Vida e Arte

Sonho CLXIII
 
 
Era preciso entregar uma obra de arte num museu que aceitasse coisas que tivessem tanto a ver com vida como com arte.
 
Mas os museus só queriam arte.
 
Lá dentro estava tudo morto e quem guardava esses tesouros hirtos do trabalho morto eram homens armados e totalmente vestidos de branco.
 
Até as botas e os capacetes eram brancos.
 
Até a viseira dos capacetes era branca.
 
«Que nojo. Tanta brancura.»
 
Pensava eu, com as telas enroladas debaixo dos braços.
 
Por fim, conseguia um museu que aceitasse aqueles trabalhos. De uma alta escadaria descia um bando de mulheres esguias e negras que traziam as suas potentes carapinhas em pé e que agitavam os membros freneticamente.
 
Compunham com aqueles movimentos espasmódicos das pernas e dos braços uma estranha dança que estava entre o transe tribal e a experimentação pós-moderna.
 
«Aqui é que é.» - Pensava eu.
 
Mas lá dentro dava-se início a uns jogos que desconfiava serem apenas pretexto para chegar a umas brincadeiras sexuais.
 
«Podes sempre começar a jogar e pões-te em fuga quando chegar a hora.»
 
Era a minha resolução, para não me sentir excluído, logo de início, daquele museu aparentemente tão interessante.
 
Como sempre, a primeira intuição estava totalmente certa e de facto via estendido no chão um homem dos seus cinquenta anos, completamente nu, muito branco e com uma barba rala, mas sem pilinha.
 
«Como é possível, com barba, ombros largos e cintura estreita, que não tenha os órgãos sexuais correspondentes? De onde vêm as hormonas que são responsáveis pelo desenho do corpo?»
 
No entanto, eu sabia perfeitamente que esta imagem do homem branco estendido no chão e com uma vagina no lugar de pénis vinha de uma descrição da nudez de Albertine realizada por Marcel, seu amante, n'A Prisioneira, de Marcel Proust.
 
Na verdade vinha dessa frase tão estranha com que Marcel se refere, não só aos «dois pequenos seios empinados» e «tão redondos que pareciam não tanto fazer parte integrante do seu corpo como terem ali amadurecido como dois frutos», mas principalmente ao «ventre (dissimulando o lugar que no homem se desfeia como um grampo que tivesse ficado cravado numa estátua recém-inaugurada)».
 
Ora, o que eu via com extraordinária nitidez no homem estendido no chão do meu sonho era essa junção nas coxas das duas valvas brancas e depiladas e que se assemelhava aos dois gomos paralelos de um fruto sumarento, mas que não tinha nada de suave, nem de repousante, nem de claustral como o céu logo após o pôr-do-sol, segundo as impressões de Proust, nessa estranha descrição.
 
Pelo contrário, essa visão provocava-me uma angústia subtil e rasteira, indefinível, como se a linha entre Eros e Morte, afinal, estivesse ainda por traçar.
 
E esse «grampo cravado numa estátua recém-inaugurada», como é que alguém pode lembrar-se de uma tal coisa, ao olhar para as coxas de uma mulher?
 
Da porta de um quarto, no interior do museu, podia ver-se uma grande cama com muitas raparigas aos saltos.
 
«Quem quer um homem sem pilinha?» - Perguntava alguém.
 
«Nós queremos! Nós queremos! Nós queremos!»
 
Gritavam as raparigas aos saltos.
 
E o sonho ficou-se por aqui.