Fragmento 162


A inspiração é um encontro.

Sobre a inviolabilidade do desejo

Sonho CXLII
 
 
No meio de um labirinto havia um cofre que estava no interior de um quarto blindado, numa casa-forte de paredes de ouro.
 
Era aí nesse cofre que estavam as chaves de todos os sonhos.
 
Tanto as chaves da casa-forte, como do quarto blindado e do cofre estavam nas mãos de um homem incorruptível e aquém de qualquer suspeita.
 
Mas havia também um mágico ganancioso que queria conquistar essas chaves.
 
Este mágico era astuto como um macaco e perigoso como uma serpente.
 
Se possuísse um tal tesouro ficaria na posse de todos os enigmas da alma humana e teria aos seus pés um conjunto de fantoches que poderia corromper da forma mais subtil e imperceptível, manipulando-os e vampirizando-os como uma sanguessuga, em benefício da sua própria fortuna.
 
Nada, mas absolutamente nada na lógica do desejo lhe ficaria oculto!...
 
Através de uma emboscada, o mágico conseguira roubar as três chaves ao homem incorruptível que agora o perseguia correndo pelo labirinto.
 
Com os seus poderes, o mágico transformava as escadas e os caminhos atrás de si em poços e abismos e planos incompossíveis de Escher, mas o outro homem, com a sua força, voava por cima deles.
 
Por fim, quando o mágico estava prestes a abrir a primeira porta da casa de ouro, as chaves saltaram-lhe da mão como pássaros e começaram a multiplicar-se em tal número que apenas se ouvia o metal a tilintar e a jorrar pelo chão como uma cascata de moedas incontáveis.
 
E aquilo não acabava.
 
Ambos os homens tiveram de fugir como cães acossados para não morrerem subterrados debaixo das chaves que continuavam a multiplicar-se.
 
Foi pelo mistério da multiplicação das chaves que a inviolabilidade do desejo ficou garantida.
 
 
 
São João do Estoril - 2008
 


Sobre uma garantia desastrosa

Sonho CXLI

 
Adalric van der Aa era o presidente de uma alta comissão para a regulação da transparência nos meios de informação pública.
 
Ele tinha reparado na Francisca M. e, por isso, convidara-a para participar numa mesa de reuniões a que ela naturalmente não pertencia.
 
Como mera empregada daquela empresa, a Francisca não se atrevera a discutir o convite.
 
Não lhe parecia uma boa ideia começar uma discussão, pelo menos naquele momento.
 
A reunião seria em princípio trivial não fosse de súbito surgir em cima da mesa uma notícia que os deixou a todos em completo silêncio.
 
A Índia acabava de doar a Angola uma cidade de dez milhões de habitantes armados.
 
A Francisca não imaginava que o governo de um país pudesse doar a outro governo uma cidade e todos os seus habitantes, ainda para mais sem os consultar, sem realizar previamente uma consulta pública. E armados porquê? 

Como a Francisca registava por curiosidade e vocação tudo o que se passava num pequeno caderno de notas, escreveu:
 
«ABSOLUTO SILÊNCIO».
 
Seguiu-se uma votação quanto à divulgação de um tal facto perturbador e todos votaram por unanimidade. Depois, foram almoçar.
 
A Francisca não sabia que Adalric era comprometido e sentia-se bastante atraída por ele.
 
Em parte pela discreta elegância, pelo charme e pelos cabelos brancos, mas em particular por ele ser bastante mais velho que ela.
 
Adalric era aliás suficientemente perspicaz e pouco egocêntrico para se aperceber disso.
 
Mas havia qualquer coisa nele que a repelia, um traço de carácter que não conseguia precisar, qualquer coisa muito subtil que apenas com uma fina intuição captava, com a auréola de um vago mal-estar.
 
Na verdade, Adalric lembrava-lhe Heinrich Hart, por quem em tempos tivera essa coisa extraordinária a que se pode chamar «uma paixão sem reservas».
 
Era como se Adalric fosse uma corruptela de Hart.
 
Ao olhar pela janela, sentada na mesa de reuniões com o pequeno caderno de notas aberto à sua frente, a Francisca podia ver um prédio de quatro andares que era todo construído em madeira e que tinha as cortinas de fora, voando ao vento.
 
As cortinas eram de um mau gosto inultrapassável e todas diferentes umas das outras.
 
«Que estranho.» - Comentava a Francisca.
 
«Todas as cortinas voam fora da janelas. Devem estar a fazer limpezas. Mas então todo o prédio deve ser uma só casa.»
 
«Que disparate!...» - Respondia Adalric.
 
«Ninguém se interessa em viver numa casa tão grande. Ainda não reparou que é uma casa toda construída em madeira? Uma das poucas do século XIV que resistiram ao tempo?»
 
A Francisca apercebia-se então que o prédio em que estavam reunidos tinha também uma construção semelhante e que o chão estava bastante inclinado.
 
Assaltou-a uma tal vertigem que teve de sair da sala de gatas.
 
Mas já no almoço, Adalric queria que ela provasse um certo vinho, o que ela recusava.
 
«Ah!... Percebo. Você já bebeu tudo o que tudo o que tinha para beber...»
 
Ele queria então que ela tomasse um comprimido de Jacarta e tocava-lhe nas pernas com os joelhos, como se fosse por acaso.
 
A Francisca estava com uma vontade crescente de o esbofetear, mas conteve-se.
 
Delicadamente respondeu apenas:
 
«Não como coisas que não saiba o que são.»
 
«Ora essa!... Você não sabe o que é um comprimido de Jacarta?... Vende-se no Continente!...»
 
