Sobre o desespero

Sonho CLXXIV
 
 
Era já tarde quando Andrea Antonov entrou na sua sala e encontrou um génio.
 
O génio era uma mulher brilhante e artificial com o cabelo pintado e uma espessa maquilhagem.
 
Trazia na mão uma lista de cinco desejos.
 
- Vai-te lixar. - Pensou Andrea Antonov.
 
Parecia uma apresentadora de um programa da tarde, popularucha, com as mamocas visíveis e um mau gosto implacável em cada pormenor da indumentária.

Como poderia ser um génio?

Andrea Antonov sentou-se no chão a beber, com as garrafas de vodka entre as pernas.

Bebeu tanto que já não conseguia segurar nas garrafas e por isso álcool entornou-se e começou a inundar a sala.

De onde vinha tanto álcool?

O vodka subiu e cobriu-lhe as pernas, até à cintura.

Cobriu as pernas das mesas e as pernas das cadeiras.

Cobriu o cão.

Mas o génio continuava, brilhante e imóvel, com a lista de desejos na mão, de pé, em cima da mesa de jantar.

«Vamos morrer todos afundados em vodka.» - Pensou Andrea Antonov.

«Será que ninguém é capaz de nos salvar?»

Mas logo alguém abriu a porta da sala e deixou que se escoasse todo o álcool.

O cão cambaleava e Andrea exclamou: «Pobre cão!... Deus queira que se cure!...»

O que aconteceu imediatamente.

Mas Andrea Antonov não conseguia pôr-se de pé.

Por isso exclamou: «Era tão bom que me conseguisse pôr de pé!...»

E logo se levantou.

Mas Andrea Antonov também não conseguia pensar. Tinha a cara cheia de sangue, por ter andado aos tombos.

«Quem me dera ter uma cara intacta!...»

O que se verificou nesse mesmo segundo.

Andrea Antonov olhou-se no espelho, mas sofria com os pensamentos turvados e o enjoo insuportável.

«Este é um verdadeiro génio, não há dúvida. Se ao menos eu estivesse em condições de pensar!...»

Foi no preciso momento em que se esfumou como uma labareda o insólito congénere do da lâmpada do Aladino que Andrea Antonov começou a pensar.