Auto-retrato com duplo

 
 
 
 
 
 


Auto-retrato com infinito

 
 
 
 
 
 


Auto-retrato com luz involuntária (2)

 
 
 
 
 
 
 
 


A vida e a morte não são compreensíveis

Sonho CCXLVII


Tinha de enterrar um homem que era um desconhecido.
 
Não sei porque me fora incumbida essa missão, mas tinha de a cumprir urgentemente.

Logo nesse preciso momento é que surgira a oportunidade de reencontrar o amor da minha vida, mas tinha de resolver este assunto primeiro.

Quem é que pode deixar um morto por enterrar?
 
O enterro dos mortos era um serviço público.
 
Liguei para uma casa mortuária, marquei o enterro, mas não consegui transporte, pois esse era um serviço privado.
 
Sendo assim, meti o caixão dentro do carro e dirigi-me para o cemitério, para acertar os pormenores.
 
Não sei como consegui fazer tudo isto sozinho, quando em geral são necessários quatro homens para transportar um caixão.
 
Cheguei ao guichet e, apresentando o meu caso, a senhora disse-me, com uma expressão escandalizada:
 
- O quê? Você trouxe o morto? Você não podia fazer nada disso!
 
Timidamente, respondi:
 
- É que o enterro já está marcado...
 
- Ah!... Nada disso!... - bramia a nobre senhora. - Você não sabe que o primeiro enterro é sempre falso?... É só o caixão que vem!... Não vem o morto lá dentro!...
 
- Mas como é que eu podia saber uma coisa dessas?
 
- Meu Deus!... Mas como é que você não sabe?... Não temos terra para tantos mortos!... Eles ficam em lista de espera, dentro dos frigoríficos, ou onde for possível que fiquem... O enterro é só um serviço que prestamos às famílias!

Desesperado, com o morto dentro do carro, eu sentava-me num banco a chorar, com esperança que alguém se compadecesse de mim e me ajudasse a resolver aquele imbróglio em que me metera.

Naquele contexto, porém, todos respeitavam a minha dor. Ninguém me perguntava porque chorava.

Estava preocupado, pois tinha deixado o carro aberto, mas quem iria roubar um caixão e um morto?

Certamente ninguém.

De resto, iria falhar o encontro com o amor da minha vida, queria lá saber do que se seguia.

Em desespero de causa, liguei para a minha mãe e perguntei:

- Então os primeiros enterros são sempre falsos? Os segundos é que são a sério?

- Pois claro. - exclamou ela do outro lado - Em que alhada é que te foste meter? Não te lembras que foi assim que enterrámos o teu avô e a tua avó? Que foi assim que enterrámos toda a gente?

- Mas então o caixão ia vazio? Não ia ninguém lá dentro?

- Pois claro que não. Então não sabes que não há terra para tantos mortos?

- E porque é que não me chamaram para o segundo enterro?

- Achámos-te demasiado abatido no primeiro, não íamos chamar-te para o segundo.

Eu pensava afinal na vacuidade de toda a minha meditação enquanto seguíamos em cortejo atrás do caixão que, sabia agora, estava vazio, enquanto seguíamos a pé cemitério fora e enquanto lançavam as primeiras pazadas de terra.

Pensava naquele som da terra a cair com um baque seco e vazio, tão imensamente vazio, pensava no ritmo das pás no meio do silêncio e de alguns soluços mal contidos, como os acordes finais de uma peça sem sentido, em que todo o combate, fosse com uma doença cega, fosse com a vida no seu frágil dia-a-dia, sempre à beira do abismo, fosse com o mundo que é tantas vezes de uma crueldade abusiva e de uma predação impensável, em que todo o combate parece acabar demasiado de repente e sem qualquer aviso prévio, e afinal todo esse equilíbrio precário de nos pormos de pé e nos cuidarmos, de inventarmos para as nossas vidas, ou um sentido, ou um desejo, ou uma missão, todo esse combate para extrair do dia um grão de liberdade, uma oração, uma linha de fuga, tudo isso se interrompia num único segundo, sem qualquer intervenção da nossa vontade.

«Se os caixões andam vazios, por onde andam os mortos?»

Era no que pensava, naquele momento.

Levantei-me por causa do carro, que tinha deixado aberto, e deparei-me com o carro vazio.

Alguém levara o meu caixão por engano.

Risquei o carro todo para tirá-lo daquele lugar e poder verificar se aquilo era mesmo verdade.

Queria lá saber da pintura do carro!...

