The hell

Sonho CCLXXII


A Françoise abriu a porta de casa e encontrou dentro da banheira dois ladrões. Ficou tão surpreendida que os deixou fugir. Nada tinha sido roubado lá em casa, apenas havia coisas a mais. «Mas agora os ladrões, em vez de roubarem coisas, trazem coisas?» Havia dois limões e uma caixa de fósforos em cima da bancada. Para além disso, a Françoise descobriu uma bomba instalada no fundo de um dos armários da cozinha. Tinha escrito, em letras vermelhas contra um fundo amarelo:
 
 
THE HELL
 
E fazia tic-tac.

«Ah!...» - exclamou a Françoise - «Talvez a bomba sirva para rebentar com o quarteirão inteiro, ou, quem sabe, com a cidade inteira!...» A Françoise ainda pensou em correr o mais que pudesse sem avisar ninguém, mas não conseguiu abandonar o resto das pessoas à sua sorte. Foi chamado um especialista em desactivar bombas e ali ficou a trabalhar, de joelhos, com instrumentos minuciosos. A Françoise por sua vez ficou a observá-lo, contagiada pela seu auto-domínio e bravura. Se a bomba explodisse, voariam os dois pelos ares em mil pedaços. «Como consegue ter tanta coragem e sangue-frio, e continuar a trabalhar sob tanta pressão?» - perguntou a Françoise. «Qualquer altura é boa para morrer.» - respondeu o especialista. À Françoise porém não lhe parecia que nenhuma altura fosse boa para morrer. Para si, aquela resposta era um enigma.

 

Dupla pele

Sonho CCLXXI


Apercebi-me de repente que a superfície do meu corpo era um relvado. Comecei a arrancar aquela relva, que era como um pêlo, que saía facilmente e sem dor. Que estranho!... Não havia sangue, apenas estranheza. Por baixo desse relvado havia uma superfície que era exactamente igual aos fundos dos retábulos da pintura ortodoxa, um plano sensível ao toque, dourado e abstracto (pois não havia ideia nem juízo que lhe servisse de paralelo) e por onde circulava uma espécie de vertigem.
 

O salto

Sonho CCLXX


Tinham sido um casal feliz até à data em que ela decidiu dar o salto. Podia ver-se nas fotografias. Tinham um belo entendimento e apreciavam-se mutuamente. Um dia porém a rapariga decidiu lançar-se da escarpa de um abismo com centenas de metros de altura em direcção ao mar. Ele aplaudiu a ideia, que lhe pareceu destemida e grandiosa, e ela lançou-se, com um brilhante fato-de-banho que faiscava ao sol. Aquele segundo em que se arrependeram foi em vão. Foram precisos meios aéreos e náuticos para resgatar a rapariga que foi procurada durante horas no mar e que sobreviveu, contra todas as expectativas, mas sem nunca mais poder voltar a ser o que era. 

Os sonhos em que perdemos a roupa

Sonho CCLXIX


Já não sei porque carga de água teria perdido a minha roupa.
 
No espelho das aulas de dança é que tinha captado de um modo involuntário e pela primeira vez certos vislumbres de um corpo desconhecido - o meu. Porque todos os corpos têm um tema que não corresponde à figura, e esse tema tem um aspecto musical, como se fosse um contraponto. Trata-se de uma composição abstracta de linhas e planos que tecem uma harmonia única e peculiar e de que temos a visão clara no caso dos outros e sempre a visão opaca no nosso. Porque existe um contraponto entre linhas de movimento e extensões planas, nos corpos de toda a gente, e desse contraponto nasce uma postura que aparece toda enfeitada de afectos, como um pássaro enfeitado de penas. É uma composição viva e móvel de linhas e movimentos abstractos (porque não são figuras nem contornos objectivos), que nos faz dizer de alguém, por exemplo, que é uma pantera. E é também uma espécie de graça, muito evidente nas crianças e nos animais, mas por vezes mais apagada nos adultos. Certo nariz, certos olhos proeminentes, certos caracóis na nuca que de repente se tornam tão expressivos. No meu caso surpreendera inesperadamente umas linhas planas que nunca imaginaria ter e uma espécie de peculiar alegria e delicada altivez, que seriam insuspeitáveis. E agora que por um milagre da percepção pudera de certo modo vislumbrar um tema no meu próprio corpo, agora que conseguira uma tal proeza é que dava por mim nesta situação confrangedora.
 
Não fazia a mínima ideia de como sair condignamente do banho turco.
 

Flor

 
 
 
 
de Artur Borboleta
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