Sobre a impunidade e a punição

Sonho CXXXII



Estávamos todos sentados à mesa quando apareceu a Maria do Mar a correr.
 
De repente, antes sequer de abrir a boca, a Maria do Mar transformou-se numa grande tela branca e o que se seguiu foi um filme que nós, os comensais, seguimos avidamente.
 
Em primeiro plano vimos uma rampa de madeira muito inclinada que subia até à entrada de uma grande gaiola sobre o ramo de uma árvore.
 
A Francisca trepava por essa rampa em grande velocidade e, por causa disso, o fecho éclaire que se via nas costas do vestido abria-se até ao fundo das costas.
 
Era um típico tailleur dos anos cinquenta, justo e recto, cortado um pouco acima do joelho, sem decote e sem mangas.
 
A Maria do Mar seguia-a com a mesma velocidade e o seu vestido, que era igual, abria-se também pelo fecho éclaire das costas, mas de uma forma tão violenta que lhe saía pelos pés.
 
A Maria do Mar trazia ligaduras nas articulações dos joelhos e uns estranhos arames que faziam com que as suas pernas parecessem próteses.
 
Faziam lembrar as próteses que Pistorius deixou à beira da cama na noite em que quis matar, ninguém sabe se um intruso, se a namorada, e, como para a grande justiça humana vale mais deixar por punir um assassino do que condenar um inocente, ele ficou livre, por causa da impossibilidade de determinar um juízo rigoroso.
 
Porém, para a pobre Maria do Mar de imediato surgiu um polícia para a multar e talvez prender por andar assim despida na via pública.
 
A Maria do Mar tinha contudo outros recursos.
 
Lançou-lhe um bruxedo, enfeitiçando-o com um olhar pontiagudo que lhe acertou em cheio.
 
O polícia ficou completamente imóvel e repetia, de olhos fixos no vazio:
 
«Abc, abc, abc, abc...»
 
E pouco mais soubemos, quanto ao final da história.