A morte e a delicadeza

Sonho CLXI


«Se estiver no interior do avião e explodir uma bomba, meta-se debaixo do banco dentro de uma caixa de madeira.»
 
«Se estiver em casa e houver um tremor de terra, cubra a cabeça com os braços e, se possível, meta-se debaixo de uma mesa resistente.»
 
«Se for alvo de um ataque terrorista como o que aconteceu em Paris, lembre-se que as balas atravessam madeira, metal, tijolo e vidro. Procure uma parede reforçada. Se estiver a ver o atacante, lembre-se que ele também o pode ver a si. Procure uma saída segura e corra o mais que puder. Se não houver saída, procure esconder-se.»
 
Lendo esta lista de recomendações, a F. de Riverday questionava-se sobre se seria igualmente útil, em caso de tremor de terra, esconder-se debaixo de um piano de cauda, em vez de uma mesa resistente. Qual seria a diferença entre levar com uma viga na cabeça ou com a alma de um piano na cabeça? Qual seria a diferença entre explodir no ar sentado num banco, ou explodir no ar no interior de uma caixa de madeira? Até onde pode voar uma bala? Já criaram a bala infinita? Aquela que circunvaga o globo terrestre a uma velocidade supersónica, atravessando tudo e todos, sem nada que se interponha no seu caminho? A alma de um piano tem algumas centenas de quilos em metal, ou, quem sabe, mesmo uma tonelada. Talvez fosse útil consultar um perito, para saber exactamente o que fazer nestes casos, pensava a F. de Riverday.

Riverday tinha recebido de um pretendente um estranho presente. Era um mísero raminho de hortênsias ainda por florir e o pretendente perguntara-lhe, não sem uma certa timidez: «Poderás embrulhá-lo tu?»

A nossa morte no meio da vida não deixa de ser como isto.

Uma falta de delicadeza.