor não-humano a este mundo, uma vez mais e outra vez e outra vez...

É uma proclamação, uma promessa. Porque agora parece que falam mais comigo

as flores e as abelhas que voam no calor, agora parece que são as árvores

que nascem à volta da minha casa quem mais me contempla e acompanha.

Quero escrever versos de amor a este mundo, sonetos de amor para a água tranquila

que cintila nos tanques e para a luz que vibra em recortes na relva,

porque aqui e agora sempre me olham os cactos que florescem na primavera à beira mar,

eles sempre me vêem, sempre me atravessam, me tocam e me reflectem

e por isso quero fazer-lhes poemas de amor hoje e amanhã

como quem se entrega, dando-lhes de volta um corpo inteiro.




Luva, crina, dó

Sonho CXCVIII



Era um sonho interessantíssimo.

«Que coisa extraordinária!...» - Pensei.

Era uma descoberta, um renascimento. Agora, sim, eu iria começar a pensar de um modo totalmente diferente. 

«Ah!... Como se pode olhar de repente para tudo com novos olhos!... Como é tudo diferente!... Ainda não estou morto!... A realidade ainda não se cristalizou numa forma adulta, numa única modalidade!... Ah!... Que infinito!... Que horizonte!... Que extensão!... Que possibilidades!...»

Mentalmente, no interior do sonho, tomei nota de três coisas:

Luva

Crina


Pois eram os eixos, as articulações desse raciocínio que me salvaria da morte.

Quando acordei, porém, encontrei-me apenas com isto: 

- Luva. Crina. Dó.

Onde estava o resto?

Que raio de coisa absurda!...

Onde estava o caminho do infinito que essas palavras me prometiam?

É triste que a passagem do entusiasmo à miséria se faça com elementos tão dúbios e tão risíveis.

Contraponto Infinito

Fragmento 45


O erro de Kant foi considerar Deus como o fundamento necessário para uma metafísica dos costumes, ou seja, para a motivação séria de uma acção realmente boa e virtuosa, cuja recompensa estaria numa outra vida, na continuação além-mundo da alma imortal (por exemplo, na ideia cristã do Reino de Deus). Como é que um ser humano pode motivar-se na vida prática com uma tal teoria? A humanidade, por natureza, não parece destinada, nem ao sacrifício, nem ao martírio. Pelo contrário, a humanidade parece destinada à alegria. Como compreender as motivações de fanáticos que se fazem explodir em praça pública, na mira do paraíso?

Que a ligação imediata a uma coisa maior e a dependência prática em Deus, num sentido Espinosista - «Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido» -, ou seja, que essa ligação tenha o resultado prático imediato de libertação, saúde e graça, foi isto que escapou a Kant, de forma dramática. Pode-se ser foco de graça com o estômago vazio, um passado miserável, um desgosto amoroso e a conta bancária a zeros. É óbvio que estes sofrimentos não constituem a vocação natural de nenhum ser humano, mas a graça é materialmente inexplicável. Surge inesperadamente. Sente-se sem aviso prévio. Está ligada a uma leveza paradoxal que é a de nada ter importância, mas tudo manter, ainda assim e em si, um valor infinito. É uma alegria que dura mil anos e dança ao lado das guerras, das destruições e das tristezas, deixando-as embaraçadas, desajeitadas, como fracos actores num teatro infinito, poeiras desengonçadas entre o majestoso bailado das estrelas... A graça deixa o horror sem jeito. É um contraponto infinito. Um contraponto infinito para a crueldade e o absurdo do mundo, e nem sempre perceptível. A graça é, neste aspecto, parecida com as asas de uma borboleta que ontem poisou na grade da minha varanda. Eram duas asas magníficas, coloridas como se de uma aguarela abstracta se tratasse, e via-se nelas a energia das linhas brilhantes e fluídas que pareciam os traços rasgados e livres de um pincel. «Que maravilha!...» Pensei eu. Aproximei-me, fascinada, e apercebi-me, estando mais perto, que as bordas das asas estavam «roídas». Faltavam bocados. E ali afinal também estava marcada a ordem de uma outra espécie de violência. O meu coração apertou-se, o meu peito oprimiu-se. Porém, paradoxalmente, isso não tinha importância. E o valor infinito da ínfima borboleta, o seu valor sagrado, digamos assim, era, apesar disso, completamente independente dessa falta de importância. Porque não interessa o tamanho das coisas, pequenas ou grandes, importantes ou insignificantes, porque a dimensão delas, vistas sob este afecto, evaporou-seDançar fluidamente entre dimensões evaporadas, é essa a essência de um estado de graça. Não interessa o peso, a consequência, o primeiro e o segundo, o antes e o depois, a causa e o efeito. Tudo fica leve, tudo dança, tudo flui. Tudo - na sua passagem, na sua consumição, na sua destruição, na sua participação inegável de um outro sentido -, tudo tem um valor absoluto. Mas esse sentido é como uma franja, capta-se num limite, e o seu sinal é esta alegria. Uma absoluta confiança na vida, que já não passa pela forma de uma garantia humana, de um contrato meramente humano. Uma vida que já não é apenas a minha, apenas a da borboleta, apenas a de uma ou outra coisa. Mas uma vida em que cada coisa, independentemente do seu tamanho, tem um valor infinito. Uma alegria injustificável e impossível de esquecer. E ainda que aconteça numa fracção de segundo, que dure o tempo de uma breve faísca, é uma alegria que dura um milhão de anos. Como um raio que fulgura e cuja forma, num instante captada, num recorte faiscante de quartzo, jamais se esquece. Kant decerto não a experimentou, ou não teria necessidade de um outro reino. 

Sobre o aparente paradoxo de um facto transcendental

Sonho CXCVII



De madrugada, F. de Riverday desceu as íngremes escadinhas da Praia das Avencas, mas não foi para fazer amor às escondidas.

Na praia passeava um gigante, um homem enorme e assustador, e, um pouco adiante, um pequeno homem com próteses em vez de pernas que transpôs um muro com uma agilidade impensável.

«Onde é que te vieste meter?» - Perguntou-se Riverday.

Graças a Deus, o dia estava a nascer.

Num pequeno bar estava uma elegante mulher que preparava acepipes.

Ela era a proprietária do bar e procurava mostrá-lo de muitas maneiras, desde a indumentária, até ao tom em que distribuía ordens e instruções, passando por uma permanente atitude vistorial.

Talvez se sentisse frustrada, pensou F. de Riverday.

Solícita, uma outra mulher aproximou-se, com o intuito de dizer uma coisa agradável.

«Que bolos deliciosos!» - Disse a mulher.

«Porque é que não te vais suicidar hoje à tarde?» - Foi a resposta.

Nunca se dizem coisas agradáveis a certas pessoas quando estão no auge de uma frustração.

A maldade, tal como a bondade, não deixa de ser um elemento transcendental em acção.