Sentei-me na berma da estrada, avassalado.

Nem enterro, nem caixão, nem morto.

O desdobramento, isto é, a separação de si para si que opera o mecanismo da nossa consciência, quando se debruça sobre si, não constitui apenas uma tragédia.

Tinha a certeza de que, se continuasse a chorar, a cabeça me estalaria em mil bocados.

O desdobramento também pode ser uma estratégia de sobrevivência, como a do faquir que se desprende da dor ao desdobrar-se nela, ao contemplá-la como a uma estrela distante, e a nós também é útil quando nos ardem tanto as plantas dos pés que já não podemos mais erguer-nos sobre a terra que pisamos.

Tentava lembrar-me do título de um belo filme de Hitchcock que era sobre as aventuras e desventuras com um morto num caixão, ou fora de um caixão - seria The Trouble with Harry?

Por outro lado, se era certo que eu nunca seria o amor do amor da minha vida, também era certo que esta ideia, ou ideal, sobre «o amor das nossas vidas», bem podia ser enquadrada dentro daquelas que Kant define como resultados da patologia da nossa capacidade especulativa.

«Que belo enredo!...» - pensava eu, sentado no passeio.

Dava talvez para escrever um belo conto à maneira de Kafka, com um leve travo a Hitchcock.

O resto iria resolver-se por si.

Não é verdade que, no dia em que deixamos de restaurar as casas, as plantas e os ramos começam, mais tarde ou mais cedo, a brotar das paredes?

É que, pontualmente, estar nas nossas vidas como espectadores ou autores de enredos não deixa de ser uma bela estratégia, porventura tortuosa, mas eficaz, para suportar a realidade mais alucinante. 

Sobre a relação das percepções com o movimento da nossa imaginação

Sonho CCXLVI


Numa reunião, havia um homem que se apresentava do seguinte modo:
 
- R.V.
 
Interessadíssimo, eu observava-o minuciosamente, procurando não dar nas vistas.
 
O cabelo cinzento e um pouco longo, mas penteado com elegância e desprendimento, contribuía para uma aparência estrangeirada, levemente aristocrática.
 
Os traços do rosto, muito finos e muito puros, apesar da idade, pareciam denunciar uma certa austeridade, um certo ascetismo.
 
Havia qualquer coisa no seu rosto de incrivelmente intacto, uma essência que não se desagregava.
 
Ao contrário de certas pessoas que, com a idade, parecem desagregar-se debaixo da pele, ou como os demasiado gulosos ou lascivos, a quem a carne, como nos quadros de Bacon, parece sofrer uma tumefacção imperceptível e progressiva ao longo do tempo, este homem era magro e seco, um pouco altivo, elegante, discreto, parecia traçado a cinzel.
 
Seria um homem realmente belo, não fosse um incrível estrabismo que tornava impossível definir para que ponto da sala estaria a olhar, e, mais ainda, a marcada infelicidade, quase uma humilhação, que lhe transpirava por todos os traços do rosto.
 
Estava morto por ouvi-lo falar, para ver se conseguia  traçar a cartografia da loucura que fazia com que se apresentasse com as iniciais do nome.
 
Teria participado numa guerra?
 
Teria sido espancado, ou violado?
 
Teria vendido a alma ao diabo, a troco de nada?

Estaria arrependido de tudo, e impossibilitado de recomeçar?

De onde lhe vinha aquela humilhação?
 
Que pistas me daria o seu modo de falar?
 
Só no final das cartas em que não estamos de todo presentes é que insistimos em colocar as nossas iniciais, como se disséssemos: «Eis, de mim, esta fraca delegação.»
 
Ou então, na melhor roupa de cama, nos guardanapos de linho, nas camisas, bordam-se as letras que distinguem o nosso primeiro nome e o de família, mas num movimento oposto ao das cartas, para que essas coisas nos pertençam exclusivamente, para que não passem para mais ninguém.
 
Portanto, qual seria a natureza do movimento que orientava este homem marcado pelo sofrimento a falar deste modo?
 
Reservar-se, ou marcar a sua figura social como quem marca uma peça de roupa com uma propriedade exclusiva?
 
Mais ele ficasse em silêncio, mais eu teria elaborado um romance com todas as questões que me ocorriam em paralelo com a investigação da sua figura e do seu rosto, figura e rosto que eram como que os hieróglifos da sua vida, e teria talvez até conseguido especular e delinear o mapa da loucura que pudesse servir de suporte a um tão estranho comportamento.
 
