Luva, crina, dó

Sonho CXCVIII



Era um sonho interessantíssimo.

«Que coisa extraordinária!...» - Pensei.

Era uma descoberta, um renascimento. Agora, sim, eu iria começar a pensar de um modo totalmente diferente. 

«Ah!... Como se pode olhar de repente para tudo com novos olhos!... Como é tudo diferente!... Ainda não estou morto!... A realidade ainda não se cristalizou numa forma adulta, numa única modalidade!... Ah!... Que infinito!... Que horizonte!... Que extensão!... Que possibilidades!...»

Mentalmente, no interior do sonho, tomei nota de três coisas:

Luva

Crina


Pois eram os eixos, as articulações desse raciocínio que me salvaria da morte.

Quando acordei, porém, encontrei-me apenas com isto: 

- Luva. Crina. Dó.

Onde estava o resto?

Que raio de coisa absurda!...

Onde estava o caminho do infinito que essas palavras me prometiam?

É triste que a passagem do entusiasmo à miséria se faça com elementos tão dúbios e tão risíveis.