Sobre a angústia que pode causar a aplicação rigorosa do princípio da indeterminação nas nossas vidas

Sonho CCLXXIV


Anaïs D. cometera a imprudência de se apaixonar de novo por um antigo amor.
 
Passado um longo intervalo de silêncio, teve a alegria de receber uma mensagem, só que não conseguiu perceber o significado do que estava escrito.
 
Era um desses casos comuns em que as perguntas são inúteis.
 
Anaïs D. olhou para o céu e viu um conjunto de lustres de cristais que planavam entre as nuvens, como se fossem discos voadores.
 
«Então agora as coisas são assim?...» - interrogou-se a Maria do Mar. - «Existem coisas destas a voar pelo céu?...»
 
Viu também um enorme rochedo flutuante que era exactamente igual ao daqueles famosos quadros de Magritte, com a diferença que, no interior, anichada numa espécie de gruta, estava uma maravilhosa cidade iluminada que era tão bela como as luzes ao longe quando guiamos na autoestrada ao lusco-fusco, com aquela incrível qualidade suave e leitosa, transparente e difusa, como um pico máximo da sensualidade possível no mundo.
 
«Como é que havemos de despedir-nos desta vida, se nos são dadas a ver estas coisas?»
 
Anaïs D. elaborava teorias que respondessem às suas perguntas, como um cientista que tentasse compreender a origem da matéria, ou um filósofo que tentasse destrinçar o sentido da vida.
 
Porém, perante todas essas teorias que porventura pudessem trazer-lhe um pequeno grão de alegria, tudo o que podia realmente dizer era: «Não sei.»
 
Que fazer?
 
Anaïs D., como todos a quem a lucidez varre, sabia que nada se faz quando não se sabe o que fazer.