Sobre sapos e princesas
Sonho CCCXVIII
Era uma vez um príncipe que estava apaixonado por uma princesa, mas a princesa estava presa numa gruta guardada por três dragões, dois crocodilos e um jacaré. O príncipe pegou na sua espada, montou no seu cavalo e foi salvar a princesa. Derrubou os três dragões, os dois crocodilos e o jacaré, e, pegando na princesa, foi ao castelo dos seus pais, o rei e a rainha, pedi-la em casamento. Porém, os pais não concordaram com o casamento. Tinham uma filha mais velha que precisava de casar primeiro. Disseram: «Não podes casar com a filha mais nova. Tens de casar com a filha mais velha.» Esta filha era vítima de um feitiço que a tinha tornado muito feia. Além disso, apresentou-se no colo da ama. «Não te iludas.» - disse o rei. «Parece uma criança, mas já tem sessenta e quatro anos e não pode morrer solteira. Nós também não aparentamos a nossa verdadeira idade, por causa deste feitiço.» O príncipe ficou desolado. Então foi ter com os primos dos reis, o rei gago e a rainha surda, e perguntou-lhes o que havia de fazer. Não foi fácil, pois a rainha surda não ouvia e o rei gago tinha dificuldade em fazer-se entender, mas por fim lá lhe disseram para ir ter com a fada madrinha. Contudo, não era apenas uma fada madrinha, eram três fadas madrinhas. As fadas madrinhas pegaram nas suas varinhas e fizeram: "Abracadabra, racopatraco, que toda a gente se transforme em sapo." E assim foi. O príncipe, as duas princesas, os três dragões, os dois crocodilos, o jacaré, o rei, a rainha, a ama, os primos reais e até as três fadas madrinhas, todos se transformaram em sapos, sapos verdes, feios, enormes e cheios de vivacidade e alegria. E, como no mundo dos sapos não existem complicações deste género e com esta gravidade, viveram todos felizes para sempre.
Sobre passagens e portagens
Sonho CCCXVII
Agora havia portagens por todo o lado e em todas as estradas, não apenas nas auto-estradas. Anaïs, para sair do sítio onde morava, tinha de pagar portagem. Para sua surpresa percebeu que o portageiro era um dos seus antigos amores, Biagio Yamagutti. Ele não tinha sido bom com ela, especialmente por causa das suas circunstâncias e problemas pessoais. Anaïs, para não ser uma pobre inquilina dessas circunstâncias, zarpara. Mas Biagio Yamagutti tinha envelhecido bem e estava mais bonito do que nunca. Que lindos olhos azuis ele tinha!... Dançava-lhe no semblante uma inteligência nova e um fino humor, um misto de alegria e desprendimento relativamente aos desaires da vida, como se tivesse ganhado uma perspectiva mais livre e lúcida, que alguns alcançam precisamente na velhice. Antes parecia dominá-lo uma preocupação atávica com as demonstrações de poder económico e prestígio social, o que lhe encolhia a alma. Mas Anaïs estava perplexa: um músico do seu calibre, a cobrar portagens... Nunca se sabe que caminhos pode tomar o destino. «Ficaste mal de finanças?» - perguntou Anaïs. Ele encolheu os ombros e sorriu com aquela nova displicência tão elegante. Havia uma grande fila, por isso, não falaram mais - Anaïs pagou a portagem e seguiu. Sempre que não há alternativas, é preciso secar as lágrimas. Tocar piano já é chorar com a madeira e as cordas. Passam os séculos e as árvores continuam a levantar-se do chão. O caminho é tão belo... Seguir o caminho é sempre uma boa acção da inteligência pragmática.
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| Imagem criada com ajuda da AI |
Fragmento 160 (cartas de António Pizarro)
A única coisa a fazer: entregar-se à existência. Parece simples. Pelo contrário, é uma arte e uma ética bem difícil. Deixar-se ir na própria existência, fazer o que é preciso fazer. Não lutar em vão contra a existência, não desperdiçar forças em lutas vãs e tristezas estéreis. O que é preciso fazer? É preciso lavar as mãos e, com cuidado, todo o corpo, por exemplo. É preciso dormir - e depois levantar-se. Porque a todos os dias pertencem infinitos gestos. Saber quais são os gestos de cada existência é um exercício de lucidez, perspicácia, engenho, criatividade e fluidez. Na leveza espontânea de um bailarino estão muitas horas de treino. Ele abriu o corpo, fortaleceu os músculos, alongou-se. Assim no espírito que se entrega estão muitas horas de treino. É uma técnica, como a das instruções ao cozinheiro, do Dogen. Ele ensina a separar o arroz da areia com amor. Ensina a tratar os utensílios da cozinha e os tachos como se fossem a pupila dos nossos olhos. Ensina que um alimento de luxo não vale mais que um alimento pobre. Ensina que depois de usados os pratos devem ser arrumados, com ordem, uns por cima, outros por baixo. Ensina como se organizam as ementas e se fazem as contas das porções por cada pessoa. É nisso que pensa o cozinheiro, durante a tarde. Ensina que nada deve ser desperdiçado. E porquê? Porque é que a técnica de um monge japonês do século XII começa na cozinha? Porque entregar-se à existência começa no tempo exacto, no sentido de um agora que se expande infinitamente. Não interessa tanto "o quê" como "o como." Entregar-se à existência passa por uma determinada postura interior, uma abertura, uma suspensão, um estado de alegria pela oportunidade de existir. Implica uma delicadeza e uma visão fina, aguda, atenta e livre. O tempo urge, mas não pode ser apressado. O dever é premente e, no entanto, não pode deixar de ser leve. Em cada situação existe uma oportunidade. Escolhes a postura, o pensamento, a visão e a atitude. O grão da liberdade é ínfimo e infinito ao mesmo tempo. Não pode escorregar entre os dedos, como um grão de areia. Porque aí mesmo encontras o universo todo, num grão de areia.
