A única coisa a fazer: entregar-se à existência. Parece simples. Pelo contrário, é uma arte e uma ética bem difícil. Deixar-se ir na própria existência, fazer o que é preciso fazer. Não lutar em vão contra a existência, não desperdiçar forças em lutas inglórias e tristezas estéreis. O que é preciso fazer? É preciso lavar as mãos e, com cuidado, todo o corpo, por exemplo. É preciso dormir - e depois levantar-se. Porque a todos os dias pertencem infinitos gestos. Saber quais são os gestos de cada existência é um exercício de lucidez, perspicácia, engenho, criatividade e fluidez. Na leveza espontânea de um bailarino estão muitas horas de treino. Ele abriu o corpo, fortaleceu os músculos, alongou-se. Assim no espírito que se entrega estão muitas horas de treino. É uma técnica, como a das instruções ao cozinheiro, do Dogen. Ele ensina a separar o arroz da areia com amor. Ensina a tratar os utensílios da cozinha e os tachos como se fossem a pupila dos nossos olhos. Ensina que um alimento de luxo não vale mais que um alimento pobre. Ensina que depois de usados os pratos devem ser arrumados, com ordem, uns por cima, outros por baixo. Ensina como se organizam os menus e se fazem as contas das porções por cada pessoa. Ensina que nada deve ser desperdiçado. E porquê? Porque é que a técnica de um monge japonês do século XII começa na cozinha? Porque entregar-se à existência começa no tempo exacto, no sentido de um agora que se expande infinitamente. Não interessa tanto "o quê?" como "o como?" Entregar-se à existência passa por uma determinada postura interior, uma abertura, uma suspensão, um estado de alegria pela oportunidade de existir. Implica uma delicadeza e uma visão fina, aguda, atenta e livre. O tempo urge, mas não pode ser apressado. O dever é urgente e, no entanto, não pode deixar de ser leve. Em cada situação existe uma oportunidade. Escolhes a postura, o pensamento, a visão e a atitude. O grão da liberdade é infímo e infinito ao mesmo tempo. Não pode escorregar entre os dedos, como um grão de areia. Porque aí mesmo encontras o universo todo, num grão de areia.
