Sonho CLXXI
A Francisca estava dentro do seu corpo, mas de um modo inédito.
Como Fred Astaire, Barak Obama ou como aquele que um dia lhe suscitara a mais paradoxal das paixões, tão paradoxal que ainda hoje não podia decidir se tinha sido útil pela intensidade ou terrível pelo perigo de a trazer à loucura, a Francisca habitava o seu corpo como um dançarino permanente.
Que maravilha!
Que aliado extraordinário, o corpo!
Mesmo sem dançar, mesmo sem fazer amor, mesmo sem dormir e sem nenhuma dessas actividades para as quais as energias ou o tempo se esgotam demasiado depressa, mesmo assim a aliança entre si e o seu corpo era tal que a Francisca se sentia habitá-lo como uma cascata, como um planalto ou como um prado de nuvens horizontais.
Que sonho!...
A Francisca virava-se para trás no banco da frente do automóvel com uma tal descontracção e fluidez que até a camisa que lhe caía sobre os ombros e a gola sobre o peito se compunham como os dois pares invisíveis de uma dança supra-humana.