Crianças 16
Luisa M., de seis anos:
- Então Luisa, qual foi a melhor coisa do dia?
- Brincar com a Ísis.
- E brincaram a quê?
- Brincámos aos bebés malcriados, mas as meninas que faziam de bebés ficaram mesmo com muito medo.
- Então porquê, Luísa?
- Porque o lobo era muito estranho. A menina que fazia de lobo estava muito estranha.
- E tu tiveste medo?
- Não.
- A sério? Como não tiveste medo?
- Porque eu era a mãe do lobo.
As melhores camas de sempre, tanto para casais, como para solteiros
Sonho CCCXVI
Tinham sido inventadas as melhores camas de sempre, tanto para casais, como para solteiros. Estava precisamente a dormir numa delas. Faziam lembrar os "pulmões de ferro", inventados no início do século XX por Louis Agassiz Shaw Jr. e onde algumas pessoas passaram uma vida, mas que entretanto ficaram obsoletos com a invenção da vacina contra a poliomielite. Como seria bastante previsível, esta semelhança não era nada agradável, pelo contrário. Também faziam lembrar um caixão, ou um sarcófago, mas, na verdade, o mais extraordinário era que estas novas camas eram incrivelmente confortáveis. Estavam perfeitamente climatizadas por um "leitor do corpo" que se adaptava às singularidades mais subtis do seu ocupante. A cama tinha, não apenas um "leitor de corpo", mas também um "leitor da mente", que podia dialogar com os sonhos de cada pernoitante. Além disso, o facto de ser uma cama cilíndrica permitia que ela própria girasse sem que tivéssemos de dar voltas na cama. Não me parecia coisa muito simpática para os casais, serem assim rebolados em conjunto. Mas, para mim e para a minha gatinha, estava perfeito. Este cilindro também permitia que as pessoas pudessem dormir em qualquer lugar, mesmo que fossem sem-abrigo, tinham sempre a possibilidade de uma noite segura e tranquila. Os edredons eram óptimos: lavadíssimos, brancos, perfumados, leves e voluptuosos. A insonorização era total. Se alguém estivesse a fugir de bombardeamentos e passasse a noite em túneis de metro, os cilindros também eram úteis, em particular por causa dos seus duplos leitores da mente e do corpo, que podiam assegurar música, imagens e estratégias calmantes. Como todas as invenções que primam pelo engenho e sofisticação, porém, as suas falhas eram inúmeras e, na verdade, aos milhares. Precisávamos de estar permanentemente atentos e de ser engenhosos em soluções. Por exemplo, no meu caso, acontecia que estava perfeitamente vigilante, mas a máquina estava convicta de que eu dormia e que a minha vigilância era, na verdade, um sonho. "Estás avariado." - dizia eu, ao leitor da mente - "Estou acordada. Não consegues perceber isso?" Mas ele respondia: "Não estou avariado. Tu é que estás a sonhar que ainda não adormeceste." Com esta discussão, era impossível dormir. Não chegávamos a lado nenhum, era como se estivéssemos entalados num beco sem saída. Na verdade, era de uma comicidade inquietante, estar ali com uma insónia no meio dos voluptuosos e alvíssimos edredons. Uma coisa parecida com uma espécie de quizz que vi de raspão quando abri o motor de pesquisa da google: "Eis cinco perguntas que lhe vão permitir descobrir o grau da sua inteligência. Se responder sim a todas elas, vai perceber que é muito mais inteligente do que pensava."
