Carros e pilecas
A minha mãe agora tinha um Porsche descapotável que queria a toda a força que eu conduzisse, só para dar uma voltinha. Mas eu não queria conduzir o Porsche, preferia de longe a minha pileca. A minha mãe porém insistia e dizia-me que eu não podia continuar pela vida fora sempre com o mesmo temperamento tão rebelde. Há um limite para a extravagância e para a rebeldia, dizia ela. Qual é o problema de dar um voltinha, ir até ao Guincho e voltar? Um belo passeio, só isso, e sempre ficas a saber o que é conduzir um verdadeiro carro. Para minha desgraça e contra a voz da minha intuição, lá acedi a dar uma voltinha no Porsche, esse símbolo de tudo que desprezava, só para fazer a vontade à minha querida mãe, que já tanto sofrera por causa desse feitio intratável, segundo o descrevem. Pois não é que me estampei mesmo com o Porsche? Eu que nunca tivera um acidente com a minha querida pileca, em quinze anos! Que infelicidade. A vã vaidade e acima de tudo a complacência, contra a intuição, nunca deixam de dar os piores resultados.
Suportar os privilégios
Estava de férias numa casa agradável, na Riviera, que tinha um belo piano de cauda onde se podia tocar. Tocava ali muitas horas e como gostava tanto de lá estar, decidia passar lá mais uns dias. Saía e, quando regressava, podia ver que fora tudo impecavelmente limpo. A casa na verdade tinha muitos mais quartos do que aqueles que precisava. As camas impecavelmente feitas estavam abertas com um uma pequena dobra, familiar, acolhedora e convidativa. Cheirava tudo a lavado e havia nos pormenores sobriedade, requinte, delicadeza e um bom-gosto invulgar e agradável. Porém, o velho piano de cauda tinha desaparecido e, no seu lugar, estava um outro instrumento musical. Se fosse um clavicórdio, como parecia, valeria a pena passar ali mais uns dias. Mas era um daqueles pianos para crianças, muito maus, que dizia Kinder Piano e cujas teclas produziam um som horrível - tléc, tléc, tléc. Com grande desapontamento, comecei a explorar melhor a casa, coisa que ainda não fizera, apesar dos dias agradáveis que lá passara. Não precisava daquele espaço todo, nem de tantas salas e camas, nada. No fim da casa que descia em patamares brancos e arejados por uma espécie de encosta solarenga, estava um buraco, um exíguo buraco encarvoado onde vivia uma família com quatro crianças, seminuas, esfomeadas, sujas e descalças. Fiquei a olhar para aquilo em estado de choque. Parecia um quadro da revolução industrial. A senhora era quem limpava a casa, e eu dizia-lhe: "Não preciso daqueles quartos." "Ai." - suspirava ela. "A nós bem que nos davam jeito!..." Nada daquilo era meu, para que o pudesse oferecer, mas de repente senti uma vergonha horrível por dormir naquelas camas de suaves colchões de penas e macios lençóis de linho bordados, com aquelas pessoas, ali, a sobreviver em buracos fuliginosos. Não ia conseguir gozar nem mais um dia de férias, todo o meu prazer se fora. Alastrava em mim um nojo de todas essas coisas confortáveis e finas, paredes meias com tanta penúria. Como se vive do lado da abundância, com a miséria dos outros marcada a ferro na alma?
Sobre o esforço que implica voar
Afinal, éramos santos e podíamos voar, mas, apesar da nossa santidade,
voar não era uma coisa fácil. Tínhamos por dentro uma espécie de motor que nem
sempre funcionava. Esse motor fazia lembrar aqueles carros que quando não
arrancam têm de ser empurrados. Assim era. Por cima da cidade em ruínas, por
cima das casas em cinzas, nós voávamos, talvez para nos salvar. Salvar do
quê?... Dos erros e de tantas tentativas goradas de alegria?... De sermos menos
que essa promessa com que chegáramos à vida?... Voávamos com esforço, correndo
com dor e um aperto na garganta, para tomar balanço. No meio da devastação,
as minhas vestes eram longas, brilhantes, brancas e azuis, entre o céu e as
nuvens, as minhas roupas eram tão suaves, brilhantes e fantásticas como as túnicas
dos ícones que por vezes se vèem nos templos.
Trégua
Tinha dois animalzitos na mala, muito pequenos. Que animais seriam? Pareciam ser daqueles que as crianças adoram com paixão, desvelo e alegria. Gatitos, coelhos, ratinhos da Índia? Não tinha maneira de ver porque atravessava um enorme abismo, numa ponte. Mas não era uma dessas pontes antigas de lianas. Era uma estrutura frágil, composta por pequenas grades e ferros, qualquer coisa muito mal improvisada e instável. A razão porque me tinha metido ali, naquele sítio tão perigoso, era algo que desconhecia. De repente, toda a estrutura abanou, e fiquei totalmente imóvel com o terror. Gritei, mas, quem estava a ver, riu-se. Não havia maneira de obter socorro. Não conseguia dar meia volta, por isso comecei a andar em marcha atrás, como se fosse um carro. A cada passo a estrutura cedia, caíam bocados, e era impossível ouvir o ruído que faziam ao cair, de tal modo o fundo era distante. Avancei passo a passo, de costas, em silêncio total, agarrando a mala com toda a força, para salvar os animaizitos. Quando cheguei ao fim, estava em chão firme, mas tinha a mesma sensação de queda e vertigem, como se estivesse na ponte. Não conseguia parar de gritar. "Agarrem-me!" Era o que gritava, repetidamente. Precisava que alguém chegasse e me segurasse nos braços, para exorcizar aquele terror, mas, com o medo do contágio da nova doença, ninguém fazia isso. Todos passavam ao largo. Gritei durante muitas horas até não ter voz e ficar num tal estado de exaustão que caí de joelhos e adormeci de cansaço ali no chão, ali mesmo onde estava.
