Sonho CVI
F. de Riverday estava no Casino Estoril, de pé entre as colunas douradas de um dos salões, vestida com um quimono de seda japonesa e toda nua por baixo.
Todo o seu corpo estava inteiramente depilado, não tinha um único pêlo, e, por isso, estava incrivelmente macio.
O chão era de mármore cintilante, branco como a neve, e parecia gelo.
Passava por F. de Riverday uma mulher muito alta e gorda, branca e um pouco curvada, com um vestido de noite cor-de-rosa e uma das maminhas a sair do decote.
Tal era a sua excitação, com a expectativa de ganhar numa das máquinas, que não se apercebia que tinha um mamilo de fora.
Apesar de ser gorda, a sua carne tinha um aspecto rijo e firme, como numa pintura de Picasso.
F. de Riverday tencionava prostituir-se, pois o seu plano era ganhar dinheiro para jogar nas máquinas, e, dessa maneira, poder tentar a sua sorte.
A sensualidade da seda do quimono a bater contra a sua pele ajudava-a a transitar em imaginação desse plano para o outro, desconhecido.
Porém, o que F. de Riverday fazia era sair do Casino e, na rua, levantar voo.
Dava uns passitos rápidos para descolar e, apanhando uma aragem, montava-se no vento.
«Olha!..» Dizia uma rapariga para um rapaz, que caminhavam lado a lado. «Aquela miúda consegue voar!...»
«Pois consigo.» Pensava F. de Riverday. «Eu consigo voar. É fácil.»
E o que ela fazia era sair dali a voar, com uma enorme alegria no corpo voador que se lançava no alto, entre os focos de luz transparente, os néons de luzes ácidas e irregulares e o veludo azul do céu estrelado.