Mal o homem abriu a boca e falou, porém, o movimento da minha imaginação interrompeu-se. O sotaque francês desfez o valor das iniciais que acabara de ouvir em português - Érre  Vê - e recompô-las em francês no nome comum, vulgar - Hervé.
 
Era um homem belo e infeliz, de meia idade, agudamente estrábico, sem aquele grão de loucura que eu desejaria cartografar.
 
 
 
 

Sobre uma pirueta infinita

Sonho CCLXV


Com os pés descalços, tentava fazer uma pirueta inteira sem o apoio da barra.
 
Para meu grande espanto, fazia, não uma, mas muitas, muitas, muitas piruetas.
 
Que alegria!...
 
A avó Edith também não tinha morrido.
 
Com os seus modos suaves, sugeria aperfeiçoamentos.
 
«O pé - mais para cima.»
 
«O joelho - mais para o lado.»
 
«En dehors!...»
 
«Abre.»
 
«Pé em conchinha.»
 
«Força.»
 
«Sobe.»
 
«Cabeça ao alto!...»
 
Por uma disciplina de humildade, mais do que por ambição, esforçava-me por obedecer a tudo.
 
Mas dizia:
 
«Oh avó... É só dançar por dançar...»
 
O que mais me agradava era aquela sensação de espiral. Uma espiral que se desenrolava ao alto.
 
E outra coisa que me fascinava era aquele branco. Um branco no pensamento.
 
Porque aquele impulso que se dava aos pés para girar era tão rápido que era impossível apanhá-lo com o pensamento.

Como é que o corpo dava a volta e sabia onde parar?
 
Ficava um branco na consciência, como um buraco, mas, mais que um buraco, porque um buraco é já alguma coisa, era um intervalo sem conteúdo.
 
Só se dava por ele porque estava entre e entre.

Como o sono.

Entre adormecer e acordar.
 
Entre uma coisa e outra coisa.
 
Entre partir e chegar.
 
Entre ficar de frente e de costas.
 
«Não podes ser tão egoísta.» - Dizia ela, dobrando mais o meu pé.
 
Mas não sei como o fazia, no meio da pirueta.
 
Essa avó sempre tivera poderes desconhecidos.
 
Onde estava ela agora?
 
«Se Deus é testemunha, a alegria também vale como acção de graças, não concordas?»
 
É que a pirueta nunca mais parava, nunca mais parava, nunca mais parava.
 

Sobre a coisa mais deliciosa

Sonho CCXLIV

 
A Maria do Mar reencontrou-se com D. e, em menos de um abrir e fechar de olhos, meteram-se na cama.

A pele da Maria do Mar ficou totalmente electrificada.
 
O que havia de sobremesa era Blanco y Negro, um gelado de nata feito em casa com molho de chocolate quente.
 
De um modo rápido e fugidio, D. passou dois dedos pelo molho de chocolate com nata derretida e meteu-os na boca.
 
Foi a coisa mais deliciosa.
 

Sobre o mar e a morte

Sonho CCXLIII


Era um dia de tempestade.
 
O mar estava revolto.
 
O hotel tinha vários andares, alguns por baixo do mar e outros sobre o mar.
 
Os andares por baixo do mar tinham vista sobre o fundo do mar e os andares sobre o mar tinham vista sobre o mar.
 
A Maria do Mar não queria dormir num quarto por baixo do mar.
 
Tinha medo das ondas, das tempestades e dos trovões.
 
Os quartos que tinham vista sobre o mar estavam degradados e por isso era necessário pintar todas as portas.
 
- Eu preciso de um litro de tinta. - disse o amigo da Maria do Mar.
 
- Eu preciso de setenta mililitros de tinta. - disse a Maria do Mar.
 
- Isso é pouco. - disse o amigo da Maria do Mar - O que vais pintar com setenta mililitros de tinta?
 
A Maria do Mar tinha horror ao desperdício. Na verdade, pensava esticar a tinta. Ficava doente com a ideia de que podia sobrar tinta e que então teriam de deitar fora o resto da tinta.
 
- É melhor pagarmos a alguém para pintar as portas. - disse a Maria do Mar.
 
- Assim aproveitamos o tempo para visitar os nossos mortos no cemitério. É uma forma melhor de passar o tempo. Muito melhor do que passar o tempo a pintar portas.
 
Sentar-se-iam à beira das campas, ainda que chovesse.

Em silêncio, mas falando interiormente, sem que ninguém de fora desse por isso.
 