Corpo - matéria e fibra de universo
Corpo – matéria e fibra de universo,
átomos, linhas finas e partículas,
abismos e clareiras infinitas,
resto de estrela ou de poeira em verso.
Ser tocado não é só ser tocado,
mas é ser abalado noutro espaço,
imponderável, subtil e sem traço –
coisa dormindo em sono abismado.
Nem carne, nem espectro, nem coração.
Que cordas ressoam quando te oiço?
Conheço de cor as notas que acordam
as pradarias por dentro do corpo.
Que desertos? Que infinitos aguardam
ser tocados por dentro como em esboço?
Soneto #4
Se uma paixão dissesse a
sua causa
e fosse, em vez de um triste
hieróglifo,
mais simples e
transparente que um grito -
certo é que o caos nunca
teria casa.
Nem casa, nem fulgor, nem
velocidade
para o caos que faz voar
em cascata
em rodopio de folhas e
de cartas
o sentido das coisas
estabelecidas.
Nada. Nada. Desse
rastilho ardente
e que faz vibrar as cordas
sombrias
de um corpo rarefeito e mais
pungente
nada sobraria. Nem mesmo
angústia,
nem mesmo pó, queda ou
voo ascendente,
nem sombra de mundo -
breve luz fria.
Soneto #3
Quem nos dera que o amor
não doesse
mas apenas florisse, tão
suave
como diáfano de cor ou
frase
que em vítrea Primavera
jubilasse.
Alegria tão breve e que
demora -
onde estás?... Onde
estão esses planaltos
do prazer fluído e sem
sobressaltos
e do indizível que não
tem hora?
Tão estranho amor que
dói e acontece
e sem razão suaviza os caminhos.
Estepe de Verão. Tapete
que floresce.
Brandura dos vazios desaparecidos.
A suavidade e o velho
deserto
coexistem, absurdos e
floridos.
Se pudéssemos avançar no tempo das nossas vidas e, quem sabe, usar um chapelinho com véu
Anaïs D. conhecera um rapaz simpático, que parecia muito encantado com a sua presença. Anaïs observava os seus traços finos e agradáveis, o seu ar distinto, e pensava: "Era tão bom que me apaixonasse!..." Estava cansada de viver intermitentemente o mesmo amor impossível ao longo de vinte anos, de um modo por vezes inconsciente, outras involuntário. Mas nada. O seu coração não vibrava. "Que estranho órgão, este!..." Entrava na casa desse rapaz, que era muito pobre. A sua casa tinha apenas duas divisões e nenhuma janela. Numa das divisões estava a sua cama e na outra a cama dos pais que tinham tido recentemente um outro bebé. Anaïs não dizia nada, mas pensava nas condições duras em que vivem tantas famílias. "Uma vantagem desta crise é que os preços das casas pelo menos vão baixar." - comentou. Era um comentário bastante infeliz, mas os preços das casas tinham-se tornado escandalosos. O rapaz olhou para ela como se estivesse a falar numa língua estrangeira. Porque, sim, hoje em dia para um certo senso-comum parece natural que um gang de assaltantes de bancos à pistola seja preso, mas não parece natural que haja regulamentação dos preços no mercado. Como se para o senso-comum a natureza da flutuação dos preços nos mercados fosse e tivesse de ser intrinsecamente fora da lei (como o estado do tempo), quando na verdade essa é apenas uma conquista do liberalismo económico, sustentada e defendida por certos interesses e actos de fé. "Mas os preços não têm de ser como os dias de sol e de chuva e andar ao sabor de regras não humanas." - disse Anaïs D., enquanto entravam os dois num centro comercial que tinha um chão tão escorregadio que dava para patinar com os próprios sapatos. Era fantástico. Começaram a patinar. Toda a gente patinava por ali. Às duas por três a Anaïs caiu de rabo e foi a patinar de rabo no chão até chegar a uma balaustrada de onde caíam muitas pessoas, por não conseguirem controlar bem a velocidade da patinagem. Viu uma senhora a dar uma grande cambalhota no ar e a cair. Mas em baixo havia uma corrente de águas transparentes com muitas cascatas onde circulavam equipas de pronto-socorro em motas de água, dado o elevado número de pessoas que ali caíam. Também havia outras equipas de desinfecção das águas, com barcos munidos de mangueiras. "Muito bem organizado." - pensava Anaïs que entretanto com a velocidade que ganhara também levantara voo sobre a balaustrada e caíra. Anaïs nadou durante algum tempo nas águas transparentes até que chegou a um local seco onde se pôs de pé. A seu lado estava uma velhota muito aprumada, com um chapelinho de véu e uma expressão tão inteligente e imperscrutável como a da rainha de Inglaterra. "Nem sequer a maleta lhe caiu." - pensou Anaïs, observando a maleta preta que trazia no braço. De repente, Anaïs D. apercebeu-se que à frente de ambas se aproximava uma onda enorme. "Aaaaah!... Aaaaaah!..." - gritou Anaïs, enquanto a velhota permanecia imperturbável. A onda chegou, mas não era mais que uns respingos, uns respinguitos muito suaves. "Era só isto?... Era só isto?..." - repetia Anaïs, perplexa. A velhota permanecia imperturbável, com o seu chapéuzinho e a maleta. Não há dúvida de que estavam as duas lado a lado, mas a segunda levava um grande avanço.
Crianças 15
(Isabel, de nove anos)
- Ó professora, faça lá a Rainha de Copas da Alice no País das Maravilhas, para o Santiago ver...
A professora, de dedo em riste e colocando a voz de modo a poder ouvir-se do outro lado do convento:
- CORTEM-LHE A CABEÇA!