E como ela não estivesse interessada, ele replicou:
 
«Mas você, aqueles crepes, comeu-os todos!...»
 
«Aqueles crepes têm ovos, farinha, leite, manteiga e sal e eu sei tudo o que isso é!...»
 
Exclamava a Francisca, deveras indignada.
 
«Faça o favor de tirar a perna de cima do meu joelho!»
 
E saía com um colega por uma porta que dava para uma praia de areias finas e brancas, em Cabo Verde, porque afinal aquela alta comissão para a transparência informativa era uma mera agência de viagens.
 
Na praia tinha caído um avião e todos os tripulantes e passageiros estavam mortos.
 
Os bocados do avião e dos corpos estavam espalhados pela imensa praia, num profundo silêncio.
 
«PROFUNDO SILÊNCIO.»
 
Registava de novo a Francisca.
 
Só que entretanto o seu colega começava a saquear os corpos e quando era preciso cortava as mãos e os dedos para tirar os anéis, os relógios, os telemóveis e as pulseiras.
 
«Temos de fazer pela vida.»
 
Dizia ele, perante o choque e o horror que fazia paralisar a Francisca.
 
Aparecia então Ada, a namorada de Aldaric, agitando muito as mãos e sorrindo com os longos cabelos pretos ao vento.
 
«Não acham extraordinário?...»
 
Perguntava ela, com um gesto largo do braço direito que apontava para a sua obra.
 
«Tive esta ideia genial.»
 
«Matei-os a todos, mas agora vamos ressuscitá-los.»
 
«Vejam só a publicidade!...»
 
Uma agência de viagens
que não só lhe garante a segurança da viagem,
mas muito mais do que isso!...
 
Uma agência de viagens
que lhe garante a ressurreição
e a vida depois da morte,
mesmo que o avião se despenhe do alto dos céus
na praia do seu destino!...
 
«Que tal, hem?...»
 
Ada não parecia aperceber-se do grande saco às costas do colega da Francisca e nem sequer dos corpos espoliados, estropiados, mutilados e desmantelados pela violência da queda.
 
Como seria essa maravilhosa vida depois da morte sem um braço, sem um olho, sem uma cabeça ou sem um pé?
 
A Francisca olhava para Ada como uma estátua de pedra e cal, esperando por um processo da mesma ordem que o milagre acordar bem depressa de um tal pesadelo.

 


A propósito de Proust e de um saco de praia

Fragmento 149


Penso nos mil gestos que fazemos para nos termos de pé, para sair à rua de roupa limpa e cara lavada.

Penso nos gestos ínfimos, incógnitos, anónimos e multiplicados. 
 
Olho para o meu saco de praia azul às bolas brancas, que vai ficando velhinho e desfiado.

«Como seria o meu saco de praia há dez anos?» 
 
Já não me lembro desse saco de praia. 
 
«E se de repente me aparecessem nas mãos esses vestígios de repente vivos de ter existido há dez, há vinte, há trinta anos, como seria?...» 
 
Lembro-me da memória involuntária de Proust e sei com a pele que se um desses sacos estivesse nas minhas mãos toda a sensação de existir nesses anos correria para mim como uma onda enorme, uma avalanche ou uma derrocada. 
 
«Porque é que só a ideia de aceder ao vivo dessa memória me traz tanta dor?...» 
 
A minha alegria é exactamente como um jardim que floresce sobre os mortos. 
 
Talvez uma arte involuntária de esquecer, ou de viver só por hoje, ou de sentir como eterna novidade a incrível surpresa das cores. 
 
Porque só a ideia de poder recordar a sensação real de ter existido nessas décadas me traz como que uma avalanche da dor de andar pelo mundo a existir... sempre incompleta. 
 
Por entre a espuma dos dias e dos gestos incógnitos das obrigações e da sobrevivência está a sensação de existir de passagem e sempre a caminho de outra coisa, sempre um pouco aquém ou além, promessa nunca alcançada, Jerusalém celeste ou terra prometida que busco como um antigo judeu, uma judia de alma.

Sobre o dominó

Sonho CII


Uma miúda queria jogar dominó, mas o baralho estava incompleto.

Eram umas peças chinesas de bambu, como o majong, para jogar dominó, mas o baralho estava incompleto.

Eu estava contente por ser um jogo tão simples e queria jogar, mesmo com o baralho incompleto, mas a miúda não queria.

Estava chateada.

«Maldito baralho incompleto!»

Era o seu comentário, antes de se levantar.

Sobre uma confissão

Sonho LXXXIII


Estavam várias pessoas à mesa, numa grande mesa cheia de gente cuja companhia era agradável para a Francisca.

A seu lado, alguém que parecia querer impressioná-la falava de uma produção de vinhos requintadíssimos, como se isso fosse uma coisa realmente digna de interesse.

Ela ria-se, bastante divertida.

Dizia que isso pouco lhe interessava, uma vez que era alcoólica e que tencionava fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para se manter sóbria até morrer.

As pessoas ficavam tão desconcertadas e com uma expressão de tal choque nos rostos que ela escorregava pela cadeira e ficava debaixo da mesa.

A mesa era interessante lá por baixo, por causa da toalha escura. A toalha era pesada e comprida e tocava no chão forrado de alcatifa, enquanto uma penumbra esverdeada e suave se coava através dela.

Além disso, era curioso ver as pernas e os pés das pessoas, calçados com os sapatos.

Havia uma ou duas pessoas que descalçavam um dos pés, ou que tinham um pé meio fora do sapato.

Parecia que estava dentro de uma tenda e, por causa disso, a Francisca sentia-se como uma criança, protegida, escondida e entusiasmada por estar dentro de uma habitação tão engraçada.