 

Sobre a lingerie e o assassino

Sonho CCXLII

 
Ainda era Inverno, mas estava um belo dia.
 
Inspirada pelo sol, a Maria do Mar decidira tirar a roupa e caminhar pela areia na beira-mar, entre os rochedos, chapinhando alegremente nas poças.
 
Inesperadamente, deparou-se com um grupo de adolescentes que tinham tido uma ideia semelhante, mas que estavam adequadamente vestidos com fatos de banho e bikinis.
 
Convencera-se erradamente de que ninguém teria a mesma ideia, e agora ali estava ela, de cuecas e soutien, sujeita à reprovação de um grupo de adolescentes.
 
Apesar de considerar que havia muitos argumentos a favor de uma total indiferença no que diz respeito a estas peculiaridades esporádicas da nossa indumentária, também considerava que a discrição nestes casos é uma virtude que não causa dano cultivar.
 
Mas o pior foi quando a maré começou a subir e a Maria do Mar se viu na iminência de perder a sua roupa e ter de andar na via pública naqueles trajes. Já o anterior problema lhe parecia uma ninharia, comparado com esse, quando deu por si sentada numa confortável poltrona de cinema a ver um filme.
 
Era uma mulher que tinha de matar rapidamente um homem, por uma questão de vida ou de morte.
 
A mulher erguia um machado e enterrava-o no estômago de um homem que estava de costas para nós e de lado para ela, sem que se visse o rosto.
 
Quando o homem voltou o rosto, ela percebeu que tinha matado o amor da sua vida.
 
- Shhhhh.... - Disse ele, com o dedo indicador em frente da boca, como quem pede silêncio.
 
Afinal a Maria do Mar não vira bem, o machado estava enterrado no topo da cabeça do homem.
 
De revólver em riste, o homem preparava-se para disparar sobre o verdadeiro assassino.
 
No rosto da mulher podia-se contemplar o horror de quem comete um crime que não tem reparação possível.
 
Iria ela sobreviver?
 
O homem disse ainda mais duas vezes:
 
- Shhhhh..... - inclinando-se suavemente para a mulher.
 
Era talvez como um desses animais a quem cortam a cabeça e que andam durante algum tempo de pé, como se não fossem morrer.
 
O homem apontou o revólver e os braços não lhe tremeram, no momento em que disparou. 

A filha dilecta da fome e do desespero

Sonho CCXLI


A Maria do Mar e B.Y. nem sequer falavam. Ele abria-lhe a porta e, de imediato, começavam a despir-se.
 
Que maravilha poder desabotoar os botões da sua camisa um por um e mergulhar inteira naquele perfume embriagante!
 
Palavras para quê?
 
Nem sequer era preciso que tocasse bem piano. Bastava que fosse um gentleman e carregasse aquele perfume, como uma aura ou uma carga eléctrica, dançando em torno do seu corpo.
 
Estavam com tanta fome que tinham de fazer amor durante horas, até que o outro estômago também lhes exigisse uma refeição.
 
E não havia mais nada.
 
Apenas essa alegria (ou saciedade) que era a filha dilecta da fome e do desespero. 
 
 

Divertimento

 
 
abelharuco
abelharuco-persa
abibe
abibe-sociável
águia-calçada
águia-cobreira
águia-rabalva
águia-gritadeira
arrabio, alcaravão, alfaiate
cagarra, carriça, calhandrinha
galinhola, ganso-patola
garçote, garajau
mocho-d'orelhas, papa-moscas
pardal-espanhol, pardal-francês
pardela-de-barrete
pardilheira
pato-d'olho-dourado
pato-de-rabo-alçado
pega-rabuda
periquito-de-colar
rabirruivo
rabo-de-palha
tarambola-cinzenta
tarambola-dourada
plim
plim-pia
plim
plim-piu
 

 

 
 
 


Sobre a diferença entre sexo e amor

Sonho CCXL


 
Numa mesa com um casal e mais duas pessoas, uma rapariga falava das suas aventuras amorosas.
 
Ao que ela tinha achado mais graça, num encontro ocasional a caminho do aeroporto, fora a um comentário do seu amante fugaz, quando começaram no vaivém sobre a cama de hotel:
 
- Será que o carpinteiro construiu bem esta cama? Isto range por todo o lado!
 
Mas os ouvintes estavam chocados com a ligeireza risonha da rapariga.
 
Embora fosse possível que a maioria dos ouvintes não compreendesse a causa da sua perturbação instintiva, na verdade esta devia-se ao facto de que a separação pragmática entre sexo e amor não faz parte da educação habitual das raparigas, embora faça parte da formação comum dos rapazes.

