Sobre um comboio chinês

Sonho CLXXXIII



A Maria do Mar dirigiu-se a uma loja chinesa para comprar lápis de carvão. 

Quem lhe vendeu os lápis foi uma criança que estava acocorada no chão.

Quando abriu a caixa, a Maria do Mar verificou que os lápis tinham sido roídos por um cão.

Os donos da loja ficaram muito aborrecidos e pediram muitas desculpas a Maria do Mar.

«Não tem importância.» Disse a Maria do Mar. «Por mim está bem assim.»

Se os lápis escreviam na mesma, para que quereria outros?

Além disso, tinham sido demasiado baratos.

Ao menos assim percebia-se que fossem tão baratos.

Como não conseguiram entregar-lhe uns lápis novos, os donos da loja convidaram-na para uma espécie de acontecimento cultural.

Era uma coisa muito estranha.

Cada grupo segurava uma espécie de grandes ventosas que pareciam sinos.

O evento decorria numa estação de comboios, ao longo do cais.

Os grupos alinhavam-se paralelamente à linha férrea, cada um com a sua grande ventosa. Todas as ventosas estavam unidas umas às outras por cordas enfeitadas com pequenas fitas azuis, vermelhas e brancas.

Quando chegou o comboio - Zás! - agarraram-no com aquelas ventosas enquanto gritavam palavras de ordem que para a Maria do Mar eram incompreensíveis porque estavam em chinês. 

Eram milhares de chineses agarrados às cordas e havia um clamor imenso, incompreensível.

Quando se abriram as portas do comboio, começaram a sair os passageiros, elegantemente vestidos, carregando acessórios luxuosos e caros. Malas da Gucci, relógios de ouro, fatos da Ralph Laurent, anéis com diamantes...

Só que os passageiros eram todos, sem excepção, esqueletos.

Esqueletos andantes.

«Será que foram inteiramente capturados pelo materialismo capitalista do ocidente?»- pensou a Maria do Mar.

«De que lhes servem tantas jóias e relógios de ouro e roupas de marca, senão um dia para enfeitar os ossos e a carcaça?»


Paul Koudounaris, «Memento Mori: The Dead Among Us»