Sobre uma saída que não existe

Sonho CLXIX


A Maria do Mar descia pelas escadas de um estacionamento subterrâneo, quando foi abordada por  um desconhecido.

«Tenho o carro no menos um, e você?»

A Maria do Mar desejou uma de duas hipóteses. Ou ter uma arma na mão, escondida no bolso. Ou ter asas nos pés, como um deus antigo.

Chegaram ao menos um, que tinha a porta entaipada, e o homem riu-se:

«Mas era mesmo no menos um!...»

Nesse momento ouviram-se os passos de um grupo de capacetes azuis e o homem gritou, ao mesmo tempo que disparava contra o quadro da electricidade:

«Vamos deixá-los às escuras!»

A Maria do Mar desatou a correr com todas as forças que tinha.

O carro que se lixasse.

Durante a corrida pegou no telemóvel e falou com a polícia.

Sim, era aquele homem de aspecto insignificante e fato escuro e gravata.

A sua descrição batia certo com a de um raptor que constava dos seus arquivos há anos.

E de facto encontraram naquela zona entaipada sete mulheres que estavam ali presas há muito tempo, sem se lavar, e quase sem comer.

Mas a Maria do Mar não conseguia parar de correr.

Numa barraquinha de feira lia-se em grandes parangonas:

ALISTE-SE CONTRA O TERRORISMO.
NÃO ESPERE QUE LHE CAIA UMA BOMBA EM CIMA DA CABEÇA.
 
E noutra mais à frente dizia-se:
 
VENHA TREINAR PARA SER UM GUERREIRO PURO E ARDENTE.
VAMOS ANIQUILAR OS INFÉIS EM NOME DE ALÁ.
 
Só que a primeira não tinha fila, enquanto na segunda parecia haver maior movimento.
 
E a Maria do Mar continuava a correr.
 
Queria sair do mundo, mas não encontrava a saída do mundo.

Escher, «Côncavo e Convexo», 1955