Se uma rapariga sente aquele frisson ou aquelas dores de estômago, de um modo geral ela acreditará que está apaixonada, enquanto um rapaz percebe que se sente atraído.
 
- Essa frase migrava directamente para um romance. - disse eu para consolar a rapariga, que não obtivera o efeito esperado com a sua graça.
 
Ela conquistara de um modo solitário e improvável a percepção da separação entre sexo e amor, mas, com essa conquista (que poderia até ser uma preciosa mais-valia no saudável exercício da lucidez), não se livrara da dupla tragédia paralela que precisamente e  pelo mesmo mecanismo assombra o sexo oposto.
 
Por um lado, a tragédia da leviandade e, por outro, de uma passagem sem saída pelo território mortal da indiferença.

Duas amputações paralelas da sensibilidade.
 
 
 
 
 
CARTA DE UM ESPÍRITO MATERIALISTA
 
 

 
 
 
O escritório das Edições Sem Nome (2017)

 
 
 
 
AS PRIMEIRAS CHUVAS
 
 


Sonhos



Podemos acreditar na interpretação finita de um sonho como acreditamos que sabemos o que queremos das nossas vidas, ou que pessoas somos.

Dizemos: «Ah!... Este sonho!... Realmente este sonho quer dizer isto!...»

E sentimo-nos esclarecidos.

Existem até livros publicados onde se explica o significado dos sonhos, ponto por ponto, e em que se parte do princípio que todos os sonhos se referem ao futuro.

«Queda de um dente: morte de parente.»
 
Mas o que são as nossas vidas?
 
Que o sonhador se arrisque, sozinho e pela sua própria cabeça, com o intuito de interpretar um sonho, a recorrer ao método da associação livre, tal como Freud o descreve na Interpretação dos Sonhos, isso pode ser, não o equivalente a um simples cataclismo, mas a um tremor de terra de grau oito na escala de Richter, seguido de tsunami.
 
Não é exagero.

Pois existe a ideia comum de que a alegria dos homens tem um carácter universal, quando na verdade se trata de um juízo totalmente falso.

Segundo os nossos sonhos, parece que a alegria de cada um é tão pouco universal como as brincadeiras das crianças e, além disso, que as fontes da nossa alegria raramente são perfeitamente conhecidas por nós mesmos.

Vou dar o exemplo de uma criança que podia brincar durante horas com um punhado de contas coloridas e um tabuleiro.

Colocava as contas no tabuleiro, agitava-o, parava, e ficava a ver o modo como o movimento das contas ia abrandando, até que ficassem totalmente imóveis. De cada vez que repetia este jogo, as contas formavam constelações diferentes, como as estrelas no céu.

Como definir a actividade da criança?

Uma contemplação?

Uma produção de mundos?

A alegria é, por assim dizer, um mistério a desvendar.

Mas talvez não venha a ser nunca um atraente interesse social que cada um aceda à essência da sua alegria.

É possível que toda a sociedade, tal como a conhecemos, se esboroasse, se reduzisse a pó... E isso seria uma bela coisa, certamente!

Mas em lugar do que temos, o que teríamos?

A alegria é feita de pequenos momentos e de ínfimos cumes. E, como o que de mais universal existe no desejo dos homens parece ser a sua facilidade em ser capturado (aliás, como acontece também com o desejo das crianças), uma vulnerabilidade confrangedora aos mais inanes projectos de sedução, a todas as formas massivas de cobiça e rapina social (que por sua vez produz as estratégias mais caricatas, quando não mesmo vis ou criminosas, de propaganda, de política, de consumo, de domesticidade e de comércio na nossa pequena sociedade actual); o sonho parece existir como uma actividade de resistência, como um instinto anárquico.

Que fácil que é explorar o desejo dos homens!...

Foi este um dos aspectos em que Freud falhou totalmente, quando não percebeu que o sonho congrega uma actividade revolucionária. Talvez por isso seja tão angustiante ler as suas brilhantes análises, tal é a captura, o aprisionamento e a exiguidade a que ele submete esta qualidade móvel, liberta, criativa e imponderável do desejo. Apesar dos inúmeros e valiosos golpes de génio, entre os quais se conta a invenção do método de associação livre, ele reduz o desejo à satisfação e ao prazer e esquece-se de o ligar à alegria e à liberdade, ao puro jogo abstracto de poder inventar e gozar uma nova fruição. Mas que triste e monótono é o desejo que apenas corre entre a fome e a saciedade, entre a carência e a satisfação!... Que insuportável e entediante vaivém!...
 