Livro infinito
Sonho CCCXV
Este sonho era um debate de vozes interiores. Este sonho era apenas escrita, nunca tive um sonho assim. Não havia gente nem drama no meu sonho, mas o assunto era trágico. Eu apenas sonhava que pensava. Pensava em como as ideias e as crenças definem os seres humanos, isto é, a própria essência de se ser humano. "Crescei e multiplicai-vos." Disseram um dia os judeus, dando voz indirecta ao esplendor que se capta na infância. E o que se fez disso? O que se fez disso cobre todo o espectro que vai do paraíso ao inferno. A psicologia fala de desejo, de vários tipos de desejo (tanto para escrever sobre o desejo). E o que se faz disso? Espinosa, o mais lúcido de todos, falou de connatus - a alegria de perseverar na própria essência, de estar ligado a sim mesmo, ao mais íntimo de si mesmo. Mas como emergem as essências singulares, no meio de tanto ruído, ameaça, medo, dependência, caos e pressão social? A liberdade absoluta é apenas a das nossas ideias, mas mesmo essas ideias estão reféns, desde o início, de mil armadilhas, auto-ilusões, mentiras. Há quem nasça logo sob o selo da própria morte. A consciência aguda da morte traz de chofre o sem-sentido da vida. Para quê? Viver uma vida sem sentido, para quê? Enfrentar o caos, a violência, o sofrimento e todas as inumeráveis ameças da vida infernal e turbulenta, para quê? A esses, se querem ficar de pé, cabe inventar o seu "para quê". Descobrir a sua humanidade, ponto por ponto, a partir do zero. Esse zero não é um entretenimento ou uma manobra de diversão para passar o tempo. Não é uma morte adiada, na qual se procura acima de tudo algum conforto, segurança, divertimento e ócio, ou o esquecimento dessa decadência aguda e do golpe fatal, incontornável - por exemplo, alguma forma de anestesia, nas quais somos de uma criatividade pródiga. Chamo-lhe Deus, não encontro outro nome, mas devia encontrar. Vida. Força maior. Universo. Consciência plural, inimaginável. Penso no Solaris de Tarkovski. O planeta telepático, que os cientistas queriam destruir. Uma outra forma alienígena de consciência, muito superior à nossa. Quantas formas de consciência no infinito? Que ideia poderíamos compor assim, de Deus? Há um terror inato na contemplação da ideia de universo. No meu sonho escrevia mais, mais, mais. E pensava mais, mais, mais. Cada frase produzia um livro infinito.
As coisas que ficam por dizer
Sonho CCCXIV
Anaïs fora buscar Rostropovich, o seu primeiro amor, para saldar uma dívida de gratidão. "Quero dizer-te uma coisa, mas devemos falar com calma, cara a cara. Pode ser?" Ele estava muito engraçado, mais saudável e alegre. Também estava mais magro, como quando o conhecera e se apaixonara de repente. Tinha arranjado os dentes e permitia-se rir largamente e com humor, e Anaïs reflectia: "É extraordinário como estivemos juntos tantos anos e não me lembro uma única vez de o ver rir." Aquela tristeza dele pesara-lhe muito, ao ponto de não aguentar mais e partir para sempre, mas queria, apesar de tudo, agradecer-lhe, pois era uma pessoa que procedera com bondade. Iam de cadeira de rodas, com uma manta sobre os joelhos, era o seu meio de locomoção, antes de apanharem o carro, pois iam por uma espécie de caminho de cabras. Estariam já assim tão velhos? Anaïs viu ao longe a pequena quinta de dois amigos japoneses, Amie e Douglas, à beira do lago pantanoso. Douglas cultivava a sua horta com um amigo. "Olá! Olá!" Gritou Anaïs animada, enquanto explicava a Rostropovich que aquele era um casal muito simpático, de quem gostava muito. Porém, Rostropovich, apesar da longuíssima separação, teve um ataque de ciúmes e atirou-se ao lago, completamente vestido, de boné e tudo, para ser engraçado e ao mesmo tempo para travar conhecimento com Douglas. Mas Douglas tinha fugido de um regime violento e ficou extremamente assustado, a única coisa em que pensou foi em matar Rostropovich. "Ele é inofensivo! Ele é totalmente inofensivo!" - gritava Anaïs. Mas Douglas não sabia falar português. Disparou sobre Rostropovich e já passara tanto tempo que era evidente que Rostropovich se tinha afogado. Anaïs estava tão desesperada que nem conseguia pensar. "Onde está o corpo? Onde está o corpo?" - perguntava repetidamente, como se um corpo valesse uma alma.
O Frigorífico (1)
Quantos séculos
para construir um frigorífico?
Quantos séculos de esforço humano
e de ideias brilhantes?
Quanta democracia?
Quanta tragédia e quanta fome?
Quanto esforço, quantos gestos,
quantos milhões e milhões de gestos
para chegar a um frigorífico?
Falamos de um frigorífico
mas podia ser a penicilina,
o cloro, a roda, o fogo,
a anestesia e a vacina,
um relógio, o piano, o computador
ou um trompete.
Edison. Einstein. Curie.
Alguém sabe quem foram
William Cullen e Oliver Evans,
Jacob Perkins e James Harrison,
Karl von Linde e Fred Wolf Júnior?
Quanto esforço humano
e quanta alegria para estar de pé?
Quanto cuidado
e quanta vontade de viver?
(...)
Atchim.
Saiba porque é que os extraterrestres não nos contactam








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