Sobre a necessidade de fazer arder os manuscritos

Sonho CCV



Quando a Françoise abriu a porta, o homem entrou e disse:

- Rápido. Passa para cá a arca.

Mas não seria a arca de Fernando Pessoa. 

A Françoise observou minuciosamente o rosto do seu interlocutor, em busca de um traço, na dentição, dos famosos caninos dos vampiros.

De qualquer modo, uma vez que a arca não era tão comprida como um verdadeiro caixão, o homem não poderia dormir confortavelmente dentro da arca.

E, mesmo que o homem precisasse da arca para dormir, como bom vampiro que era, a Françoise não queria, de modo nenhum, dar-lhe a arca. 

- Eu não sou um vampiro. - assegurou o homem.

Mas a Françoise não acreditava. Recordavam-lhe os chacais, os abutres e as hienas esses que, depois dos leões já terem comido a melhor parte, ainda andavam de roda da carcaça, com o intuito de matar a fome.