Crianças 6

(Quando as «marcas» ainda se confundem com «qualidades». Diálogo com Rodrigo, de seis anos.)



- Que belas calças, Rodrigo, bem quentinhas!

- Sabe, Professora, é que eu detesto estas calças. Têm os pelos ao contrário - e picam. Têm os pelos voltados para dentro. São calças peludas. São da marca «Peluda».



Odilon Redon, «A aranha sorridente», 1881,
Museu do Louvre


 

Sobre as novas tecnologias

Sonho CLXV


F. de Riverday descia tranquilamente as escadas até ao momento em que se apercebeu que as escadas não eram realmente escadas mas um espaldar de ginásio com muitos metros de altura.
 
Quando olhou para baixo, Riverday sentiu uma vertigem que quase a fez perder o equilíbrio e cair.
 
Seria a sua morte. Segurou-se com força com ambas as mãos e olhou de imediato para cima, onde leu, escrito numa tabuleta bem visível:
 
 
VEJA COMO OS SEUS PÉS PARECEM MAIORES
QUANDO OLHA PARA BAIXO
GRAÇAS ÀS ESCADAS QUE LHE PROPORCIONAMOS

 
«Não era com vocês que eu queria falar, seus propagandistas de merda.» - pensou a Riverday - «Eu só queria ter uma conversa com Deus.»
 
Imóvel, Riverday gritou por ajuda, mas ninguém tinha tempo. Todos corriam nalguma direcção.
 
Então deixou cair a mala com o telemóvel, os documentos, a carteira, o casaco, o cartão de cidadão e tudo o mais que lhe pesava.
 
Talvez alguém suficientemente bom ou amável se encarregasse de lhe devolver as coisas.

Riverday desceu então um degrau de cada vez, com longas paragens para fechar os olhos e respirar.

Demorou muito tempo. Por fim, quando chegou cá a baixo deu de caras com o seu primeiro amor, o único que escolhera sem a interferência mágica de uma atracção sexual, afinal, o único em que apenas a má sorte, e não a luxúria, a perdera.

E como a conversa era agradável...

Ele parecia interessar-se genuinamente pelas suas actividades, sem segundas intenções ou, como dizem os ingleses, sem uma «hidden agenda».

Estava agora casado e tinha uma filha, e ambos conversavam sobre uma amiga que era especialmente talentosa com a câmara, mas que não tinha nenhuma necessidade de filmar.

«Nem só o talento faz o artista.» - comentou a Riverday.

Porque os objectivos dessa rapariga consistiam em sair de Portugal para viver num país mais desenvolvido e conseguir assim uma vida estável e materialmente rica.

Riverday assistia ao filme do seu ex-namorado sentada ao lado da sua mulher - uma de duas raparigas que talvez pudesse ter amado, na juventude.

Ela mantinha esses cabelos suaves e curtos que eram tão macios ao toque e que a faziam flutuar entre o rapaz e a rapariga.

Como tinha deixado cair o antigo, a Riverday tinha agora um novo telemóvel que produzia um fumo (parecido com aquele que invade os palcos nos momentos de mistério) que lhe permitia voar.

Ao que chegam as novas tecnologias!...

Então a Riverday produziu com a sua pequena máquina uma grande nuvem de fumo de onde saiu montada a voar, alegremente.
 

Pepe Mujica

Fragmento 184

 
Presidente Urugauio entre 2010 e 2015.
Esteve preso durante catorze anos em luta contra a ditadura.
Legalizou o aborto, o casamento entre homossexuais e o comércio de erva.
Vivia de uma forma simples.
 
 
«Não sou pobre. Sou sóbrio, com pouca bagagem.
Vivo com o suficiente para que as coisas não me roubem a liberdade.»
 

O nojo

Sonho CLXIV


No amplo e luxuoso apartamento com vista sobre o mar, cada coisa, desde o piaçaba, até ao suporte do rolo de papel higiénico, alardeava, mais do que a função ou o gosto, o preço.
 
E mais do que a personalidade genuína dos seus habitantes transparecia nesses objectos de que se rodeavam a sofisticação um pouco pedante e o profissionalismo do decorador.
 
Chegara de um país distante e depois de uma longa viagem a matriarca, a mãe do dono da casa, que, abrindo o decote e, apesar da sua idade, expondo uma mama fofa e cheia, distribuía leite por toda a família, sacudindo o peito.
 
Todos bebiam com beatitude, os filhos, os netos e as noras, mas, pela contracção subtil dos músculos do rosto de uma delas, quando se voltou de costas, estugando discretamente o passo em direcção ao lavabo social, pude observar que se continha para não vomitar sobre o dispendioso e enorme tapete persa, imaculadamente limpo. 