A Isabel, perfeitamente maravilhada:
António Pizarro - Ínfimas notas sobre a morte, para uma outra escrita
É inegável: a morte é o limite da experiência. A morte, só conhecemos a dos outros. E a vida (assim como a morte) são-nos dadas como acontecimentos. Este acontecimento extraordinário da existência, como pensá-lo? Nunca conseguiremos pensá-lo, na sua totalidade. Poderemos dedicar a isso uma vida inteira, escrever centenas ou milhares de páginas - mil vidas não chegarão para explorar e dissecar todas as vias possíveis do pensamento. Uma oportunidade infinita. A vida é um mistério absoluto, que nos obriga sempre a pensar infinitamente, todos os dias. Recomeçamos inúmeras vezes, mas, no fundo, nunca recomeçamos. Partimos sempre do meio, nunca do princípio. Tentamos desfazer os estratos, as crenças, os lugares-comuns, as vaidades, as casas que nos abrigam e as ideias confortáveis que são tão atractivas mas que, por dentro, cheiram a inferno e a podre. Pensamos infinitamente, em múltiplas direcções. Muitas não conseguimos agarrá-las, são como sonhos esquecidos. Vamos por aqui, vamos por ali. Escrever é a nossa máquina de pensar. Uma máquina rudimentar e libertária. Ao escrever podemos ir muito devagar. Abrandamos de um modo inimaginável. Voltamos atrás, cortamos, dividimos, avançamos. Temos assim muitas lentes de aumentar e diminuir, para as nossas visões. Uma máquina de fazer zooms. Ampliamos a consciência para franjas e zonas cada vez mais difíceis, mais obscuras. Mas há uma coisa inegável, sobre a vida. Se a vida nos é dada, se a vida é um dom maravilhoso e absoluto e, em última análise, imperscrutável, ela não nos é dada como fatalidade. Poderá constituir, por si mesma, um mistério total. Poderá ser opaca, esplendorosa, infernal e avassaladora. Obrigar-nos continuamente a pensar em Deus, porque aquilo que sentimos nem sempre conseguimos traduzi-lo por palavras e porque há uma experiência do amor, do esplendor e da dor que nos lança continuamente em Deus. A vida poderá ser difícil e desafiante, como uma prova transcendental. Divina e sublime, em toda a sua infinita delicadeza e pluralidade. Surpreendente até ao último grau da nossa faculdade de imaginação. E poderá ser tentador pensar na sua anulação como um alívio para o excesso de intensidade e para a violência. Uma saída, no limite do desespero. Mas isso é toda uma outra discussão, que implicaria saber o que fosse a morte. A questão é que, perante a possibilidade real e verdadeira de morrer, perante a possibilidade de executar a nossa própria morte, a vida também nos é dada como escolha. Aí, sim, há uma dificuldade avassaladora, em que muitos preferem não pensar. É a vida como acto puro de liberdade, é o dia como abertura infinita. É todo o sentido e des-sentido que diariamente repensamos e reinventamos. E é a necessidade de criar uma outra ética, totalmente nova, singular e revolucionária.
Cadernos de Bernfried Järvi - de Rui Manuel Amaral
Este livro começa e acaba com duas citações eloquentes. A primeira, de Erik Satie, datada de 1922, diz o seguinte:
Chamo-me Bernfried Järvi como toda a gente.
A última, de Vincent Van Gogh, data de 1888 e diz assim:
No meu quadro Café Nocturno, tentei exprimir que o café é um local onde se pode cair em desgraça, enlouquecer, cometer crimes. Quero dizer, em contrastes de rosa tenro e de vermelho-sangue e borra-de-vinho, de verde Luís XVI suave, e veronese, a contrastar com os verdes-amarelo e os verdes-azul duros, tudo isso numa atmosfera de fornalha infernal, de enxofre pálido, tentei exprimir como que o poder das trevas de uma taberna.
E contudo, sob uma aparência de alegria japonesa e a bonomia do Tartarin...
Que o narrador e personagem principal deste livro se chame Bernfried Järvi (como toda a gente) é de certo modo tão paradoxal como natural, à boa maneira do subtil e perspicaz Erik Satie. Não é que alguém se chame qualquer coisa como toda gente. Não é que alguém tenha um nome como toda a gente. Mas que seja homo tantum (homem apenas, homem só) - como toda a gente. Bernfried Järvi, esse discreto e quase imperceptível monomaníaco do amor que deambula, entre excêntricos companheiros com nomes improváveis (ociosos, pregadores, poetas, semi-loucos, filósofos e visionários), nas franjas de um niilismo singular, do seu quarto, para o café, para o escritório, em Aachen, cidade alemã de cujos quatro ponto cardeais saem quatro estradas - e a mais longa termina, não por acaso, no Porto.
Haveria muito a dizer sobre este livro. Sobre os retratos minuciosos e surpreendentes da atmosfera, tão vivos como a preciosa enumeração da lista de cores na citação de Van Gogh; sobre as descrições do pó e a sua articulação com os relatos de sonhos. Muito haveria a dizer sobre Pagreus, Milo, Helmut, Else, Marcus, Heike, Vanhelle e todos os habitantes do café que flutuam numa atmosfera de fornalha infernal, de enxofre pálido - e sobre o seu desespero, humor ácido, niilismo, extravagância e fervor - a que a escorreita prosódia teatral faz juz.
