Sobre a utilidade e a inutilidade da literatura

Sonho CLXX

 
A avó Edith, afinal, estava viva.
 
Era de uma beleza rara, que fazia lembrar a de Natasha Kinski mas que nela envelhecera tão bem. E tinha esses cabelos brancos tão brancos e tão bem delineados em torno do rosto aristocrático, que ela mesma cortava, por detestar que lhe mexessem na cabeça, os cabeleireiros.
 
Os negros olhos brilhantes muito vivos e nos lábios um ligeiro baton.
 
Essa avó que adorava cuidar de animais e de flores e a quem todos os cabelos tinham caído com vinte anos, depois de amparar o irmão mais novo que se suicidou com um tiro de caçadeira e que lhe morreu nos braços.
 
«Não existe acto de maior cobardia, nem acto de maior coragem». - Dizia ela, quando falava do suicídio em geral - «Foges da tua vida, sem saberes para onde vais.»
 
Mas concerteza que não falava de morte voluntária, aquela que desejou quando agonizou nos últimos anos da sua vida com cancro, e que seria um outro tipo de acção.
 
«O que eu queria era entrar no mar e nadar até perder a terra de vista, até já não ter forças. Pedir-vos que me matassem... Mas não posso fazer de vocês assassinos.»
 
O irmão tinha fechado a porta à chave mas ela trepou pelas paredes e quebrou as altas bandeiras de vidro sobre as portas e lançou-se no interior do quarto.
 
E afinal estava viva, esta avó que sofria de um curioso inconformismo social que a fazia tecer inusitados comentários, achando graça àquela criada que numa noite recebia o polícia, noutra o bombeiro.
 
«Uma noite eram as botas do polícia. Na outra eram as botas do bombeiro.»
 
Ou condenar a Princesa Diana por não ter sabido prevaricar ao menos como a Rainha de Inglaterra, sem escândalo.
 
«Não penses que a Rainha não sabia divertir-se.»
 
Ou rir-se sempre que a neta perdia a aliança de casamento.
 
«Esta não gosta nada da anilha!...»
 
O que não a impedia de lhe comprar imediatamente uma nova, para que não andasse sem anilha.
 
Ela própria, enfim, de uma integridade rara, apesar da sua cordial compaixão por fraquezas alheias.
 
Comunista por adesão imediata, antes de saber dos assassínios em massa perpetrados pelos regimes totalitários, crente convicta em como seríamos descendentes de extraterrestres, por estarmos, ao contrário dos outros animais, tão desadaptados ao planeta Terra e, por outro lado, por causa das inúmeras e subtis referências tecnológicas dos contos de fadas e da Bíblia (tapetes e vassouras voadoras, elevadores em pés de feijão, nuvens tele-dirigidas, portas que se abrem e fecham por telecomandos de ondas vocais à distância, espadas de fogo, discos voadores faiscantes, espelhos falantes pré-televisivos, saltos e viagens telepáticos, etc).
 
«Já reparaste que somos os únicos animais que andam com roupa?»
 
«Vê lá bem, existe coisa mais natural do que o comunismo? Já se viu coisa mais bem pensada?»
 
Desligada dos bens materiais e generosa ao ponto de despir toda a roupa para dá-la a quem tivesse frio, essa fora a rapariga que nascera fora do casamento e que um dia confrontara o pai, no luxuoso palacete da Avenida da Liberdade, lançando-lhe aos pés um enorme jarrão da China enquanto toda a família se escondia debaixo da faustosa mesa para quarenta pessoas, temendo a imprevisibilidade de um homem que regressara louco da Primeira Guerra Mundial, depois de ter sido dado como morto durante quatro anos de que não houvera história, nem relato, nem memória.
 
«La vie en rose.» - Dizia ela, referindo-se ao amor da sua vida, aos criados, às quintas, aos automóveis, aos cavalos e aos vestidos feitos por medida no Paris em Lisboa, mas, para a neta que a ouvia e que também ouvia a história desses filhos extravagantes ou loucos que tinham fugido da casa violenta e rica, ou que se tinham matado, ou tentado matar, e que ouvia a história daquela irmã inteligente mas que tirara o sétimo ano do liceu às escondidas porque era uma rapariga e não a deixavam estudar (pois só podia tocar piano e, quanto muito, aprender francês), essa neta que agora pertencia a uma geração subitamente pobre por avareza ou inconsciência dos pais e transformada em simples trabalhadores-nus, como tão bem descreveu Marx, para si essa vida em rosa tinha um aspecto sangrento, excessivo, terrível e uma dor insuportável atravessava-a por todos os lados, como um campo por um vento feroz e desregrado, que tudo arrancasse, como uma terra sucessivamente fendida por sismos traumáticos, e era uma dor excessiva que nos deixava de rastos, sem forças, sem cabelos e exaustos ao ponto de quase não poder construir, de novo e gesto por gesto, pegada por pegada, pedra por pedra, o edifício dos sonhos que nos agarram à vida e que nos permitem andar de pé e viver.
 
«La vie en rose...»
 
E agora ali estava ela, mesmo à minha frente, viva, tão viva que me ardia nos olhos e me deixava sem coração, aquele espírito irreverente mas peculiarmente conformado e a quem o terror de uma lucidez demasiado aguda pintara tudo de rosa, deixara tudo em rosa.
 
Qual rosa?
 
Onde estava a literatura que agora me iria ensinar a lidar com a revolta de ter ficado sem ela que afinal não partira mas que andava airosa e bem-disposta por ali, sem eu saber, pois mudara-se apenas para um outro sítio onde a surpreendera por um mero acaso e em que vivia uma vida mais alegre e da qual eu não participava nem podia participar, de  modo algum?