Sobre uma garrafa de Vodka

Sonho CXCVIII



A Françoise vivia de novo esse sonho de reencontrar Heinrich Hart, um sonho que parecia repetir-se indefinidamente.

Desta vez, porém, o sonho era mais real e mais assustador.

Alguém dizia: «A partir de uma certa idade ninguém se casa.»

Pois era como se a partir de uma certa idade o princípio da realidade ganhasse uma tal força que já não sobrava margem para quaisquer fantasias a respeito do casamento.

Heinrich Hart prodigalizava-lhe uma agradável atenção, entre a gentileza, o humor e uma graça que lhe era intrínseca, tão natural como um certo ar.

Estavam tão perto um do outro como se fossem iniciar um beijo e, tal como Proust, quando beijou Albertine pela primeira vez, a Françoise sentiu-se à beira de uma desintegração.

O rosto dele que era essencialmente longitudinal a uma certa distância alterou-se de tal forma que tudo pareceu perder-se para a Françoise.

Ela já não sabia quem amava, nem exactamente quem era. Tudo se desfazia no enorme rosto que parecia uma estepe, um planalto, um deserto. Os olhos, e principalmente o nariz, estavam irreconhecíveis. Ao longo de uma imensa linha latitudinal tudo se dispersava, tudo acelerava. A Françoise sentia que os seus pontos cardeais se tornavam tão precários e instáveis como os de uma estrela suspensa de um vórtice em movimento. Sentia que tinha oito braços mas que eles não agarravam nada. Era como se tudo girasse à beira de um nada, de uma desaparição. A intensidade era tal, que tudo se esboroava.

Além disso, este género de felicidade paradoxal durou pouco, mal a Françoise descobriu que afinal Heinrich Hart queria apenas que casasse com o seu melhor amigo.

A contabilização deste desgosto era tão difícil, a distância entre a esperança e a desilusão, entre o desejo e a realidade, entre as suas precipitadas percepções e a verdade era de tal modo imensa que a Françoise só quis de súbito um rápido esquecimento, uma suspensão da sensibilidade, uma espécie de morte intervalar, isto é - uma garrafa de Vodka.