Mas ocorre-nos um pequeno artigo de Deleuze, intitulado "A imanência: uma vida...", datado de Setembro de 1995. Um curto texto de quatro páginas e o último publicado pelo autor antes do seu suicídio. Neste texto, Deleuze procura explicar o conceito de campo transcendental, que se distingue da experiência (na medida em que não reenvia a um objecto, nem pertence a um sujeito). Esta formulação, que pode parecer opaca, descreve algo de vivo, concreto e real, ainda que difícil ou talvez impossível de pensar. Não cabe aqui a explicação minuciosa destes termos que implicam uma passagem detalhada por Espinosa e pelo conceito de representação empírica. Mas um campo transcendental, entendido como puro plano de imanência, não tem forma mais directa de ser compreendido do que percebendo que a pura imanência é uma vida - "uma vida, e nada mais. Uma vida como imanência absoluta, potência, beatitude completas", diz-nos Deleuze. E o exemplo vem de Dickens, do terceiro capítulo do romance Amigo Comum:
O que é a imanência? uma vida... Ninguém melhor que Dickens descreveu o que é uma vida, tendo em conta o artigo indefinido como índice do transcendental. Um crápula, um mau tipo desprezado por todos, é trazido às portas da morte e eis que aqueles que o cuidam manifestam uma espécie de impressão, de respeito, de amor pelo mais pequeno sinal de vida do moribundo. Toda a gente se empenha em salvá-lo, ao ponto de, no mais fundo do seu coma, o vilão sentir qualquer coisa de suave a penetrá-lo. Mas, à medida que regressa à vida, os seus salvadores tornam-se mais frios e ele recupera toda a sua grosseria e mesquinhez. Entre a sua vida e a sua morte, há um momento que não é mais do que uma vida jogando com a morte. A vida do indivíduo deu lugar a uma vida impessoal e contudo singular, que liberta um puro acontecimento livre dos acidentes da vida interior e exterior, quer dizer, da objectividade e da subjectividade do que acontece. «Homo tantum», do qual toda a gente se compadece e que alcança uma espécie de beatitude. É uma hecceidade, que não é mais de individuação, mas de singularização: vida de pura imanência, neutra, para além do bem e do mal, porque apenas o sujeito que a incarna no meio das coisas a torna boa ou má. A vida de uma tal individualidade desaparece em proveito da vida singular imanente de um homem que já não tem nome, se bem que não se confunda com nenhum outro. Essência singular, uma vida... Não se deve conter uma vida nesse simples momento onde a vida individual defronta a morte universal. Uma vida está por todo o lado, em todos os momentos que atravessam este ou aquele sujeito vivo e que medem tais objectos vividos (...)*
Custa-nos interromper a citação, quando este texto extraordinário de Deleuze daria ele mesmo para escrever muitas páginas, a propósito de cada uma das suas frases. É como uma grande árvore de cujos ramos podem nascer muitos frutos. Precisamente no reconhecimento desse homo tantum, no encontro com esse homem apenas (homem só), porque é que uma espécie particular de amor acontece? O exemplo de Dickens serve como ponto de partida para um reconhecimento. Mas esse ponto de partida passa por uma espécie de amor peculiar - a compaixão. Outras formas de amor poderiam ser investigadas, como momentos de reconhecimento desse homo tantum - como acontecimentos dessa visão ardente, ou como formas de epifania, diríamos nós. Todo um novo evangelho se poderia escrever - qualquer coisa de revolucionário. Não é afinal possível que cada forma de amor em estado puro não seja mais do que um acontecimento dessa visão pontual e extraordinária? A marca desse encontro transcendental e dessa passagem para um plano de imanência, onde os estratos se libertam? Paixão em estado selvagem, compaixão, caritas, filia, eros em osso. Neste romance, não é por acaso que o grande acontecimento do enamoramento de Bernfried Järvi por Else é descrito como um grande arco de esperança e desilusão. Ainda que um humor feroz cerque o fervor de cepticismo, há uma inocência e uma candura que sobrevivem, com uma tímida chama, mas notável. Será que em toda a paixão é esse homo tantum que nos acontece amar, como que numa visão esplendorosa que é, por si só, já um acontecimento? Uma vida. Bernfried Järvi deixa-nos esta suspensão, este vazio, este fervor e esta perplexidade. Esta trança obtusa entre o entusiasmo, o cepticismo e o terror. Uma vida que simplesmente passa com o seu excesso, os seus tempos flutuantes, as suas observações dispersas, singulares, brilhantes ou imprevistas; e os seus assombros, lucidez, entusiasmo e indiferença. O seu absurdo. O seu humor acutilante e desesperado.
«Adeus, meu pulmãozinho, adeus, meu fígado, adeus, meu estômago, adeus, meu joelhinho branco como a neve. / Fiquei a vê-la afastar-se, até desaparecer de vista. / Caiu um aguaceiro repentino.»**
* Gilles Deleuze, Deux Régimes de Fous, Textes et Entretiens 1975-1995, Édition préparée par David Lapoujade (Paris: Les Éditions de Minuit, 2003), pp. 361-362, tradução minha.
** Rui Manuel Amaral, Cadernos de Bernfried Järvi (Porto: Livraria Snob, 2019), pp. 104-105.
Haveria muito a dizer sobre este livro. Sobre os retratos minuciosos e surpreendentes da atmosfera, tão vivos como a preciosa enumeração da lista de cores na citação de Van Gogh; sobre as descrições do pó e a sua articulação com os relatos de sonhos. Muito haveria a dizer sobre Pagreus, Milo, Helmut, Else, Marcus, Heike, Vanhelle e todos os habitantes do café que flutuam numa atmosfera de fornalha infernal, de enxofre pálido - e sobre o seu desespero, humor ácido, niilismo, extravagância e fervor - a que a escorreita prosódia teatral faz juz.
