Sobre a graça e o mérito próprio

Sonho CXCVI



Conduzia o meu carro já noite avançada, quando vi passar em sentido contrário uma camioneta que circulava com a caixa aberta e, dentro da caixa, crianças que corriam e saltavam, sem qualquer segurança.

«É um crime!...» - Pensei, olhando para trás para ver a matrícula, num relance, porque não podia tirar os olhos da estrada, nem fazer inversão de marcha.

«Que posso fazer?...»

A matrícula era 03-07-07. Não fazia qualquer sentido.

Onde estavam as letras?

«É um crime ainda mais grave!...» - Pensei. - «Nem sequer estão identificados!...»

Ao chegar ao meu destino, porém, reparei que não tinha travões. 

Coloquei os pés fora do carro e travei com os pés, como se o carro fosse uma bicicleta.

Nem travões, nem acelerador, nem embraiagem, como é que tinha chegado ao meu destino?

O meu banco não andava só para trás e para a frente, como é habitual nos automóveis, mas andava para cima e para baixo, como é habitual nas bicicletas.

Não conseguia perceber porquê, mas tinha colocado o banco tão alto que nem chegava aos pedais.

«Estás a ver?» - Dizia de mim para mim. - «Tão preocupado com as infracções dos outros, que nem reparas nas tuas!...»

Bem se podia dizer que, se chegara são e salvo ao destino, e sem atropelar ninguém, fora apenas pela infinita graça de Deus, e não por mérito próprio.