Sobre a insegurança

Sonho CLIX

 
A Maria do Mar, ao entrar num dos corredores da sua casa, descobriu que esse corredor não tinha porta e que dava para uma espécie de centro comercial.
 
Era urgente vedar aquela entrada. De outra forma, como poderia a Maria do Mar sentir-se segura na sua própria casa?
 
A Maria do Mar instruiu a sua cúmplice para falar com um serralheiro.
 
- Entra com ele pela porta que se pode fechar. Não lhe digas que se pode entrar e sair por este buraco. Pede-lhe apenas que faça o seu trabalho. E sai com ele pela porta que se pode fechar.
 
- Meu Deus!... Como é que vamos conseguir dormir esta noite?...
 
Entretanto, por uma questão de segurança, a Maria do Mar decidiu investigar para onde dava aquele lado aberto da casa.
 
Parecia um conjunto de armazéns labirínticos com alas de centros comerciais e escritórios cheios de gente em open space.
 
«Mais valia que nem sequer soubesse disto.» - pensava a Maria do Mar.
 
«Porque é que entrei no maldito corredor? Dormia descansada desde que não soubesse - e estava o assunto arrumado.»
 
No entanto, surgiu um problema, um enorme problema. O espaço era tão labiríntico que a Maria do Mar se perdeu e já não conseguia regressar a casa.
 
Cada corredor era tão diferente, com paredes de cores tão diferentes, com o chão tão diferente, forrado de materiais tão diferentes!...
 
Era impossível orientar-se no meio daquela profusão de informação e naquela desordem.
 
A Maria do Mar porém respirou fundo e determinou-se a não se deixar abater pelo pânico.
 
«Vamos lá.» - disse de si para si - «Há pelo menos um ponto que sei para onde está virado, em relação à minha casa, e, por mais voltas e contra-voltas que estes corredores dêem, hei-de conseguir orientar-me se mantiver a relação com este ponto na memória.»
 
Esse ponto era uma daquelas grandes portas giratórias que existem na entrada dos hotéis e, com a ajuda dessa referência, a Maria do Mar começou a desbravar o caos.
 
Sempre que perdia a noção de onde estava, voltava atrás e repetia o processo - o que a fazia avançar de todas as vezes um pouco mais.
 
Apareceu então um executivo de fato e gravata que lhe comunicou:
 
- Minha senhora, cada vez que você se engana, uma quantia é debitada na sua conta bancária.
 
- Uma quantia?
 
- Uma quantia, exactamente.
 
- Mas que quantia?
 
- Uma quantia, precisamente, minha senhora. São as regras.
 
- Mas não faz sentido nenhum... É uma coisa perfeitamente injusta... Tenho alguma culpa que a minha casa tenha um buraco sem porta e que isto seja um perfeito labirinto?
 
- Quem lhe disse que as regras são para fazer algum sentido? Quem lhe disse que a vida é para ser justa? Acha justo que uma criança morra afogada com quatro anos de idade, a fugir de uma guerra? As regras modelam apenas relações de forças. E como nós temos mais força - muito, muito mais força! - e você está perdida, estamos a proceder a um débito automático na sua conta. Não pense que pode chegar a algum lado por tentativa e erro, a andar assim para trás e para a frente. Cuidado!... Pense no perigo de chegar a ter um saldo negativo. Já viu o que isso seria?
 
- Ah!... Meu Deus!... O que é aquilo ali?
 
- Um leãozinho.
 
- Um leãozinho?!
 
- Está só à procura de qualquer coisa para comer, o pobre animalzito. Mas não se desconcentre. Consulte o seu extracto bancário. Esteja atenta. Verifique bem as quantias que lhe debitamos automaticamente, cada vez que você se perde. Pobre de mim. Eu também estou à procura de qualquer coisa para comer. É que hoje ainda não almocei.