Sobre o celibato

Sonho CCX


A Françoise decidira investigar o paradeiro de alguém que em tempos amara.

Encontrou uma fotografia sua de costas, porque ele era um cobarde.

Mas quem não é cobarde?

O pior era forma como olhava para uma cena em que duas mulheres e um homem se divertiam no meio da lama.

Os corpos nus estavam cobertos de musgo e lama.

O que lhe lembrava uma cena do Indiana Jones em que ele cai por uma cascata de lama e aterra num lago de lama com a cara mesmo no meio das pernas da sua companheira coberta de lama, e, depois de alguns segundos, levanta o rosto enlameado e a sorrir, embevecido.

A Françoise lembrava-se bem de que como achara esta cena interessante, aos doze anos.

Mas o musgo e a lama também lhe lembravam uma cena do Stalker em que os três peregrinos dormem no chão, com o rosto encostado à terra e, por cima do corpo, pequenos bichos andando.

Era como se o Stalker tivesse uma relação amorosa e íntima com aquela terra.

Porém, aqueles participantes da cena na lama pareciam estar a fingir o seu prazer.

Queriam apenas ser uns como os outros, isto é, queriam ser aceites.

O que mais afligia a Françoise era o comprazimento que o seu antigo amado parecia retirar daquela miséria alheia.

Como é que a Françoise via isso?

Via-o na expressão do seu rosto, subtilmente matizada de gozo e altivez.

Captava-o de um modo tão instantâneo como quem capta uma cor - um verde, ou um azul.

A Françoise tinha amado aquele homem durante muito tempo.

No entanto, ser capaz de captar aquele desprezo dissimulado que ele tinha por um semelhante deixava-a tão fria como um bloco de gelo polar.

Primeiro o desencanto, depois a indiferença e depois a tristeza, apoderaram-se dela.

Mas qualquer coisa de extraordinário aconteceu a seguir.

Libertou-se uma energia incrível, como se a sua alma fosse um foguetão e tivesse acabado de disparar.

A Françoise sentiu uma independência veloz, uma força incrível.

Jamais ela seria o primeiro ou o segundo elemento de um casal.

À sua frente abria-se o infinito, como uma ampla pradaria de estrelas a explorar, um imenso espaço indeterminado e prometedor, aventuroso.

A qualidade específica dessa alegria era indescritível.