A morte de Bergotte

Fragmento 183


«A [morte] de Bergotte surgiu na véspera (daquele dia), quando assim se confiara a um desses amigos (amigos? inimigos?) de excessivo poder. (1) Morreu nas circunstâncias seguintes. Devido a uma crise de uremia bastante ligeira tinham-lhe prescrito repouso. Mas como um crítico havia escrito que na Vista de Delft, de Vermeer (emprestado pelo museu da Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele adorava e julgava conhecer muito bem, havia um pano de parede (de que ele não se recordava) tão bem pintado que, visto em separado, era como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza que se bastaria a si mesma, Bergotte comeu umas batatas, saiu e entrou na exposição. (2) Logo aos primeiros degraus que teve de transpor foi acometido de tonturas. Passou diante de vários quadros e sentiu a impressão da secura e da inutilidade de uma arte tão artificial e que não valia as correntes de ar e de sol de um palazzo de Veneza ou de uma simples casa à beira-mar. Chegou enfim diante do Vermeer, que recordava mais resplandecente, mais diferente de tudo o que conhecia, mas no qual, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez numas figurinhas de azul, na areia que era cor-de-rosa e, enfim, na preciosa matéria do pequeníssimo fragmento de parede amarela. As suas tonturas aumentavam; como uma criança atrás de uma borboleta amarela que quer apanhar, não tirava os olhos do pequeno e precioso pano de parede. «Era assim que eu devia ter escrito», dizia. «Os meus últimos livros são demasiado secos, devia ter aplicado diversas camadas de tinta, devia ter feito com que a minha frase fosse preciosa em si mesma, como este pequeníssimo fragmento de parede amarela.» Entretanto não lhe escapava a gravidade das suas tonturas. Numa celeste balança aparecia-lhe, em cima de um dos pratos, a sua própria vida, enquanto o outro continha o pequeno fragmento de parede tão bem pintado de amarelo. Sentia que imprudentemente trocara a primeira pelo segundo. «E, no entanto», pensou, «não queria ser para os jornais da tarde a notícia sem importância desta exposição.»
Repetia de si para si: «Pequeno pano de parede amarela com um alpendre, pequeno pano de parede amarela.» Entretanto deixou-se cair num sofá circular; e de repente deixou também de pensar que a sua vida estava em jogo e, voltando ao optimismo, disse de si para si: «É uma simples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, isto não é nada.» Sofreu uma nova crise e rolou do sofá para o chão, e todos os visitantes e guardas vieram a correr. Estava morto. Morto para sempre? Quem poderá dizê-lo? É evidente que as experiências espíritas, tal como os dogmas religiosos, não provam que a alma perdure. O que se pode dizer é que tudo se passa na nossa vida como se nela entrássemos com o fardo de obrigações contraídas numa vida anterior; nas nossas condições de vida neste mundo não há nenhuma razão para que nos julguemos obrigados a fazer o bem, a ser delicados, mesmo a ser corteses, nem para que o artista ateu se julgue obrigado a recomeçar vinte vezes uma obra quando a admiração que ela virá a provocar pouca importância terá para o seu corpo comido pelos vermes, como é o caso do pedaço de parede amarela que um artista para sempre desconhecido, apenas identificado sob o nome de Vermeer, pintou com tanta ciência e refinamento. Todas estas obrigações, que não são sancionadas na vida presente, parecem pertencer a um mundo distinto, fundado na bondade, no escrúpulo, no sacrifício, num mundo completamente diverso deste, e do qual saímos para nascer nesta terra, porventura antes de para lá voltarmos para tornarmos a viver sob o império dessas leis desconhecidas a que obedecemos porque trazíamos em nós o seu ensinamento, sem sabermos quem nele as havia traçado: essas leis de que nos aproxima todo o trabalho profundo da inteligência e que apenas são invisíveis - se o são! - para os tolos. De modo que a ideia de que Bergotte não estava morto para sempre não deixa de ser verosímil.

Enterraram-no, mas durante toda a noite fúnebre, nas vitrinas iluminadas, os seus livros, arrumados em grupos de três, velavam como anjos de asas abertas e pareciam ser, para aquele que já não existia, o símbolo da sua ressureição.» (3)

Vermeer, Vista de Delft, 1660-1661, óleo sobre tela, 98 cm x 118 cm

Onde está o pequeno fragmento de parede amarela, no quadro de Vermeer?

É aquele que brilha como uma promessa atrás do castelo de duas torres?