Mas ocorre-nos um pequeno artigo de Deleuze, intitulado "A imanência: uma vida...", datado de Setembro de 1995. Um curto texto de quatro páginas e o último publicado pelo autor antes do seu suicídio. Neste texto, Deleuze procura explicar o conceito de campo transcendental, que se distingue da experiência (na medida em que não reenvia a um objecto, nem pertence a um sujeito). Esta formulação, que pode parecer opaca, descreve algo de vivo, concreto e real, ainda que difícil ou talvez impossível de pensar. Não cabe aqui a explicação minuciosa destes termos que implicam uma passagem detalhada por Espinosa e pelo conceito de representação empírica. Mas um campo transcendental, entendido como puro plano de imanência, não tem forma mais directa de ser compreendido do que percebendo que a pura imanência é uma vida - "uma vida, e nada mais. Uma vida como imanência absoluta, potência, beatitude completas", diz-nos Deleuze. E o exemplo vem de Dickens, do terceiro capítulo do romance Amigo Comum:
O que é a imanência? uma vida... Ninguém melhor que Dickens descreveu o que é uma vida, tendo em conta o artigo indefinido como índice do transcendental. Um crápula, um mau tipo desprezado por todos, é trazido às portas da morte e eis que aqueles que o cuidam manifestam uma espécie de impressão, de respeito, de amor pelo mais pequeno sinal de vida do moribundo. Toda a gente se empenha em salvá-lo, ao ponto de, no mais fundo do seu coma, o vilão sentir qualquer coisa de suave a penetrá-lo. Mas, à medida que regressa à vida, os seus salvadores tornam-se mais frios e ele recupera toda a sua grosseria e mesquinhez. Entre a sua vida e a sua morte, há um momento que não é mais do que uma vida jogando com a morte. A vida do indivíduo deu lugar a uma vida impessoal e contudo singular, que liberta um puro acontecimento livre dos acidentes da vida interior e exterior, quer dizer, da objectividade e da subjectividade do que acontece. «Homo tantum», do qual toda a gente se compadece e que alcança uma espécie de beatitude. É uma hecceidade, que não é mais de individuação, mas de singularização: vida de pura imanência, neutra, para além do bem e do mal, porque apenas o sujeito que a incarna no meio das coisas a torna boa ou má. A vida de uma tal individualidade desaparece em proveito da vida singular imanente de um homem que já não tem nome, se bem que não se confunda com nenhum outro. Essência singular, uma vida... Não se deve conter uma vida nesse simples momento onde a vida individual defronta a morte universal. Uma vida está por todo o lado, em todos os momentos que atravessam este ou aquele sujeito vivo e que medem tais objectos vividos (...)*
Custa-nos interromper a citação, quando este texto extraordinário de Deleuze daria ele mesmo para escrever muitas páginas, a propósito de cada uma das suas frases. É como uma grande árvore de cujos ramos podem nascer muitos frutos. Precisamente no reconhecimento desse homo tantum, no encontro com esse homem apenas (homem só), porque é que uma espécie particular de amor acontece? O exemplo de Dickens serve como ponto de partida para um reconhecimento. Mas esse ponto de partida passa por uma espécie de amor peculiar - a compaixão. Outras formas de amor poderiam ser investigadas, como momentos de reconhecimento desse homo tantum - como acontecimentos dessa visão ardente, ou como formas de epifania, diríamos nós. Todo um novo evangelho se poderia escrever - qualquer coisa de revolucionário. Não é afinal possível que cada forma de amor em estado puro não seja mais do que um acontecimento dessa visão pontual e extraordinária? A marca desse encontro transcendental e dessa passagem para um plano de imanência, onde os estratos se libertam? Paixão em estado selvagem, compaixão, caritas, filia, eros em osso. Neste romance, não é por acaso que o grande acontecimento do enamoramento de Bernfried Järvi por Else é descrito como um grande arco de esperança e desilusão. Ainda que um humor feroz cerque o fervor de cepticismo, há uma inocência e uma candura que sobrevivem, com uma tímida chama, mas notável. Será que em toda a paixão é esse homo tantum que nos acontece amar, como que numa visão esplendorosa que é, por si só, já um acontecimento? Uma vida. Bernfried Järvi deixa-nos esta suspensão, este vazio, este fervor e esta perplexidade. Esta trança obtusa entre o entusiasmo, o cepticismo e o terror. Uma vida que simplesmente passa com o seu excesso, os seus tempos flutuantes, as suas observações dispersas, singulares, brilhantes ou imprevistas; e os seus assombros, lucidez, entusiasmo e indiferença. O seu absurdo. O seu humor acutilante e desesperado.
«Adeus, meu pulmãozinho, adeus, meu fígado, adeus, meu estômago, adeus, meu joelhinho branco como a neve. / Fiquei a vê-la afastar-se, até desaparecer de vista. / Caiu um aguaceiro repentino.»**
* Gilles Deleuze, Deux Régimes de Fous, Textes et Entretiens 1975-1995, Édition préparée par David Lapoujade (Paris: Les Éditions de Minuit, 2003), pp. 361-362, tradução minha.
** Rui Manuel Amaral, Cadernos de Bernfried Järvi (Porto: Livraria Snob, 2019), pp. 104-105.
Diferentes tipos de morte
Sonho CCXCIX
Anaïs D. fora dar um passeio com P.
P. primava pela elegância e por um tipo de beleza viril e discreta, não pela conversa.
Que teria visto no seu livro, ao ponto de pedir para se encontrarem?
Parecia um homem conservador e com ideias reaccionárias, esclerosadas de tão usadas.
Teria lido o livro?
Anaïs surpreendia-se muito ao observar que a coisa que mais a atraia, e a única, nesse homem elegante e simpático, eram os seus três filhos pequenos e o olhar inteligente dessas crianças, invulgarmente gentil e um pouco triste.
Tinham dado um passeio para visitar uma capelinha no alto de um penhasco, com um alpendre sobre um abismo.
Chegados aí, Anaïs sentiu aquela familiar atracção pelo abismo, e pensou que fosse cair.
- Vou cair!... - gritou Anaïs.
P. lançou-se para Anaïs com a intenção de a salvar e caiu no abismo, mas Anaïs equilibrou-se e não caiu.
O abismo sobre o mar era altíssimo.
- Meu Deus... - pensou Anaïs - Como poderei ficar aqui sem fazer nada, a olhar para a queda de uma pessoa que tentou salvar-me?
E lançou-se também no abismo.
Enquanto caíam, Anaïs percebeu que estavam ligados por uma corda.
