Sobre o esforço que implica voar

Sonho CCLV


Afinal, éramos santos e podíamos voar, mas, apesar da nossa santidade, voar não era fácil.
 
Tínhamos por dentro uma espécie de motor que nem sempre funcionava.
 
Esse motor fazia lembrar aqueles carros que quando não arrancam têm de ser empurrados.
 
Assim era.
 
Por cima da cidade em ruínas, por cima dos telhados que tinham caído, por cima das casas em cinzas, nós voávamos para nos salvar.
 
Voávamos com esforço, correndo com dor e com um aperto na garganta, para tomar balanço.
 
No meio da devastação, as minhas vestes eram longas, brilhantes, brancas e azuis, como as túnicas da Virgem Maria quando se vê nos templos transformada em ícone.