«Se estiver no interior do avião e explodir uma bomba, meta-se debaixo do banco dentro de uma caixa de madeira.»
«Se estiver em casa e houver um tremor de terra, cubra a cabeça com os braços e, se possível, meta-se debaixo de uma mesa resistente.»
«Se for alvo de um ataque terrorista como o que aconteceu em Paris, lembre-se que as balas atravessam madeira, metal, tijolo e vidro. Procure uma parede reforçada. Se estiver a ver o atacante, lembre-se que ele também o pode ver a si. Procure uma saída segura e corra o mais que puder. Se não houver saída, procure esconder-se.»
Lendo esta lista de recomendações, a F. de Riverday questionava-se sobre se seria igualmente útil, em caso de tremor de terra, esconder-se debaixo de um piano de cauda, em vez de uma mesa resistente. Qual seria a diferença entre levar com uma viga na cabeça ou com a alma de um piano na cabeça? Qual seria a diferença entre explodir no ar sentado num banco, ou explodir no ar no interior de uma caixa de madeira? Até onde pode voar uma bala? Já criaram a bala infinita? Aquela que circunvaga o globo terrestre a uma velocidade supersónica, atravessando tudo e todos, sem nada que se interponha no seu caminho? A alma de um piano tem algumas centenas de quilos em metal, ou, quem sabe, mesmo uma tonelada. Talvez fosse útil consultar um perito, para saber exactamente o que fazer nestes casos, pensava a F. de Riverday.
Riverday tinha recebido de um pretendente um estranho presente. Era um mísero raminho de hortênsias ainda por florir e o pretendente perguntara-lhe, não sem uma certa timidez: «Poderás embrulhá-lo tu?»
A nossa morte no meio da vida não deixa de ser como isto.
Uma falta de delicadeza.
Riverday tinha recebido de um pretendente um estranho presente. Era um mísero raminho de hortênsias ainda por florir e o pretendente perguntara-lhe, não sem uma certa timidez: «Poderás embrulhá-lo tu?»
A nossa morte no meio da vida não deixa de ser como isto.
Uma falta de delicadeza.