Sobre generalidades e casais

Sonho CLXVI
 
 
Estavam os dois sentados numa mesa, Rostropovich e a sua ex-mulher, e ele dizia-lhe:
 
- Fazer melhor do que os espanhóis, e basta.
 
Fazer melhor do que os espanhóis? É claro que se referia ao desempenho erótico, a uma coisa de cama. Mas com que género de lucidez é que se atrevia a fazer comparações entre a vida privada dos povos?
 
- Calha, por exemplo, que és muito bom em determinada tarefa. Por exemplo, a traduzir chinês, ou a interpretar música da renascença, em especial, Jacob Clement, esse alcoólico que se auto-apelidou «Não Papa» para marcar bem a distância em relação à igreja de Roma e que se fazia pagar em barris de vinho, desgraçado -  mas afinal basta-te fazer contas de multiplicar acima de uma certa mediocridade estatística e já te sentes feliz só porque imaginas que estás acima do nível médio dos espanhóis? Oh, meu Deus!... Ainda que fosse «um espanhol»!... Um que conhecesses intimamente e que te despertasse um desejo de emulação... Mas contentas-te com uma média ficcional que traduza para os tolos a alma de um povo... Espanhóis. Mexicanos. Uruguaios. Afegãos... Uma imaginária linha média que te salve em pensamento da sensação de ser medíocre - uma ideia geral, oca, social e alheia... Meu querido amigo, que horror... Ainda bem que já és o meu ex-marido.
 
Rostropovich ria-se, bem humorado.
 
- Não te ocorre competir contigo próprio? Atingir o teu máximo? Essa sensação de plenitude e alegria que só a tua essência íntima conhece, e mais ninguém?
 
Rostropovich já se esquecera que tinha começado por falar de cama. Estava mais concentrado no jogo de sedução que consistia em enquadrar o absurdo daquela afirmação no contexto da sua personalidade singular e que compunha com a ajuda de gestos, expressões bem-humoradas e matreiras, acessórios e roupas. Na verdade, estava apenas a picá-la, para poder ao vivo vê-la pegar nas armas dos seus prolíficos e exóticos recursos de retórica, que Rostropovich apreciava, à sua maneira muito particular.

Quão distantes podem ser os íntimos!... Eram dois animais de línguas de tal forma estrangeiras uma à outra que causava espanto e admiração pensar que alguma vez tivessem formado um casal.