Sobre as novas tecnologias

Sonho CLXV


F. de Riverday descia tranquilamente as escadas até ao momento em que se apercebeu que as escadas não eram realmente escadas mas um espaldar de ginásio com muitos metros de altura.
 
Quando olhou para baixo, Riverday sentiu uma vertigem que quase a fez perder o equilíbrio e cair.
 
Seria a sua morte. Segurou-se com força com ambas as mãos e olhou de imediato para cima, onde leu, escrito numa tabuleta bem visível:
 
 
VEJA COMO OS SEUS PÉS PARECEM MAIORES
QUANDO OLHA PARA BAIXO
GRAÇAS ÀS ESCADAS QUE LHE PROPORCIONAMOS

 
«Não era com vocês que eu queria falar, seus propagandistas de merda.» - pensou a Riverday - «Eu só queria ter uma conversa com Deus.»
 
Imóvel, Riverday gritou por ajuda, mas ninguém tinha tempo. Todos corriam nalguma direcção.
 
Então deixou cair a mala com o telemóvel, os documentos, a carteira, o casaco, o cartão de cidadão e tudo o mais que lhe pesava.
 
Talvez alguém suficientemente bom ou amável se encarregasse de lhe devolver as coisas.

Riverday desceu então um degrau de cada vez, com longas paragens para fechar os olhos e respirar.

Demorou muito tempo. Por fim, quando chegou cá a baixo deu de caras com o seu primeiro amor, o único que escolhera sem a interferência mágica de uma atracção sexual, afinal, o único em que apenas a má sorte, e não a luxúria, a perdera.

E como a conversa era agradável...

Ele parecia interessar-se genuinamente pelas suas actividades, sem segundas intenções ou, como dizem os ingleses, sem uma «hidden agenda».

Estava agora casado e tinha uma filha, e ambos conversavam sobre uma amiga que era especialmente talentosa com a câmara, mas que não tinha nenhuma necessidade de filmar.

«Nem só o talento faz o artista.» - comentou a Riverday.

Porque os objectivos dessa rapariga consistiam em sair de Portugal para viver num país mais desenvolvido e conseguir assim uma vida estável e materialmente rica.

Riverday assistia ao filme do seu ex-namorado sentada ao lado da sua mulher - uma de duas raparigas que talvez pudesse ter amado, na juventude.

Ela mantinha esses cabelos suaves e curtos que eram tão macios ao toque e que a faziam flutuar entre o rapaz e a rapariga.

Como tinha deixado cair o antigo, a Riverday tinha agora um novo telemóvel que produzia um fumo (parecido com aquele que invade os palcos nos momentos de mistério) que lhe permitia voar.

Ao que chegam as novas tecnologias!...

Então a Riverday produziu com a sua pequena máquina uma grande nuvem de fumo de onde saiu montada a voar, alegremente.