Os erros de juízo podem levar à morte

Sonho CCLXVI


F. de Riverday seguia com um estudante numa carroça puxada por dois cavalos, em galope desenfreado.
 
Os cascos batiam com força na estrada e as madeiras da carroça rangiam.
 
Seguiam pela estrada deserta quando de súbito se lançou diante deles um revolucionário comunista com uma espingarda em riste.
 
Não é coisa que exista actualmente, um revolucionário comunista.
 
Onde está a revolução?
 
Um movimento que abana pela raiz o podre de uma ordem estabelecida e ao mesmo tempo arrasta massas poderá alguma vez ser verdadeiramente revolucionário?
 
A massificação e a revolução não serão profunda e tragicamente incompatíveis?
 
Ao disparar, o pretenso revolucionário atingiu o estudante, mas a F. de Riverday salvou-se atirando-se ao chão.
 
Rastejou pelo fundo da carroça para pedir ajuda.
 
Os segundos marcados pelo batimento do seu coração passavam depressa demais e o que era realmente urgente e não podia esperar, esperava.
 
Eram ambos absolutamente mais revolucionários que o atirador, ainda que com armas muito distintas.
 
Tinham sido alvejados apenas por causa do seu aspecto burguês. 

O momento de fazer alguma coisa

Sonho CCLXV


Estava de pé no meio da sala, ao lado de um piano de cauda, quando as paredes da casa começaram a tremer.
 
- Um sismo!
 
Muito rapidamente, tentei lembrar-me de tudo o que ouvira dizer sobre sismos. Mas parecia-me de repente que havia um conjunto de acções que eram incompatíveis umas com as outras. Deveria abrigar-me debaixo de uma mesa, do piano, de uma ombreira de porta, ou deveria correr para as escadas do prédio, que eram de cimento armado? Devia ter prestado mais atenção a todas essas informações, quando as lera e ouvira. E os gatos? Como poderia pegar nos dois gatos que eram enormes ao mesmo tempo?

Na verdade, não havia tempo para nenhuma destas ponderações.

Como são restritas as nossas possibilidades de acção no tempo que duram três segundos!
 
Vi o chão inclinar-se sob os meus pés e, como nem sequer num dos animais podia pegar, pensei:
 
- Cheguei àquele ponto em que não vale a pena fazer nada. Se o destino quiser que fiquemos intactos debaixo de uma viga qualquer, ficaremos. Se não, rezemos magicamente para que ao menos a morte seja rápida e indolor.
 
Deixei-me ficar totalmente imóvel, entregando-me ao deus do meu entendimento, mas nada aconteceu.
 
A casa não se movia uma palha.
 
- Acabou? - pensava eu.
 
Parecia-me que chegava o momento de fazer alguma coisa. 

Ingmar Bergman

Sonho CCLXIV


Nos Morangos Silvestres existe uma carroça que leva um morto, correndo mais do que pode a sua carcaça, e, em Fanny e Alexander, um moribundo.
 
Essa carroça, estalando contra o chão em todas as juntas, desconjuntando-se na madeira como se fossem nossos os seus ossos, passou a trilhar os meus sonhos com muita frequência. Descia agora numa velocidade alucinante pela estrada em espiral que rodeava uma alta montanha, toda bordejada de perigosas e angustiantes ravinas.
 
Quem conduzia era uma rapariga de cabelos revoltos e olhos fixos, mas, quando me viu, foi tomada de uma espécie de pudor, abrandou a velocidade e deixou-me subir.
 
Fizemos ainda uma grande parte do caminho como se fosse um passeio, tranquilamente, mas em silêncio absoluto. Estávamos longe do sopé da montanha e era tão triste e cinzenta toda a paisagem, que um peso enorme me pendia sobre o peito, tirando-me o ar.
 
Eu suspirava de um modo muito sonoro, por causa dessa falta de ar.
 
Os ramos torcidos e negros das árvores e os penhascos agudos e cinzentos davam-me uma vontade absurda de chorar.
 
Quando olhei para os escuros abismos que rodeavam a estrada, as lágrimas começaram a correr dos meus olhos em corrente e eu soluçava, com o rosto enterrado nas mãos.
 
A rapariga voltou-se para trás e disse-me:
 
«Acho melhores saíres. Continuas a pé.»
 
Fiquei de pé, parada nas estrada, com as lágrimas a caírem dos meus olhos, e vi a carroça disparar numa corrida alucinante, numa velocidade que a sua frágil matéria não podia suportar.
 
Numa curva apertada a carroça saiu da estrada e ainda levantou voo sobre o abismo.
 
Senti-me como se fosse os cavalos, com as patas perdidas no ar, sobrevoando em segundos a própria morte.
 
Não podia compreender o sofrimento dos animais.
 
O sofrimento dos animais era ainda mais insuportável que a imaginação do infinito.
 
Agora tinha uma aguda falta de ar, e pensei que talvez fosse morrer.
 
A rapariga voou pelo ar e ficou sobre o pico agudo de um penhasco durante uns segundos, rodeada de chamas.
 
É possível que nesse momento a rapariga que parecia um ícone num altar, rodeada de pequenas chamas que não chegavam a tocar-lhe nos pés, tivesse mudado de ideias.

Mas o momento não durou mais que um segundo.
 
Foi talvez Deus quem a fulminou com um relâmpago.


O mar e os mortos

Sonho CCLXIII


Via sob as ondas os corpos que subiam à superfície do mar.

Que visão...
 
Afinal era o meu corpo que subia à superfície - era eu que tinha morrido.
 
Se tinha morrido, como era possível que me visse?
 
Não. Talvez visse agora estes corpos a subir à tona do mar por causa da história daquele assassino dinamarquês que deliberou afundar um submarino, construído e projectado por si mesmo ao longo de anos com paixão, para poder matar e torturar a jovem jornalista que decidira entrevistá-lo.
 
Perguntaram os delegados da justiça dinamarquesa, pois se era verdade que a rapariga tivera um acidente, como rezava em sua defesa o assassino, e morrera no interior do submarino, porque tinha o homem serrado o corpo em bocados antes de o sepultar no mar.
 
«O que se faz quando temos um grande problema?» - respondera ele.
 
«Dividimo-lo em partes mais pequenas.»

Extraordinária resposta!...
 
Que estranhos são os seres humanos que habitam a terra!
 
Quantas almas desconhecidas e inimagináveis!
 
Que pensaste, homem? Que sentiste?
 
A rapariga seria, com certeza, extremamente forte.
 
Cada bocado do corpo da rapariga subiu à tona para contar a sua história.
 
O primeiro bocado foi visto por um ciclista. A história não ficou debaixo do mar.
 
Os nossos sonhos não conhecem a morte.
 
Só conhecemos, sem que realmente a conheçamos, a morte dos outros. 

minha casa