Sobre passagens e portagens

Sonho CCCXVII

Agora havia portagens por todo o lado e em todas as estradas, não apenas nas auto-estradas. Anaïs, para sair do sítio onde morava, tinha de pagar portagem. Para sua surpresa percebeu que o portageiro era um dos seus antigos amores, Biagio Yamagutti. Ele não tinha sido bom com ela, especialmente por causa das suas circunstâncias e problemas pessoais. Anaïs, para não ser uma pobre inquilina dessas circunstâncias, zarpara. Mas Biagio Yamagutti tinha envelhecido bem e estava mais bonito do que nunca. Que lindos olhos azuis ele tinha!... Dançava-lhe no semblante uma inteligência nova e um fino humor, um misto de alegria e desprendimento relativamente aos desaires da vida, como se tivesse ganhado uma perspectiva mais livre e lúcida, que alguns alcançam precisamente na velhice. Antes parecia dominá-lo uma preocupação atávica com as demonstrações de poder económico e prestígio social, o que lhe encolhia a alma. Mas Anaïs estava perplexa: um músico do seu calibre, a cobrar portagens... Nunca se sabe que caminhos pode tomar o destino. «Ficaste mal de finanças?» - perguntou Anaïs. Ele encolheu os ombros e sorriu com aquela nova displicência tão elegante. Havia uma grande fila, por isso, não falaram mais - Anaïs pagou a portagem e seguiu. Sempre que não há alternativas, é preciso secar as lágrimas. Tocar piano já é chorar com a madeira e as cordas. Passam os séculos e as árvores continuam a levantar-se do chão. O caminho é tão belo... Seguir o caminho é sempre uma boa acção da inteligência pragmática. 

Imagem criada com ajuda da AI