É sempre uma tentação confundir o singular com o geral

Sonho CCXXXIV


Eu e a minha amiga C. tínhamos de descer umas escadas.
 
Só cabia um de cada vez.
 
As escadas eram tão íngremes que parecia que íamos mergulhar de cabeça no abismo.
 
Não se via o fundo.
 
Antes de descer cada degrau tinha de fazer uma oração e entregar-me nas mãos de Deus, tal era o medo.
 
Eram ainda muitos degraus.
 
Por isso, a minha amiga, já impaciente, exclamava:
 
- Isto não se pode!...
 
E, montando a cavalo no corrimão, com a cabeça voltada na minha direcção, desceu aquelas escadas em menos de um segundo, desaparecendo na escuridão.
 
Eu admirei-a profundamente, mas não foi por isso que consegui mudar a minha natureza.
 
Penso que terei conseguido descer aquela escada em dois dias.
 
Animava-me, enquanto descia, degrau a degrau:
 
«Mal ou bem, hás-de chegar ao fim. Mais vale tarde que nunca!... Só tu e Deus é que sabem a dimensão da tua coragem, mas isso é mais do que suficiente.»
 
Lá em baixo estava uma família de turistas chineses que me filmavam com um telemóvel, porventura para se divertirem de um modo inocente com os hábitos extravagantes de uma cultura alienígena.
 
É sempre uma tentação confundir o singular com o geral - e vice-versa.