- É melhor tirar os sapatos. - pensou Anaïs - Assim hei-de conseguir nadar melhor. Também devia tirar a roupa, mas não sei se tenho tempo.
Anaïs tirou os sapatos que eram especialmente bonitos, todos em pele e bordeaux.
- Uns sapatos tão caros, todos em pele. - pensou Anaïs.
Nesse momento, Anaïs percebeu que conseguia suspender-se no ar, como se voasse.
- Afinal não valia a pena ter tirado os sapatos. - pensou Anaïs.
P. tinha caído no mar, mas não vinha à tona.
- Que se passa com ele?
Anaïs puxou-o com a corda e arrastou-o até uma pequena enseada.
Que colinas verdejantes e tão bonitas rodeavam aquele mar e os penhascos!...
- Tu sabes voar? - perguntou P. a Anaïs.
- Parece que sim.
Anaïs soltou uma sonora gargalhada.
- Mas não vou verificar outra vez se sei ou não sei!...
- E onde estão os teus sapatos?
- Descalcei-os para nadar melhor, mas afinal não foi preciso.
- Deve ter sido por isso que não consegui nadar. - disse P. - Estes sapatos...
E, olhando para os seus sapatos, olhava também para Anaïs com uma expressão de perplexidade, como se ela fosse um animal de outra espécie.
Anaïs podia ver no seu rosto que ele tentava fazer com que ela encaixasse numa das suas ideias do que poderia ser uma mulher, e ela não encaixava em nenhuma.
É também uma espécie de solidão, encontrar essa tentativa num rosto.
Anaïs sabia que esse seria o seu último encontro com P.
O coração dela parecia um instrumento morto.
Nenhuma corda vibrava.
Todos nós temos medo do vermelho, amarelo e azul - de Alexandre Andrade
Mais uma vez, somos brindados com a surpreendente leitura de um livro de contos do Alexandre Andrade, desta feita um conjunto de histórias quotidianas e peculiares sobre o que podemos chamar o poder das cores. A força e o caos com que podemos ser afectados pelas cores, não só através de uma arte a que nos habituámos chamar pintura, mas também pelas cores em si mesmas, como acontecimentos da nossa vida íntima e plural, organizam de um modo singular o elenco deste conjunto de onze pequenas histórias em cujo domínio Alexandre Andrade se revela mestre.
Saindo de uma inauguração de uma exposição de pintura no Bairro Alto, André, submerso ainda no abalo que lhe causou a visão dos quadros e depois de uma conversa inusitada e cordial com aquela que nem sonha ser a autora em carne e osso das obras em causa, toma a decisão, que não tem forças para realizar, de mudar radicalmente de vida, terminando imediatamente a relação em que está. Impedem-no os amigos comuns e as amigas, mas fica desta descrição o equivalente a uma travessia do deserto, uma entrada no caos, uma desagregação que atravessará o livro de uma ponta à outra, como essa imperceptível mas constante vacilação de nós todos, personagens, artistas, leitores e gente fora do livro, entre uma decisão e outra, entre uma vida e outra, entre a vida e a morte.
Como noutros livros de Alexandre Andrade, os personagens estão sempre à beira de qualquer coisa que por vezes acontece, mas que dificilmente acontece. Uma decisão, uma ruptura, um encontro, uma mudança, um ajuste de palavras, uma declaração de amor, a morte. Toda uma agitação e tormenta interiores que no quotidiano se vertem essencialmente em gestos inócuos, mudos, inexpressivos e surdos, para, de um modo raro e extraordinário, poderem por vezes assumir o aspecto de um acontecimento. Como a rapariga que extrai do corpo, num esforço invisível de liberdade e revolta, numa rua de Lisboa, uma cópia de si mesma: esse "fardo precioso".
«Naquela rua de Lisboa, comigo parada no meio do passeio, sucedeu então mais uma coisa estranha a somar às demais daquele dia quase prodigioso. Mentalmente, fiz um gesto que consistiu em estender um braço fabulosamente longo e flexível, dobrá-lo de volta na direcção do meu corpo, e extrair, não sem violência e efusão de sucos vitais, uma cópia de mim mesma, admiravelmente maleável e capaz de se conformar, a pedido, a qualquer expectativa que alguém pudesse alimentar a meu respeito. Tudo isto foi, bem entendido, invisível. Para os cidadãos que passavam por mim, eu era uma rapariga especada, com tempo para cismar. Com o meu fardo precioso debaixo do braço, encetei o caminho de regresso ao meu quarto arrendado. It is the cause, it is the cause, my soul.» (1)
Qual a fronteira entre a arte e a vida? Como as separamos uma da outra? «O labrego que salta para o palco e arremete contra Otelo no preciso momento em que este se lança sobre Desdémona para a assassinar tem todas as razões do mundo para agir desta maneira. Quem ousaria censurá-lo?» (2)
Neste sentido, há um forte fio condutor, ainda que subliminar, entre os diferentes contos. É a aventura do quadro de Barnett Newman, Who´s Afraid of Red, Yellow and Blue III, que, no dia 21 de Março de 1986, foi vandalizado com um x-acto por um pintor abstracto desconhecido, Gerard van Bladeren, no Museu Stedelijk, em Amesterdão.
Que nos diz, logo nas primeiras páginas, a convocação deste crime passional?
O pintor B, em coma induzido no hospital de São José, depois de cair do alto do enorme escadote em que pintava, ouve tecerem-se em torno de si e das suas obras as conversas de filhos, ex-mulheres, amigos, familiares e actual mulher. Arriscou-se demais no esforço de pintar aquela oval, aquela cor, e a consequência, neste caso, oscila entre o maior prosaísmo e a maior grandiosidade de toda a vida humana, o amor de todos os que amamos ou em tempos amámos, e a morte.