Todas as reproduções são pobres quanto a captar esta «matéria preciosa» de que nos fala o texto.

E como falar desta coisa concreta, real, subtil e difícil e que apenas entrevimos de quando em quando, mas cuja memória resistente nos faz colocar a vida num dos lados da celeste balança de pratos?

Esta descrição da morte de Bergotte (aliás, extraordinária) é afinal mais um modo de dizer a Ética de Espinosa.

(1) Narcóticos.
(2) «Petit pan de mur jaune», que o tradutor traduz por «pano de parede amarela». Porém, esta tradução não parece fazer sentido. O meu fraco francês não me permite propor uma alternativa, mas a ideia é que seria um pedaço de parede amarela.
(3) Proust, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. V, pp. 179-180, tradução de Pedro Tamen.


Ready-Mades

Fragmento 182




 
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  READY-MADE nº 304 [em 14-01-2016, Casa Sapo]
 
 
 
 
Orlando I é o autor natural de todos os Ready-Mades.
 
Trata-se de um gosto singular e que explico por duas razões. 
 
Em primeiro lugar, por uma intrínseca inclinação para o sarcasmo.
 
Em segundo lugar, pela renúncia à fé.
 
Orlando I é um desses moralistas ao mesmo tempo pragmáticos e trágicos que para sempre permanecem suspensos no atalho que Kant resolve na Crítica na Razão Prática, quando aceita a necessidade moral subjectiva da existência de Deus como condição para poder pensar um sumo bem, um máximo bem.
 
O esforço e a argumentação de Kant na Crítica da Razão Prática são tão notáveis que nos comovem até às lágrimas, até ao amor.
 
Para Orlando I, pelo contrário, não chega a haver nunca nenhum tipo de consolação.
 
Quando o absurdo e a violência e a tragédia do mundo humano atingem o limite do insuportável, existe sempre e ainda, como último recurso, o humor.
 
Um esgar de moribundo num extremo de dor, ou um soluço mortal em que se respira pela última vez.


Os livros e a «pequena terra»

Fragmento 181



De que serve viajar, se para todo o lado levamos a parda paisagem do nosso pequeno eu?

Para quê palmilhar o mundo, se sempre e por todo o lado nos encerramos nas mesmas  e iguais paredes de nós-próprios?

Protegidos pelos hábitos do pensamento rotineiro, repetido, sem turbulência; cegos para os defeitos de carácter que nos fariam realmente sonhar com ser outros; comodamente instalados no conforto de um qualquer meio de transporte ou de um rico quarto de hotel, será que podemos chamar a uma tal viagem - viagem?
 
É que não existe nada de mais pequeno e parasitário na alma dispersa da humanidade sucessiva do que essa zona paradoxalmente cordial e autoritária com que embandeiramos os nossos corpos sociais - o eu. É ele o principal inimigo a abater, lançando mão de todas as estratégias, é ele o alvo de todos os exercícios, de toda a disciplina de destruição. 

«Afinal, viajar é sentir». Dizia o Álvaro de Campos nesse espantoso poema em que ele mesmo se descreve como um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio de estar dentro do seu corpo, de não transbordar da sua alma. Que maneira incrível de abolir um eu!...

Afinal - pensamos - viajar é pensar. Experimentar, sim, também, mas num outro plano. Por exemplo - experimentando escrever. Ou melhor, tudo o que leva até lá, e depois de lá. Sem câmara portátil, sem fotografias simpáticas, sem registo de identidade, sem boletim de vacinas e sem garantia de regresso. E não podemos arrogar-nos sequer de estar completamente conscientes, neste processo. É por essa razão que uma tentativa de descrição seria ainda inferior à memória de um sonho.

Viaja-se sem nenhum tipo de iniciação, sem prazer e sob o jugo de uma necessidade implacável. Porque existe uma tal violência no exercício de sentir; existe uma tal franja insensível do insuportável no exercício de sentir; existe um tal limite implacável em que pegamos fogo e nos consumimos até ao estriamento, até ao nada; uma tal além-dor que nos despega do corpo como uma folha morta e sem-sentido; e existe uma tal dificuldade em pensar; tantas barreiras abstractas a remover - imensas, pesadas, inertes, invisíveis - e depois, mesmo depois de tudo, uma tal vertigem; que tudo é risco, nesta destruição.

É neste contexto que Deleuze fala de «prudência», de «reservar uma pequena terra». E a minha pequena terra - é ler. É de lá que parto para outras experimentações. Como agora, para falar da morte de Bergotte diante de um quadro de Vermeer, num livro de Proust.

Mas já não faz sentido falar imediatamente da morte de Bergotte.