Na verdade, os sonhos parecem afirmar-se como uma resistência a esta estereotipia do desejo. Uma resistência profunda, salutar e inclassificável, porventura como a resistência da vida contra a morte, do indivíduo contra a massa social que o pretende domar e explorar, do pensamento contra o lugar-comum, contra a inanidade.

Não há como evitar um sentimento de maravilhamento e de admiração. Que extraordinário que é o pensamento e a imaginação enquanto dormimos... Como são reais as nossas sensações e brilhantes todas as cores... Não cessamos de nos surpreender, de nos questionar. Quantos mundos existem para que nós os contemplemos? E como é que no sonho uma ideia se transforma logo em filme, directamente, sem intervalo, e se mostra em salto, em movimento, em palavras vivas e audíveis e em sensações?... Nem sequer imaginamos o que pensamos. Acontece-nos o que pensamos. Movemo-nos no que pensamos. Ah!... Que velocidades, que quedas, que trapézios, que voos fabulosos e que visões sumptuosas!... Que mundos possíveis!... E como vibra o nosso corpo e reage a nossa carne... Como se dobra e desdobra o tempo... Sentimos de um modo claro que o pensamento pensa e que nós, em relação a ele, somos apenas os humildes espectadores, os incautos, distraídos, inconscientes e inadvertidos participantes.

Quem sabe...

Quem sabe é tão fácil explorar o desejo dos homens porque eles nem conhecem o que desejam, já se esqueceram dos seus sonhos quando acordam e limitam-se durante o dia e na maior parte dos casos a ser obedientes, esforçados e a fazer o que se espera deles.
 
 
 


Os problemas raramente são o que parecem

Sonho CCXXXIX


A Françoise M. estava em apuros para conseguir arrumar uma prateleira.
 
Havia três garrafas e algumas coisas inúteis, como um palhacinho de pano, uns crisântemos de plástico e a imagem da Nossa Senhora, também em plástico.
 
Nunca a Françoise teria tais objectos em casa, mas, naquele momento, a verdade é que também não teria paz enquanto os não arrumasse.
 
Haveria certamente uma forma de os compor, pensava a Françoise, uma forma de os combinar que deixasse de causar-lhe aquele doloroso desconforto.
 
Por causa deste problema, a pobre Françoise não conseguia concentrar-se em coisa nenhuma.
 
Finalmente, surgiu uma solução.

O problema não era exactamente o que parecia.
 
Afinal, o maior problema eram as garrafas.
 
Uma de absinto, outra de gin, outra de vodka.
 
A Françoise tirou dali as garrafas e sentiu um alívio extraordinário. 

Sobre a porosidade involuntária da identidade linguística

Sonho CCXXXVIII

 
Há pessoas assim, como esponjas.
 
Mesmo sem querer, ganham logo o sotaque de quem está perto de si.
 
Numa mera conversa de circunstância, a elegante e sofisticada senhora, que fala português do Brasil, exclamou, enquanto subíamos no elevador:
 
- Que corte radical, hem?
 
(Ki cortchi radicau, hem?)
 
E logo eu, fazendo um esforço para pelo menos manter o sotaque do português europeu:
 
- Cansei!... Agora não tem trabalho nenhum mesmo... Você só penteia no banho... Chegou um dia, me olhei no espelho, tudo arrumadinho, e pensei: «Nossa!... Que pessoa é essa?...»
 
Um fenómeno surpreendente, a porosidade involuntária da identidade linguística. 

Sobre a utilidade das tomadas eléctricas

Sonho CCXXXVII


Não deixa de ser surpreendente que a humanidade, em certos momentos da sua história, se preocupe tanto em condenar ou punir uma coisa tão inocente como a masturbação.

No meu sonho havia um homem que se masturbava de barriga para baixo, como uma mulher, e que era condenado pela opinião pública.

Fazia-se a esse propósito um pequeno documentário com alguns minutos, onde, depois de se filmar o homem imóvel e estendido num sofá de barriga para baixo, sem que se visse nada do que poderia estar a fazer naquela posição, se filmavam as muitas tomadas eléctricas que estavam espalhadas pela casa.

Havia centenas de tomadas eléctricas.

Nas paredes, por todo o lado, e também nos espelhos dos degraus das escadas, às dezenas.

«Nada mais natural.» - Pensava eu.

«É sempre útil ter uma tomada eléctrica num degrau.»