Duas mulheres, viajando a bordo de um avião a novecentos quilómetros por hora, descobrem que um quadro de Pierre Bonnard presidiu a uma das viagens e encontros mais incompreensíveis das suas vidas, numa coincidência inimaginável e impossível de explicar. Só por esse quadro se descobrem unidas, do mesmo modo que se descobrem, como nesses momentos de rara e dolorosa lucidez que todos já experimentámos, suspensas sobre o abismo de nada saber sobre o sentido da vida, paralisadas nessa encruzilhada das mil incertezas e de todas as perguntas que nunca hão-de ter resposta.
Bianca, que tenta um auto-exame sistemático nas viagens de metro para o seu trabalho de optometrista, apesar de saber que não há maior felicidade do que ler poesia enquanto caminha ao ar livre, e apesar de hesitar em perseguir qualquer felicidade, na rotina um pouco inerte dos seus dias, questiona-se se as cores realmente nada significam, quando parecem trazer uma mensagem de vida ou de morte.
Tom sofre de cromofobia, o que lhe pode causar tonturas, ansiedade, náusea, taquicardia... e um incrível (e incompreensível para todos) rol de desculpas para não trabalhar naquela edição de imagens a cores.
A menina América morre num acidente de metro, nessa paleta de sangue, «com as suas tonalidades impossíveis de serem confundidas com outras», depois de arrematar em leilão Dans le Bordonnement I, de Tal-Coat?...
De onde caíram os confetti coloridos do azul omisso no famoso quadro de Vlaminck, A Paisagem de Outono, e que agora estão sobre os ombros radiantes de Z e Hugo, o casal reconciliado e aureolado pela mesma cor do quadro que originara a disputa e as agressões quase fatais entre um e outro? O miserável narrador do conto volta mais a este episódio do que a todos os do resto da sua vida, aos quais o distanciamento não traz como bónus a capacidade de hierarquizar, nem a importância, nem o alcance. (3)
No final, um homem que entrega a gestão de uma empresa em queda irreversível a uma criança rasga com uma faca a reprodução do quadro de Barnett Newman, Who´s Afraid of Red, Yellow and Blue III.(4)
Afinal, que nos diz a convocação deste crime passional?
Muito se poderá pensar por aqui neste livro sobre a força e o caos com que as cores nos atingem.
«Pierre Bonnard é daqueles pintores que, na fase final de uma vida e carreira que foram longas e prolíficas, retratava os objectos, pessoas e paisagens do seu quotidiano com uma simplicidade aparente que parecia por vezes confinar com o desleixo, ou até sugerir alguma regressão no talento. Nada mais longe da verdade. A aparência quase tosca de todos (e foram muitos) aqueles interiores domésticos, auto-retratos, nus, naturezas-mortas, paisagens, a impressão de incompletude, a ambiguidade na articulação dos planos, as intrigantes escolhas cromáticas, eram o estádio derradeiro e esplendoroso de um percurso estético. Os quadros mais tardios de Bonnard são fragmentos de mundo passados pelo crivo da inteligência artística e pela experiência de uma vida demasiado longa para resistir à melancolia. O resultado é belo, solar, suscita um alvoroço interior, desconcerta, cativa. O resultado também é lúgubre. Uma consciência aguda da finitude de tudo faz-se também sentir. É como se ele ao mesmo tempo pintasse as coisas e os fantasmas que se irão substituir às coisas.» (5)
E o mesmo se poderia dizer deste livro.
O pintor B, em coma induzido no hospital de São José, depois de cair do alto do enorme escadote em que pintava, ouve tecerem-se em torno de si e das suas obras as conversas de filhos, ex-mulheres, amigos, familiares e actual mulher. Arriscou-se demais no esforço de pintar aquela oval, aquela cor, e a consequência, neste caso, oscila entre o maior prosaísmo e a maior grandiosidade de toda a vida humana, o amor de todos os que amamos ou em tempos amámos, e a morte.
Duas mulheres, viajando a bordo de um avião a novecentos quilómetros por hora, descobrem que um quadro de Pierre Bonnard presidiu a uma das viagens e encontros mais incompreensíveis das suas vidas, numa coincidência inimaginável e impossível de explicar. Só por esse quadro se descobrem unidas, do mesmo modo que se descobrem, como nesses momentos de rara e dolorosa lucidez que todos já experimentámos, suspensas sobre o abismo de nada saber sobre o sentido da vida, paralisadas nessa encruzilhada das mil incertezas e de todas as perguntas que nunca hão-de ter resposta.
Bianca, que tenta um auto-exame sistemático nas viagens de metro para o seu trabalho de optometrista, apesar de saber que não há maior felicidade do que ler poesia enquanto caminha ao ar livre, e apesar de hesitar em perseguir qualquer felicidade, na rotina um pouco inerte dos seus dias, questiona-se se as cores realmente nada significam, quando parecem trazer uma mensagem de vida ou de morte.
Tom sofre de cromofobia, o que lhe pode causar tonturas, ansiedade, náusea, taquicardia... e um incrível (e incompreensível para todos) rol de desculpas para não trabalhar naquela edição de imagens a cores.
A menina América morre num acidente de metro, nessa paleta de sangue, «com as suas tonalidades impossíveis de serem confundidas com outras», depois de arrematar em leilão Dans le Bordonnement I, de Tal-Coat?...
De onde caíram os confetti coloridos do azul omisso no famoso quadro de Vlaminck, A Paisagem de Outono, e que agora estão sobre os ombros radiantes de Z e Hugo, o casal reconciliado e aureolado pela mesma cor do quadro que originara a disputa e as agressões quase fatais entre um e outro? O miserável narrador do conto volta mais a este episódio do que a todos os do resto da sua vida, aos quais o distanciamento não traz como bónus a capacidade de hierarquizar, nem a importância, nem o alcance. (3)
No final, um homem que entrega a gestão de uma empresa em queda irreversível a uma criança rasga com uma faca a reprodução do quadro de Barnett Newman, Who´s Afraid of Red, Yellow and Blue III.(4)
Afinal, que nos diz a convocação deste crime passional?
