Como um sonho nos faz pensar na maravilha da nossa vida actual

Sonho CCLIV


Depois de várias semanas na prisão por ter guardado os meus poemas e diários, onde se podiam ler coisas do estilo:
 
 
Estava um tempo frio e soturno.
Olhei para o céu e vi que estava carregado de nuvens.
 
 
Consegui que um dos guardas prisionais me prometesse a liberdade.
 
- Vamos libertar-te, mas basta atravessares a rua para que disparem sobre ti. - disse-me.
 
Achei que valeria a pena correr esse risco, pelo bem da vida em geral e da minha em particular. Sempre teria a oportunidade de fazer uma pequena diferença ou, quem sabe, sobreviver. Cosi os novos papéis que fora escrevendo clandestinamente na prisão no interior do forro da mochila. Os velhos pertenciam agora aos arquivos dos condenados do partido comunista de Mao Tsé Tung.

Talvez o mais irónico fosse que lera Marx de fio a pavio e que em rigor até me poderiam considerar comunista, ainda que com um perfil anarquista que me incompatibilizava com qualquer sistema.

Uma das coisas que mais incomodara os meus inquisidores fora um conto sobre ratazanas gordas que comiam toda a comida das ratazanas magras.

«Sempre será melhor morrer escrevendo - do que viver sem escrever.» - pensava.
 
Assim atravessei a rua, pedindo a Deus que as balas não me doessem demasiado quando me atingissem e que me concedesse a graça de morrer em paz, ainda que debaixo de fogo.

A paz é um acontecimento de outra ordem que não a dos factos.
 
Porém, ninguém disparou.
 
Havia um café mesmo em frente e entrei para beber um café que me ofereceram e que me soube ao maior dos luxos.
 
Que maravilha, aquela bebida perfumada e fumegante!
 
Bebi o café pensando no longo caminho que tinha de fazer até à fronteira para poder pedir o estatuto que têm os refugiados políticos.
 
Pensava também na abundância da minha vida passada.

Houvera um tempo em que podia escrever livremente. Um tempo em que tomar um duche era uma coisa normal do fim do dia. Em que pegava no carro e guiava para onde quisesse, sem prestar contas a ninguém. Um tempo onde a única coisa que faltava era mais tempo para dar asas ao entusiasmo de viver e onde essa tão grande abundância que passava por dormir em camas de lençóis lavados e lavar a loiça com água quente parecia inatacável e garantida por todos os amanhãs da minha vida.

Hoje iria caminhar muitos quilómetros, se tivesse sorte.

Iria dormir ao relento, e comer o que aparecesse.

O que me sustinha era a esperança.

E, talvez porque a diferença entre a possibilidade de morrer e viver fosse agora tão pequena, sentia-me forte.

São inimagináveis os recursos que a nossa alma e o nosso corpo encontram quando querem agarrar-se à vida.