Sonho CXXVI
Muito antes de lhe ter dito adeus no descapotável, a
Maria do Mar aceitara um convite de Biagio Yamaguti para assistir a uma operação
à sua nova namorada.
A namorada de Biagio era uma alemã de cabelos louros
e olhos verdes, a Alex Abendroth.
Estavam os três num quarto de hotel e a Alex despia
a camisa, deitando-se de lado.
A Maria do Mar estava branca de medo e não percebia porque é que não chamavam os médicos.
Biagio pegava num bisturi e fazia um longo corte na
zona exterior do braço de Alex, um corte lento e preciso.
Primeiro um braço, depois o outro.
Pela precisão dos movimentos, parecia saber o
que estava a fazer.
A Maria do Mar ouvia a carne a rasgar-se, como se
fosse um tecido, enquanto os seus pensamentos corriam desordenados.
«Mas porque é que ele estava a fazer aquilo?...»
«Seria uma operação estética, para ela ficar com um
peito maior?...»
«Mas então porque é que ela tinha de estar ali a ver?...»
«E o que é que o peito tinha a ver com os
braços?...»
«A rapariga estaria bem anestesiada?...»
«Mas porque é que a rapariga concordara com a
operação?...»
A rapariga gemia, à medida que o bisturi lhe abria a
carne.
A Maria do Mar queria fugir, mas não podia.
Estava aterrada e, de certo modo, achava que era
melhor haver pelo menos alguém a ver.
Por fim, Biagio terminava a operação e lançava-lhe o
bisturi no colo, fazendo voltear o instrumento no ar.
«Ah!...»
Gritava a Maria do Mar quando via a lâmina extremamente afiada aterrar no seu colo e furar- -lhe a roupa, quase tocando na carne.
Gritava a Maria do Mar quando via a lâmina extremamente afiada aterrar no seu colo e furar- -lhe a roupa, quase tocando na carne.
«Seu estúpido!... Veja o que podia ter feito!...»
A Maria do Mar trazia uma linda camisola em verde-água
que parecia uma rede, mas agora a camisola estava inutilizada.
E era tão raro que tivesse dinheiro para comprar
roupa!...
De resto, ele também não iria pagar os estragos.
Não fizera por mal, é certo.
Mas também não se mostrava minimamente incomodado
com o resultado.