Muito se poderá pensar por aqui neste livro sobre a força e o caos com que as cores nos atingem.
«Pierre Bonnard é daqueles pintores que, na fase final de uma vida e carreira que foram longas e prolíficas, retratava os objectos, pessoas e paisagens do seu quotidiano com uma simplicidade aparente que parecia por vezes confinar com o desleixo, ou até sugerir alguma regressão no talento. Nada mais longe da verdade. A aparência quase tosca de todos (e foram muitos) aqueles interiores domésticos, auto-retratos, nus, naturezas-mortas, paisagens, a impressão de incompletude, a ambiguidade na articulação dos planos, as intrigantes escolhas cromáticas, eram o estádio derradeiro e esplendoroso de um percurso estético. Os quadros mais tardios de Bonnard são fragmentos de mundo passados pelo crivo da inteligência artística e pela experiência de uma vida demasiado longa para resistir à melancolia. O resultado é belo, solar, suscita um alvoroço interior, desconcerta, cativa. O resultado também é lúgubre. Uma consciência aguda da finitude de tudo faz-se também sentir. É como se ele ao mesmo tempo pintasse as coisas e os fantasmas que se irão substituir às coisas.» (5)
E o mesmo se poderia dizer deste livro.
(1) Citação do Otelo de Shakespeare em "Razões para salvar Desdémona", p. 53.
(2) "Razões para salvar Desdémona", p. 45.
(3) "O azul omisso", p. 195.
(4) "Todos nós temos medo do vermelho, amarelo e azul", p. 265.
(5) "MAD-SVO", p. 101.
(3) "O azul omisso", p. 195.
(4) "Todos nós temos medo do vermelho, amarelo e azul", p. 265.
(5) "MAD-SVO", p. 101.
O modo como se reduzem as nossas expectativas
Sonho CCXCVIII
Depois de ter feito aquela entorse, os sonhos eram simplesmente sobre ser capaz de andar.
Que maravilha, poder andar!...
Passados alguns dias, os sonhos reduziam-se a poisar o pé no chão.
Que bela sensação, poder ter a palma do pé sobre o chão!...
Passados mais dias, os sonhos eram só sobre mover um pouco o pé.
Que bom poder esticar e encolher o pé e espreguiçá-lo!...
É extraordinário como, à medida que a realidade nos castiga, a nossa alegria se compõe de expectativas cada vez mais ínfimas.
Mas é também incrível como o nosso virtuosismo especulativo, teórico e vagamente maníaco se aplica em encontrar causas para um acidente tão disparatado, num mero desnível de passeio.
Porque a dor é como um gás maligno e explosivo que não pode permanecer encerrado no espaço em que está.
Se a alma não pode mais sentir, é o corpo que rui, como um baralho de cartas.
Como se ambos fossem vias a-paralelas, canais de escape da sensibilidade que por sofrer intensidades demasiado agudas por vezes se torna intransitável.
Neste caso, ainda que tenhamos medo de começar a chorar, choramos.
Pode ser que seja apenas uma lágrima, a qual tememos quase tanto como a morte, porque através dela parece que o centro do nosso corpo, o coração, se irá desagregar em nada para nunca mais poder voltar a ser inteiro.
Que isto seja apenas uma ilusão...
Como o desejamos.
Depois de ter feito aquela entorse, os sonhos eram simplesmente sobre ser capaz de andar.
Que maravilha, poder andar!...
Passados alguns dias, os sonhos reduziam-se a poisar o pé no chão.
Que bela sensação, poder ter a palma do pé sobre o chão!...
Passados mais dias, os sonhos eram só sobre mover um pouco o pé.
Que bom poder esticar e encolher o pé e espreguiçá-lo!...
É extraordinário como, à medida que a realidade nos castiga, a nossa alegria se compõe de expectativas cada vez mais ínfimas.
Mas é também incrível como o nosso virtuosismo especulativo, teórico e vagamente maníaco se aplica em encontrar causas para um acidente tão disparatado, num mero desnível de passeio.
Teria sido cansaço?
Ou haveria antes uma causa final, como uma aprendizagem necessária?
Ou haveria antes uma causa final, como uma aprendizagem necessária?
Seria uma espécie de enredo, a nossa vida, um enredo em que à custa de certo episódio, um outro se segue, ou não se segue?
De nada lhe valia essa inclinação especulativa, insana e praticamente irresistível.
Fazia-lhe falta moer com exercício físico esse motor automático do seu pensamento.
Mas, graças a não sei que última lucidez, havia uma força interior que impedia qualquer hipótese de assentar definitivamente arraiais.
Mas, graças a não sei que última lucidez, havia uma força interior que impedia qualquer hipótese de assentar definitivamente arraiais.
O mais provável é que fosse apenas uma fala de corpo, como quando existem certas dores que a alma não pode mais sentir e o corpo decide gritá-las com a sua língua própria.
Uma língua de escultura e dança, uma língua de metáfora, de cinema e traço.
«Não me tenho de pé.» - gritava-lhe o corpo.
Porque a dor é como um gás maligno e explosivo que não pode permanecer encerrado no espaço em que está.
Se a alma não pode mais sentir, é o corpo que rui, como um baralho de cartas.
Como se ambos fossem vias a-paralelas, canais de escape da sensibilidade que por sofrer intensidades demasiado agudas por vezes se torna intransitável.
Neste caso, ainda que tenhamos medo de começar a chorar, choramos.
Pode ser que seja apenas uma lágrima, a qual tememos quase tanto como a morte, porque através dela parece que o centro do nosso corpo, o coração, se irá desagregar em nada para nunca mais poder voltar a ser inteiro.
Que isto seja apenas uma ilusão...
Como o desejamos.
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