Sobre a morte e a loucura

Sonho CLXXXV


Como aconteceu em tantos outros sonhos, a avó Edith afinal estava viva.

Porém, não habitava neste planeta.

Aliás, estava bastante aborrecida porque no planeta onde habitava não a tratavam como gostava.

Mostrava-me as pernas, ou melhor, as canelas, cobertas de uma pelagem branca que parecia uma barba.

«Oh!... Mas tu tens muito dinheiro!... Porque é que não te tratam como queres?...»

Ela explicava-me que nesse planeta o dinheiro não valia nada.

Por outro lado, a Francisca M. não conseguia deixar de pensar em Heinrich Hart, mesmo passados tantos anos.

A culpa era do Proust, que descrevera tão bem aquele estado obsessivo do amante rejeitado quando falara sobre o nome do amado que se repete como uma infinita frase mecânica na memória, causando um sofrimento extremamente difícil de suportar, mesmo para os mais fortes.

Infelizmente, a leitura desta acurada descrição havia reavivado na Francisca afectos de tal modo intensos que ela se convencera que tinha de fazer alguma coisa com urgência.

Para isso precisava de encontrar alguém que sofresse de uma psicopatologia semelhante e que a pudesse encorajar nos seus projectos.

Então, com o apoio de uma velha amiga, a Francisca decidiu inscrever-se num curso ministrado por Heinrich Hart, que se intitulava: «A consciência nas personagens da tragédia clássica grega.»

A Francisca estava em pulgas de curiosidade. Como discutiria ele a consciência de Fedra, Electra, Édipo, ou Tirésias?

«É claro que a consciência destas personagens devem ser os coros.» - pensava a Francisca. «Que empolgante será passar a pente fino todas as falas dos coros!... Que belo trabalho!... Ou não é a consciência sempre uma multidão? Uma multidão de vozes? E que seria de nós se nunca ninguém, desde o nascimento, tivesse alguma vez falado connosco? Seríamos conscientes

Claro que nas tragédias havia aquele peculiar desfazamento entre a consciência e a realidade. Ou a consciência chegava sob a forma de uma profecia absurda que era incompreensível, ou a consciência chegava sob a forma de um entendimento que era fatal. Inconscientes e felizes, como patetas alegres, ou lúcidos e mortos, como condenados, seriam as duas alternativas únicas para uma consciência trágica?

Embora soubesse antecipadamente que tinha de renunciar a projectos como este de se inscrever num curso para poder encontrar Heinrich Hart, a Francisca, por uns minutos, sentiu-se verdadeiramente feliz.

Mas sabia perfeitamente que quando chegasse a hora de estar a vê-lo o sofrimento seria tão atroz que nem uma migalha de pão poderia passar pela sua garganta apertada durante todo o dia e que não haveria outra saída senão fugir compulsivamente para poder chorar em qualquer lado a impossibilidade de realizar o único acto que lhe poderia trazer algum alívio - isto é, deitar-se com ele.

Gustave Moreau, Édipo e a Esfinge, óleo sobre tela, 1864, Metropolitan Museum of Art