Sonho CXI
Descobria um caminho mais curto para chegar a casa,
um trajecto mais rápido.
«Como é que nunca me ocorreu vir por aqui?»
Seguia por
um desses traçados ziguezagueantes entre as ervas rasteiras de uma colina,
lembrando-me de uma passagem de Marx em que ele compara as diferenças entre o
capital necessário para traçar um caminho rural, uma estrada ou uma linha
férrea e do corpo social que cada um desses investimentos implica.
Enquanto caminhava também pensava em Deleuze, quando ele fala do cão que fareja traçando o seu caminho
aos zigue-zagues, através da linha imprevisível do seu desejo (uma linha de curiosidade,
uma fome de mundo...).
Porém, de repente, chegava a um ponto em que o caminho estava
cheio de lama.
«Afinal, este caminho não é assim tão bom.»
Porque não
havia maneira de colocar os pés a não ser na lama.
Como tinha umas boas botas,
arrisquei-me a seguir em frente, mas senti a água a entrar dentro das botas e a
molhar as meias.
«Afinal, estas botas não são assim tão boas.»
De repente, a
água começou a subir e já me dava pela cintura.
Estava a ser arrastado por uma
corrente muito forte e pensava:
«Onde já vão as botas... Preocupado com umas meras
botas... Preocupado em não sujar os sapatos... E agora... Já só quero chegar
a casa!...»
No espaço de um minuto, as minhas expectativas estavam a descer
com uma velocidade alucinante para o nível básico da sobrevivência.
Conseguia
por fim agarrar-me as umas saliências que estavam nas paredes dos prédios e,
com muita dificuldade, vencia a corrente de água e de lama.
Em ambos
os lados da rua da minha casa havia prateleiras de ouriversaria com as jóias desarrumadas,
porque a inundação tinha passado por elas.
Entre o lixo, os ramos quebrados, as latas e as tábuas partidas que seguiam na corrente de lama estavam os colares, os diademas, as pulseiras de prata e os diamantes.
Conseguia ver uma coisa extremamente pequena, um brinco
de ouro com uma pérola, que ficara perdido do seu par.
Caíam-me as lágrimas dos olhos, enquanto reflectia no paradigma inverso ao da Lei de Lavoisier.
Na violência, e quanto ao imediato, tudo se perde - e nada se transforma.
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| Nuno Maria (2015) «When things go out of hand» Aqui |
